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quarta-feira, fevereiro 10, 2021

 Amora,

eu me lembro de quando tentei te ensinar o que era o amor - este mesmo misterioso para mim, porque eu não o conhecia, muito menos lhe estava familiarizado.

num movimento de trás para frente, peguei o que eu sentia e descrevi, chamando aquelas vontades confusas de amar. em algum momento sugeri que o que queria com você era uma vida para sempre. wouldn't it be nice if we were older?

fiz isso, como em muitos outros momentos da minha vida, porque a queria naquele momento, eu de fato a desejava intensamente. hoje sei que fui moleque e brinquei com o futuro apenas para sustentar nosso presente.

em algum momento, aceitei aquela promessa como algo que era já até mesmo passado, algo inevitável nosso porque já havia acontecido. também vendo de hoje sei que não era bem verdade, o apego ao que já foi no que seria era ainda mais um artifício meu (nosso).

você me deu todas as chaves para entender o que você queria, ainda que tenha sido sempre tão difícil conversar com você. percebo que, mais do que você, eu me emaranhei no meu próprio jogo e nas minhas estratégias e na minha vontade de que tudo funcionasse, de que as coisas pudessem continuar a existir.

I remember every little thing as if it happened only yesterday

Ain't no doubt about it, we were doubly blessed

'Cause we were barely seventeen and we were barely dressed

em algum momento eu desisti de continuar fomentando as promessas de futuro porque eu mesmo não o queria mais. acho que você percebeu e acho, também, que você tomou isso pra si. olhando agora, Amora, eu espero que a cirurgia seja um sucesso e você possa eliminar de vez minha influência em você.

creio que eu entenda o amor um pouco melhor hoje, e eu sei que eu te amo e que amar não é necessariamente querer estar junto e desejar ou talvez mesmo até fazer parte da vida do outro.

It was long ago and it was far away, and it was so much better than it is today

tenho tentado elaborar isso já há muitos dias. o jogo acabou para mim e espero não envolver mais ninguém em minhas tramas. peço desculpas.

Ameixa.

segunda-feira, junho 19, 2017

L.,

Soube de seu problema com as baratas. Não é o melhor assunto pra uma mesa de bar, mas o Rodrigo me disse ‘você sabe que a L está com o apartamento totalmente infestado de baratas, né? já faz um mês e, tipo, literalmente por todo canto, outro dia ela abriu a geladeira e tinha tipo umas 30 baratas na geladeira, e, assim, ela tá lá, né? tipo, ela precisa dedetizar e não tem pra onde ir, eu ia oferecer lá em casa mas você sabe como o pessoal é lá, né?’ e eu respondi que sim, sabia bem como o pessoal de lá era.

Eu queria poder te oferecer um cômodo aqui em casa, mas o que acontece é o seguinte: estou cuidando da cadela de minha prima e de seus 6 filhotes. Não gosto de julgar as pessoas, mas quando aceitei cuidar de seu animal não imaginava que estivesse prestes a ter cachorrinhos! E adoro cachorrinhos, você sabe, mas são 6, e um deles já morreu, então, pra ser bem sincero, minha casa também está infestada por bichinhos fora de meu controle.

(aliás, se souber de alguém que queira um filhotinho de labrador, por favor passe o contato)

Enfim, me entristece sua situação com as baratas, ainda mais sabendo que… Do seu medo de baratas. Agora escrevendo aqui, que bobagem falar do seu medo de baratas, né? Você o conhece muito bem, não tem razão para que eu o invoque.

Desculpa, faz tanto tempo que a gente não se fala, né? Pelo menos seu endereço ainda é o mesmo há anos, embora eu nunca a tenha visitado. Se me lembro bem, você gosta muito da região, moraria aí a vida toda... Acho que eu também, meu bairro mesmo é uma chatice sem fim, mas estou perto de tudo e o sol bate forte agora pela janela. O ar no seu apartamento é bom de respirar? Ah, pergunta idiota, né, respirar com baratas nunca é bom, por melhor que seja o bairro. Desculpa, acho que estou me perdendo.

