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sábado, julho 30, 2011

Rascunho de fábula (monólogo ingênuo)

Um ponto infinitamente adimensional se percebe em uma linha perfeitamente unidimensional em uma área plenamente bidimensional em um espaço obviamente tridimensional.

O ponto pondera pouco (a conclusão óbvia, inelutável):

"Hora de fundar a metafísica".

quarta-feira, março 09, 2011

Ata da reunião de ontem.

– O que me incomoda, dentre muitas outras coisas – dizia Rosbife – é que, numa situação dessas, o silêncio seja tão significativo. Não que o silêncio em si queira dizer qualquer coisa, mas enquanto eu escolho o que falar… Quando eu falo, no final das contas, parece que eu estava fazendo de propósito, o silêncio. Um intervalo calculado.

Rosbife, Catupiry e Mortadela ficaram quietos, deitados na cama improvisada no chão. Não sei quanto tempo foi.

– E não é calculado – emendou Rosbife –. Viu só? Pareceu de propósito.

Ficaram em silêncio.

***

Um pouco depois, começou o sexo.

terça-feira, janeiro 26, 2010

"Arre! Não entendo.", parte III.

Meu Diário,

Arranjei um bico dentro de meu próprio trabalho. Eu tenho que traduzir um livro repleto de runas antigas que encontraram no Amapá e não sei o que fazer. Estou um pouco frustrado, e chove lá fora.

Sinto que encontrarei respostas amanhã!

Boa noite!

p.s.: estou com medo de ter pesadelos de novo.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

"Não entendo absolutamente nada do que você diz", parte II.

Urra! Me livro do peso do pesado peso (o livro, até onde sei, se bem que runas antigas dificilmente seriam escritas em um livro. Valha-me a foda!) jogando-o no porta-malas. Se por um momento julguei que minha tremedeira era por causa do pacote, na verdade é justamente o contrário. Quer dizer, não é culpa do pacote e dele ser P E S A D O (me lembrei, foi assim que chamei da última vez), mas sim de alguma coisa estranha que parece ter acontecido lá atrás. O que era? Pego e acendo um cigarro, encosto no capô.

O estagiário cheirava a desodorante feminino, mas é natural que seja assim, já que é quase certo que ele não é lá dos homens mais homens que conheço, apesar de Anna dar toda a atenção do mundo a ele e absolutamente nenhuma a mim. Também não sei qual é a da barba, e nem qual é a daquele tique de sorrir sempre que acha que falou alguma coisa engraçada, de qualquer forma, enfim, para mim ele não é nada, eu juro. De raiva, trago mais forte.


"Filho-da-puta", arre, odeio cigarro light.

Déjávóu! É isso! Cigarro light! Por que um cigarro light na minha boca, agora e antes? Eu odeio! Não é possível que isso simplesmente tenha aparecido em minhas mãos, assim, sem razão ou motivo! Ora, agarro com firmeza o maço em meu bolso e o coloco contra a luz... Não há nada.

Não, esperem! Flutuando logo atrás do pacote, uma borboleta vem descendo em minha direção. O sorriso mal cabe na minha cara, caramba!

"Cabeçudo, você fica lindo sorrindo que nem um idiota, mas... pode devolver meu maço?"

Gèlo.............. A voz, inindistinguível, é de Anna. Corro para o carro, pulo no banco do motorista e

VVVRRRRRRRUUUUUUUUUUUUMMMMMM!


Vadia.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

"Não entendo absolutamente nada", parte I.

Recebo em mãos um pacote lacrado, pardo, com meu belo nome estampado de um lado (do outro, Érisson Forde, meu chefe, sempre me ameaçando com seu chicote, ahn), e mais importante de tudo: P E S A D O e um tanto retangular.

"Que é isso, caramba?", digo, enquanto coloco cuidadosamente o pacote em cima da mesa. Arre, costas, minhas costas dòem horrores graças a um belo fim-de-semana inteiro jogando pelota basca...Ufa, bom sofá!

"São runas antigas", ele (o estagiário) ri, "o 'Rique Direto' encontrou no Amazonas, parece que é coisa importante".

Estico o pescoço e penso em três palavras que começam com x: xenofobia, xenofilia e xenocracia; "Esperam que eu escreva sobre isso, é?"

"Ah, não", o estagiário dá uma volta na sala de descanso da redação, "não é isso. Falaram que é pra você traduzir".

"Eu não sou tradutor", levanto-me procurando algo no bolso, "vocês sabem muito bem disso", acho um maço de cigarros, "e eu não conheço runa antiga nenhuma", ponho um cigarro na boca e acendo numa boa baforada, "e tem todo o material da Copa para cobrir", me posiciono no contra-luz, olhando para fora da janela.

O estagiário tem mania de coçar a cara toda (barbudo desgraçado) quando fala. "Bem, o Érisson disse pra te dizer que nenhum de nós é tradutor, também, que ninguém no mundo conhece essa língua aí e, mais importante, que você não precisa se preocupar com o resto do trabalho, eu vou assumir sua parte".

"Filho-da-puta", arre, odeio cigarro light.

"Temporariamente".

"Quê?", uma borboleta no décimo quinto andar? Voando em São Paulo?

"Isso de assumir sua parte. É temporário, só, ahn... até quando você terminar a tradução, acho".

A borboleta luta contra uma súbita rajada de ar, tenta com tudo que tem se manter frente a frente comigo. Será que é meu perfume? Ela não sentiria meu perfume pela janela grossa de vidro (bom que seja grossa, pro caso de algum de nós se revelar o Homem-Aranha ou o Clark Kent), mas, ainda assim... Só é possível que tenha alguma coisa a ver com o pacote P E S A D O em cima da mesa. Mmm... "Olha, estagiário, deixa eu te dizer uma coisa...", então ouço o característico tilintar de moedas no corredor... Arre!

Érrisson Forde, 42, bom homem, chefe-editor-dono de nosso jornal vespertino; seu olhar consegue domar leões, acho, embora nunca tenha os visto frente a frente e...

"Bom dia, bom dia.", ele tosse pausadamente, "Ei, Cabeçudo, você sabe que acabou essa de fumar aqui dentro".

Enfio meu cigarro na boca e chupotrago o máximo que dá. Minha perna esquerda vibra, nervosa e dona de seu próprio nariz. Cadê a borboleta, diabo, cadê a borboleta?

"Filho-da-puta. Em duas semanas você tem sua tradução pronta", tento pegar o pacote P E S A D O e sair vagarosamente. Me canso, de forma que sou obrigado a dar uma corridinha até o elevador se fechando.

"Bicha.".