Bom, escrevi isso mesmo mais para saber como você está. É meio mentira, porque, se fosse realmente isso, eu teria te ligado ou mandado um zap. Ok, você deve ter percebido as 4 folhas de louro frescas dentro do envelope. Eu sei que você não acredita nessas coisas, mas, se você ainda confia em mim pra alguma coisa, faça o seguinte:

  • Corte com as mãos cada folha de louro bem no meinho. Se a folha rasgar um pouco, não tem problema. Enquanto faz isso, tente canalizar os pensamentos positivos sobre seu lar nas pontas de seus dedos;
  • Posicione cada um dos pedaços maiores nos pontos cardeais da sua casa, o mais precisamente que conseguir (Norte, Sul, Leste, Oeste);
  • Posicione os pedaços restantes nos pontos colaterais (Nordeste, Noroeste, Sudeste, Sudoeste);
  • Feche bem as janelas, é essencial que o vento não leve as folhas de louro;
  • Esvazie os lixos, a geladeira e os armários da despensa, jogue tudo fora (IMPORTANTE: NO LIXO DE FORA!)
  • Saia de casa por ao menos uma semana, deixando a porta destrancada;
  • NÃO DURMA NA CASA DE CONHECIDOS.

Sei que as instruções podem soar um pouco contraditórias com o que disse aqui, mas é uma receita de família que, dizem, salvou minha avó de uma infestação de cupins que ameaçava destruir tudo que havia construído em 20 anos – ela ainda era jovem quando aconteceu, só não se podia dizer o mesmo da casa que herdara dos pais.

Pelo menos não é um problema eu não ter lugar para te oferecer, porque a ideia é se deixar levar para outros lugares ainda não colonizados. Você não tem porque me ouvir, e acho que eu também não tenho motivos bons para estar te escrevendo, e pode bem ser que quando esta carta chegue sua infestação já esteja solucionada. Se for este o caso, sugiro que faça um feijão ou um molho vermelho com as folhas do louro, que é delicioso e foi tirado diretamente dum pé que tenho aqui em casa, um louro bonito trazido da Turquia pela minha prima. A mãe dos cachorrinhos adora se deitar abaixo dos pés e, às vezes, masca suas folhas. Hahaha, escrevendo isso, acabo de perceber que, talvez, cachorros não possam comer (e colher) os louros. Devia ter perguntado pra prima.

Por enquanto estamos todos vivos (com exceção do pobre cachorrito que morreu ainda em seus primeiros dias).

Beijos,

Carlos.

segunda-feira, outubro 06, 2014

epitáfios, 4.

se é apenas natural pensar na morte, é pelo menos necessário decidir como fazê-lo (começa aí a ilusão, é possível decidir como pensamos? a mentira é responder sim ou responder não?), qual será nossa morte, quando, como, por quê?

nesse sentido, ao menos é possível ficcionalizar a morte, para, assim, torná-la nossa.

hipótese: talvez seja assim que opera o homem absurdo.

o homem absurdo vive pois já viveu sua própria morte fictícia milhões de vezes. ele já a considerou. ter consideração pela morte é uma das formas de conquistá-la (sem engano, ela nos conquistará em algum momento, mas mesmo essa conquista pode estar sob nosso controle... ao menos ficcionalmente).

um retrato da morte, uma morte invocada por nós, pelo homem absurdo que, por definição, já está morto. o suicídio não é uma opção, pois o homem absurdo já se considera morto.

assim como um mineral é morto, assim como os átomos são mortos, assim como os elétrons, os prótons e tudo aquilo que não me importa é morto, embora pleno em movimento. a partir de um momento, a vida é só dizer que sim, a coisa está viva.

o que está vivo? nada.

domingo, junho 10, 2012

cruzamento.
























num cruzamento de 5 ruas, os faróis se alternam de um jeito meio imprevisível. passo aqui uma vez por semana, mas nunca entendo direito a ordem das coisas: só sei que não devo acelerar quando já estou com o pé na embreagem e o carro ronrona o princípio do impulso.

meu pé direito recua, relaxo o esquerdo.

se estou neste cruzamento, acabo de deixá-la em casa. provavelmente, ela ainda se lembra de mim e até sente a sombra de meu corpo.

penso nela por 2 minutos. à noite, é desperdício gastar tanto tempo num farol.

mas é a intersecção de 5 linhas. é perigoso atravessar um cruzamento tão mal balanceado.

enfim, vou.

segunda-feira, maio 28, 2012

O vizinho planeja tomar armas contra mim.

Tem uma chaleira apitando no apartamento ao lado. Ela faz barulho forte, viril-afeminado, explosivo. Não, ainda não explode, por enquanto é só ameaça. Mas apita, puta, apita demais. Apita aguda, apita sempre, apita há um puta tempo. Trina e treme tímpano. Alguém a ignora, eu não: antes estoura a panela ou minha cabeça? Não aguento a água fervendo, não quero esse aviso nervoso. Tirem essa porra do fogo! Por favor, é só desligar e servir o chá ou preparar o café, não gastem mais gás nem meus ânimos. Podem parar.


Mas ela apita, eu não posso fazer nada. Grita tanto quanto pode e eu me encolho. Não se pode trabalhar assim. Espero que o chá fique uma merda.

domingo, abril 01, 2012

na geladeira:

mãe,

como você pediu, estou botando água nas plantas a cada três dias, à noite.
é bom porque é refrescante, durante o dia está muito quente!
a maria está ficando comigo, então pode ficar tranquila que a casa está inteira.

ontem fui procurar gelo pra botar no copo, mãe.
encontrei canequinhas com água congelada, dentro delas havia nomes.
você os odeia?

ontem bateu aqui em casa um homem barbudo.
a maria foi quem disse: "bateu em casa um homem barbudo!".
eu não tava em casa, mas ela disse: "um homem barbudo e alto e com cara de bravo".
isso lá é descrição?

ele disse, disse ela, que voltava hoje.
não sei, mãe, não gosto de visita assim.
gente que eu não conheço, alta e barbuda.
quem é ele?

ontem eu não tava em casa porque eu fui comprar espelhos novos para o interruptor.
esses últimos que você comprou são muito ruins.
não tinha mais luz na sala.

agora tem luz na sala.
também tem água nas plantas.
não tem mais nomes no congelador…
e eu espero o homem barbudo.

sexta-feira, setembro 30, 2011

quarta-feira, agosto 10, 2011

Aquela noite foi 29 de fevereiro.


Estou esperando você me ligar; já nem sei quantas vezes foi desse jeito, você disse que me ligava mais tarde e aí, bem, aí você pareceu me esquecer por um tempo e, então, você ligou. Sei que vai acabar me ligando alguma hora, mas me magoa imaginar que — talvez — seja mais tarde do que eu quero, do que eu espero de você.

(agora você deve estar rindo um pouco com seus amigos ou assistindo ao fim do filme, já nem lembro a desculpa que você me deu dessa vez)

Uma parte razoável da vida se resume a isso: espera. Espero que, espero minha mãe, espero meu filho, espero o trem e, também... Elipse de um termo não é elipse de tempo. Eu continuo piscando meus olhos e balançando minhas pernas no escuro: sozinha, nua – estou de pijama, ainda assim –, imaginando se o jogo já acabou, se seus pais já falaram o que tinham que falar com você.

(o jantar está bom? seus dentes estão limpos? você ainda me ama?)

Sim, eu estou bem; não, não tem importância ficar sozinha; não tenho medo; sim, tenho medo, mas vai ficar tudo bem; até amanhã, é; não, é claro que eu; você; não; ah; tá, boa noite.

(dance à vontade, bode — berra!)

Não sei quando que as coisas começaram a ser assim, quando você conseguiu outras coisas na sua vida que não fossem eu. Você diz que sou eu que como seu tempo, talvez seja o contrário: é você quem come seu próprio tempo comigo. E aí só restam telefonemas, o resto...

(talvez você esteja mesmo na sua cama, e aí é ainda pior, porque você me trocou por uma horinha a mais de sono)

Como se eu já não te descansasse do monte de coisas que arranja pra fazer. Eu sou mais uma obrigação, só que eu posso ser deixada de lado, porque nos amamos, não é? O amor nos libera um do outro, não é?

Ontem conversei com o Caio, o Guilherme estava junto, o Pedro também, ou então Clara, Lara e Cotomara, não sei, só lembro de Lélio e Lina dançando felizes por se terem, porque aquilo sim era amor, apesar de ser outra natureza, a natureza do Miguilim e da festa do Manuelzão, fabricada, acho, as nuvens amanhã, amanhã acho que eu vou na feira, será que o Caio, você, ou o Guilherme, o Caio foi comigo? O meu irmão já saiu, acho, mas tá escuro-beterraba, a trança. Meu amor, não sei, plexo xixi, naturalmente, sabão coco-ração de porco, não gosto você me perde música, xixi sabonete xampu, xixi banheiro-cardume-de-pães, tenho que, ai, bexixiga xixixeia... Ah, merda.

Quando é assim, no meio da noite, no meio do frio, eu não sento: miro de pé — não sei se é do mesmo jeito que você, porque eu não fico tão de pé assim, e não dá pra ver direito o que acontece. E aí, se o destino estiver do jeito que parece estar, o telefone vai tocar antes de eu me secar. A calcinha molhada ou andar que nem pingüim? Alguém pode atender antes e levantar pra me chamar, aí vão me pegar no meio do caminho com as calças abaixadas, e eu não vou ter como fazer.

(você também riria de mim? está rindo de mim agora?)

Ah, é. Eu tô sozinha — você nem ligou.



 (texto escrito em 2008)


sábado, julho 30, 2011

Rascunho de fábula (monólogo ingênuo)

Um ponto infinitamente adimensional se percebe em uma linha perfeitamente unidimensional em uma área plenamente bidimensional em um espaço obviamente tridimensional.

O ponto pondera pouco (a conclusão óbvia, inelutável):

"Hora de fundar a metafísica".

segunda-feira, junho 06, 2011

celular, quase às 3 da manhã:

Eu vou esquecer o toque do seu rosto, seus seios maravilhosos, o cheiro. Não há Literatura que os salvem.

sexta-feira, maio 20, 2011

o gato desengatou?

O gato está agindo de um jeito esquisito
pior que nem sei faz quanto tempo
os gatos são opacos feito paredes

Percebi hoje que ele desvia o olhar de mim
que ele não roça mais em minhas pernas
que ele não mia mais quando está com fome

O gato me encara debaixo da escada
eu não sei o que dizer
Há quanto tempo está mal, gatinho?

Talvez não esteja mal
essa mania de acharmos que tudo que é estranho é mau
talvez isto que esteja incomodando o gato

Sei que assistir tevê sem o gato não é a mesma coisa

quinta-feira, maio 05, 2011

O Preceptor.

Sala de reuniões de uma empresa de telefonia. Marcos, um produtor e diretor de cinema, senta-se de frente a Paulo, representante de uma pequena empresa de telefonia. Há uma pequena câmera filmadora em cima da mesa, apontada para Marcos.

PAULO
Conversei com o Sr. de la Roche e restaram algumas dúvidas em relação a seu projeto. Ele está bem escrito e apresentado, as planilhas estão todas corretas, veja bem, mas concordamos — eu e o Sr. de La Roche — que faltava... Como se diz? Faltava vida, algum brilho. O senhor... como era, mesmo?

MARCOS
Marcos Bonfim, senhor.

PAULO
Marcos Bonfim, sim. O senhor era dançarino antes, diz aqui em seu currículo.

MARCOS
Sim.

PAULO
E agora é produtor de cinema. As câmeras não o incomodam, então, não é mesmo? (Tosse.) Você deve adorar uma câmera? Você tem ombros bonitos.

MARCOS
Mmm... É, sim, senhor Paulo.

PAULO
Muito bem, hein? De dançarino a produtor e diretor de cinema! Incrível, incrível, poxa vida. (
Tosse.) Você sabe, as câmeras são para nossa segurança, nunca se sabe, não é mesmo? (Espirra.) Enfim, sobre a vida do projeto, você sabe que não estamos acostumados a atender gente pequena, se você está aqui é porque simpatizamos muito com o senhor.

MARCOS (assente com a cabeça)
Muito obrigado, senhor. Vocês... Quando pensávamos no projeto, achamos que sua marca combinava perfeitamente com nossa história, isso porque... Você sabe, o setor da telefonia e o da música, não é mesmo? E sendo um musical...

PAULO
Claro. Você dança, então?

MARCOS
Eu dançava, mas...

PAULO
Você pode dançar para mim? Isso, levante-se, por favor, sem cerimônias! Que tal... Dance, por favor, por favor. (
Marcos se balança lentamente, ensaiando movimentos de dança contemporânea, inseguro) Isso! Era isso que faltava no projeto, agora entendo muito melhor! Era essa a vida que faltava, caramba, quanta classe, que movimentos. Que movimentos! O senhor sabe mesmo se balançar muito bem. O senhor... Você se incomoda se eu o chamar de Marcos?

MARCOS (parando de dançar)
Não, senhor Paulo.

PAULO
Ora, não pare de dançar! E chega disso de senhor Paulo. (
Tosse bastante.) Pode me chamar de Paulo de Ferro, é como me chamam por aqui. Mas dance, dance! Você dança muito bem.

MARCOS (ofegante)
Obrigado, Paulo de Ferro...

PAULO
Então, Marcos Bonfim... Você sabe que gostamos muito de músicas e danças, mas realmente não estamos acostumados com projetos tão pequenos e baratos. (Tosse.) Um curta-metragem musical? Você é muito engraçado.

MARCOS (parando de dançar)
Mas... Quando pensamos em vocês... Sabemos muito bem que o dinheiro é tão pouco para vocês... E divulgaremos sua empresa na Internet...

PAULO
Por favor, continue dançando! Não queria o ofender, sua dança não tem nada de engraçada, está alegrando meu dia! Depois de você vem o
Cirque du Soleil e você não imagina como eles são sisudos e chatos. (Tosse.) O que eu vinha dizendo é que eu e o Sr. de la Roche não acreditamos na viabilidade comercial de seu filme. Marcos, Marcos Bonfim, você sabe por que está dançando?

MARCOS (para de vez de dançar)
Porque você pediu...

PAULO
Exatamente, exatamente. Você já ouviu falar na Srita. de la Roche? Por favor, sente-se!

MARCOS
Não, senhor, mas, quanto à viabilidade do projeto... Sei que a contrapartida econômica não será muito forte, mas, sendo dinheiro de isenção... Calculamos aqui que o orçamento é bem abaixo do limite de sua empresa...

PAULO
Sim, é verdade. Mas você já ouviu falar na Srita. de la Roche?

MARCOS
Não, mas imagino que seja filha do Sr. de la Roche...

PAULO
Incrível, e ainda por cima é um gênio! (
Toca o telefone.) Sinto muito, eu preciso atender. (Tosse repetidamente, nervoso.) Sr. de la Roche? Sim, tenho-o aqui. Certo... Tudo bem, então levo adiante. Ok. (Desliga o telefone.) Marcos, Marcos Bonfim, você deveria estar muito orgulhoso! O Sr. de la Roche disse que você é perfeito, que ele nunca se emocionara antes com tanta intensidade vendo alguém dançar!


MARCOS (olhando ao redor)
Muito... obrigado?

PAULO
Sim! Você... (
espirra.) Estamos muito perto de chegarmos num acordo! Marcos, você pode tirar sua roupa?

MARCOS
Não, senhor.

PAULO
Ora, senhor pra lá, senhor pra cá! Ande logo, tire sua roupa. Estávamos falando de vida, do vigor de seu projeto! O que precisamos é saber se o senhor tem a saúde boa, se é que você me entende. (Crise de tosse.) Arre, o ar dessa cidade! Vamos, tire logo tudo, fará um bem danado para seu filme! (Pigarreia.) Somos apenas eu e o Sr. de la Roche o vendo (aponta para a câmera).

MARCOS
Eu... Claro. (tira toda a roupa e cobre seu púbis com um contrato).

PAULO
Muito bem! (Pigarreia.) Agora sim estamos falando como gente grande! Sem mais mistério, sem mais mistério. Marcos Bonfim, o senhor tem um belo corpo, ah, isso sim! (Tosse terrivelmente.) Queremos que, como contrapartida, você dê umas aulas de dança para a Srita. de la Roche. Evidentemente, podemos dar mais um dinheirinho para tal, sem problemas.

MARCOS
Só isso?... Senhor... Paulo... Me parece um bom acordo.

PAULO
Ora, que bom! (
retira um lenço do bolso e assoa o nariz.) Agora, deixe-me ver esses documentos!

MARCOS
Os... documentos?

PAULO
Esses em sua mão! Jogue-os aqui.

MARCOS (Lança os papéis sobre a mesa, Paulo os ignora e continua o encarando, com um sorriso de canto a canto do rosto. Marcos olha para o chão.)
É isso?... Posso me vestir...?


PAULO
Claro que pode. Muito obrigado, Marcos Bonfim.

Marcos pega suas roupas no chão, Paulo guarda a câmera dentro de sua gaveta, sorridente.

MARCOS
Muito obrigado por tudo, Paulo de Ferro.

PAULO
Você nem imagina, você nem imagina! (
Tosse.)

sábado, abril 30, 2011

Brincando de drama.

Rob entra em casa, vestindo sua roupa de trabalho. Encontra sua mulher, Clara, sentada numa poltrona ao lado de uma barraca montada na sala de estar. Ela segura um copo de conhaque em uma mão e parece dormitar.

ROB
Bebendo às quartas? Qual é a boa?

CLARA (coloca o copo no chão, levanta-se e vai animada até Rob, abraçando-o)
Você, de volta! Eu senti tanto a sua falta, sabe? Você está tão cheiroso...

Rob larga-se dela e senta-se na poltrona.

ROB
Que exagero! Fedido, você quer dizer. Se existe estar meio-morto, é assim que eu estou. (Olha para a barraca.) Seu dia parece ter sido divertido, no entanto.

CLARA (senta-se no colo dele)
Você não imagina como! Arrumava os armários quando achei nossa tendinha, lembra?

ROB
Sim, era bom, era muito bom. Eu vou tomar um banho, agora.

Clara inclina-se sobre ele e o beija na boca.

CLARA
Por que você não entra na nossa tendinha?


ROB
Ela está arejando, não está? Você sabe muito bem que tenho cá minhas alergias.


CLARA
Sim, com certeza, mas e eu? Eu montei a barraca mesmo assim, eu me sujei toda por você. Vê meus olhos vermelhos?


ROB
Sim, e a face inchada e essa boca quase explodindo. Se eu não conhecesse suas alergias, acharia que você passou a tarde inteira chorando. Mas hoje não é um bom dia para joguinhos em uma barraca.

Rob se levanta, forçando Clara a ficar de pé. Rob começa a ir em direção ao quarto.

CLARA
Não! Espere um pouco, temos visitas!


Rob vira-se para Clara.

ROB
Numa quarta-feira?


CLARA
Você sempre me disse que todo dia é dia quando nós o queremos bem. Hoje é um dia especial.

ROB
Sim, o dia em que se toma uísque, montam-se as barracas e chamam-se as visitas. Quem vem pra cá?


CLARA
Eu estava me sentindo muito sozinha à tarde, sabe? Você não estava aqui...

ROB
Costuma acontecer quando eu trabalho, como nas quartas-feiras...


CLARA
Mas você voltou pra mim, não é? Para nossa tendinha. Chegou tarde...

ROB
Estou enfiado até a cabeça nas reuniões com os chineses, não me encha por causa disso!

CLARA
Afunda-se até a cabeça...

ROB
Só quero um banho, conversamos depois, na cama, quentinhos e tudo mais.

Clara aperta seu corpo contra o de Rob, intensamente.

CLARA
Agora, na barraca.

ROB
E a visita? Ela não vem?


CLARA
Já veio. Ajudou-me com a barraca, sujou-se comigo, também.

ROB
Ela a ajudou.

CLARA
Como ela sempre lhe ajuda.


Rob larga suas coisas no chão e se senta novamente na poltrona, derrubando acidentalmente o copo com conhaque no chão. Ele apoia a cabeça entre as mãos.

ROB (
irritado)
Quem, Clara?


CLARA
Entre e veja! Você sabe, você é bom de entender as coisas, sempre percebe tudo bem antes de mim... Vai, entre!


ROB
Você não devia beber às quartas-feiras.


CLARA
Você nunca volta para casa às quartas. O que você faz às quartas?


ROB
Os chineses, Clara, eu já lhe disse! Os malditos chineses me tomam todas as noites.

CLARA
Você chegou cedo, onde estão os chineses? Talvez seus chineses estejam aqui, não é, na nossa tendinha?


ROB
Você delira, arre! Você mesma disse que  eu cheguei tarde! Arre, Clara, arre, deixe de maluquice e de conhaque, você parece um...

Clara pula novamente em seu colo, beijando seu pescoço.

CLARA
Você não está cheirando a reunião com os chineses! A reunião foi cancelada, não foi? Ela não respondeu suas mensagens e você veio direto para casa, pra mim, para a substituta. Mas eles também vieram pra cá, pra nossa reunião! Vamos, entre!

ROB
Entro, porque não há chinês algum, tudo bem, joguemos o seu jogo infantil!

Rob se levanta, retirando Clara rudemente de seu colo. Vai em direção à barraca.


CLARA
Se você entrar nessa barraca, é nosso fim.


Rob entra na barraca.

terça-feira, abril 19, 2011

COVEIROS.

PERSONAGENS

PRIMEIRO PROFESSOR, chefe da área de português da escola.
SEGUNDO PROFESSOR, recém-contratado da área de português.
GUSTAVO, 14 anos, aluno exemplar, filho de deputado.
HENRIQUE, 13 anos, aluno e braço direito de Gustavo.


CENA

Sala dos professores, grande montanha de papéis sobre as mesas.

Dois professores entram com mais papéis nas mãos e se jogam sobre as cadeiras, com canetões vermelhos nas mãos, rabiscando com ênfase os papéis.

PRIMEIRO PROFESSOR
Acha justo que um aluno seja reprovado por copiar as respostas de outro?

SEGUNDO PROFESSOR
Creio que sim, está no regulamento, não está? Se os diretores decidiram assim, a questão não está mais em nossas mãos.

PRIMEIRO PROFESSOR
Não devia ser o outro, o que deu as respostas, também punido?

SEGUNDO PROFESSOR
Não se ele o houver feito por compaixão? Se o coração está leve...

PRIMEIRO PROFESSOR
Mas está aí, justamente, o problema! Como alguém pode fazê-lo de mente limpa? Ajudar um crime, torná-lo possível, é pior do que cometê-lo de fato. Se alguém dá a faca e o queijo para outra pessoa, é certo que esta outra cortará, com a faca, o queijo.

SEGUNDO PROFESSOR
Não podemos punir nosso melhor aluno, está na ata da reunião de ontem. A culpa é do burro que aceitou a cola.

PRIMEIRO PROFESSOR
Que parvice!

SEGUNDO PROFESSOR
Na verdade, se quer saber... Se ele não fosse filho de político, levava uma boa reprovação na testa.

PRIMEIRO PROFESSOR
Arre, mas esse é o absurdo! Um professor… O importante são as notas, o importante é a conduta! Não há nada menos importante para um professor do que o pai de um aluno. Veja esse monte de lixo, essas respostas incoerentes… Temos que poder corrigi-las, riscá-las, puni-las!

SEGUNDO PROFESSOR
Certo, certo, muito certo.

PRIMEIRO PROFESSOR
Pois, como é que se deve punir bem um aluno?

SEGUNDO PROFESSOR
Reprovando-o?

PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, parvo, mas não só isso! Saiu-se com a resposta mais simplória que pensou, isso vale no máximo um meio certo.

SEGUNDO PROFESSOR
'Como é que se deve punir bem um aluno'?

PRIMEIRO PROFESSOR
Foi o que lhe perguntei.

SEGUNDO PROFESSOR
Não sei, peço água.

PRIMEIRO PROFESSOR
Ah, água? É mesmo um imbecil. Mas não pense demais no assunto para não fritar essa cabeça enorme! A boa punição é social, parte por todas as camadas da vida do cabritinho, faz com que ele se arrependa de sua preguiça, burrice – o que quer que seja – com cada pelinho de seu corpo. Como fazer isso? Vai, busca um café para mim e sua tal água, e pense bem no assunto! (Sai o segundo professor.)

Vêem-se Gustavo e Henrique aproximando-se à porta da sala

PRIMEIRO PROFESSOR (Corrige as provas ferozmente e cantarola.)

Tu és tolo, tu és tolo como porta.
Se eu te digo: tu saíste a teu pai
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu saíste mesmo, mesmo a teu pai

GUSTAVO
Como ele canta assim, corrigindo provas como se lavasse o chão?

HENRIQUE
Talvez lavar o chão e corrigir nossa concordância seja a mesma coisa pra alguém que passa os dias fazendo isso.

GUSTAVO
A repetição só esvazia, a repetição só esvazia.


PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)

Não te escondas, não te escondas de teus erros.
Se eu te digo que errar é coisa humana,
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu és humano, mesmo, mesmo, por inteiro

(Amassa uma prova e joga em direção à porta.)

GUSTAVO
Essa prova jogada ao chão foi de um aluno que colocou todas as suas forças, estudou três semanas, negou todos os compromissos, perdeu um pouco de sua própria vida! Foi assim, não foi?

HENRIQUE
Acho que sim, cara.

GUSTAVO
Ou então, de um que nunca tivera problemas antes, que se sentou para a prova-final insuspeito, e agora... Agora sua prova está no chão, agora deve passar mais um ano chafurdando na bosta!

HENRIQUE
Bem provável.

GUSTAVO
É isso, então é isso mesmo, e agora é lixo!

PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)
Errado, errado e errado.
Errado, errado, errado, errado!
Tudo que tu tens feito
é errar ao quadrado!
(Arremessa outra prova)

GUSTAVO
Eis outra. Poderia ser de qualquer um de nós. (
Pega a prova amassada.) Como brincam com nossa juventude, marcam com machados nossa vida, esquecem que já somos pessoas! Este papel amassado significa nosso fracasso social, não?

HENRIQUE
É.

GUSTAVO
Não tem medo de ser essa prova tua caveira?

HENRIQUE
Já sabia que não me daria bem, cara.

GUSTAVO
É esse tipo de atitude que permite que nos esmaguem. Vou lá ter com ele. (
Adianta-se.) De quem são essas provas?

PRIMEIRO PROFESSOR (sem tirar os olhos das provas)
Minhas, ora.
Não, não, não,
parece que fizeste um errão!

GUSTAVO
Não são suas, ainda que as trate como tal.

PRIMEIRO PROFESSOR
Espero que não sejam suas, então, pois que a coisa aqui é podre.

GUSTAVO
Percebo bem a podridão. Muitos reprovados?

PRIMEIRO PROFESSOR
Poucos, infelizmente. Muitos me escapam pelas frestas dos dedos.

GUSTAVO
Escapam como?

PRIMEIRO PROFESSOR
De toda forma, por sorte, por cola, mas alguns, mesmo, apenas porque têm pais que os protegem.

GUSTAVO
Como pode um pai proteger o filho da reprovação?

PRIMEIRO PROFESSOR
É justamente o que eu pergunto. A sombra de um pai poderoso assusta o povo lá de cima, como se a má índole de uma criança pudesse ser justificada pelo emprego do pai.

GUSTAVO
Deixá-lo-ão impune, portanto?

PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, às custas do pobre asno que aceitou sua ajuda. Mas todos terão sua vez, minha caneta é justa. (
Amassa uma prova e joga em direção a Gustavo.) Veja se isso é possível!

GUSTAVO
Deixe-me ver (
pega a prova). “Casmurro traiu sim a Capitolina dá pra ver logo no começo da história porque ele é sério e isso significa culpa”. De quem é essa afronta?

PRIMEIRO PROFESSOR
De um imbecil, o que acha?

GUSTAVO
Não adianta perguntar, eu não sei.

PRIMEIRO PROFESSOR
Este enorme imbecil, esta anta completa, se não a reconhece, é um tal de João não sei das quantas, garoto-problema, repetente, uma vergonha.


GUSTAVO
Ora, como ele pode falar assim? Estamos todos sujeitos ao erro, mesmo João, taciturno, com as mãos metidas nos bolsos do moletom… Somos gente! Se na grafia identifica a ignorância, devia corrigi-la, e não puni-la! Oh, João, pobre tolo, pobre tolo. Diga-me, Henrique…

HENRIQUE
Digo. O quê?

GUSTAVO
Estamos sozinhos com nossos erros, todos?

HENRIQUE
Sim, parece que sim.

GUSTAVO
E seremos punidos assim?

HENRIQUE
Uns mais, outros menos.

GUSTAVO
Como somos fracos, Henrique! Se estamos sujeitos à queda, se mesmo Napoleão caiu de seu cavalo, como podemos continuar? As provas estão por toda parte, os juízes estão sempre prestes a entrar em cena e nos esmagar. A partida é perdida, sempre. Mas quieto, quieto – lá vem os diretores com o pobre asno que mandei à forca. Escondemo-nos!

(Saem.)