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quarta-feira, fevereiro 10, 2021

 Amora,

eu me lembro de quando tentei te ensinar o que era o amor - este mesmo misterioso para mim, porque eu não o conhecia, muito menos lhe estava familiarizado.

num movimento de trás para frente, peguei o que eu sentia e descrevi, chamando aquelas vontades confusas de amar. em algum momento sugeri que o que queria com você era uma vida para sempre. wouldn't it be nice if we were older?

fiz isso, como em muitos outros momentos da minha vida, porque a queria naquele momento, eu de fato a desejava intensamente. hoje sei que fui moleque e brinquei com o futuro apenas para sustentar nosso presente.

em algum momento, aceitei aquela promessa como algo que era já até mesmo passado, algo inevitável nosso porque já havia acontecido. também vendo de hoje sei que não era bem verdade, o apego ao que já foi no que seria era ainda mais um artifício meu (nosso).

você me deu todas as chaves para entender o que você queria, ainda que tenha sido sempre tão difícil conversar com você. percebo que, mais do que você, eu me emaranhei no meu próprio jogo e nas minhas estratégias e na minha vontade de que tudo funcionasse, de que as coisas pudessem continuar a existir.

I remember every little thing as if it happened only yesterday

Ain't no doubt about it, we were doubly blessed

'Cause we were barely seventeen and we were barely dressed

em algum momento eu desisti de continuar fomentando as promessas de futuro porque eu mesmo não o queria mais. acho que você percebeu e acho, também, que você tomou isso pra si. olhando agora, Amora, eu espero que a cirurgia seja um sucesso e você possa eliminar de vez minha influência em você.

creio que eu entenda o amor um pouco melhor hoje, e eu sei que eu te amo e que amar não é necessariamente querer estar junto e desejar ou talvez mesmo até fazer parte da vida do outro.

It was long ago and it was far away, and it was so much better than it is today

tenho tentado elaborar isso já há muitos dias. o jogo acabou para mim e espero não envolver mais ninguém em minhas tramas. peço desculpas.

Ameixa.

segunda-feira, junho 19, 2017

L.,

Soube de seu problema com as baratas. Não é o melhor assunto pra uma mesa de bar, mas o Rodrigo me disse ‘você sabe que a L está com o apartamento totalmente infestado de baratas, né? já faz um mês e, tipo, literalmente por todo canto, outro dia ela abriu a geladeira e tinha tipo umas 30 baratas na geladeira, e, assim, ela tá lá, né? tipo, ela precisa dedetizar e não tem pra onde ir, eu ia oferecer lá em casa mas você sabe como o pessoal é lá, né?’ e eu respondi que sim, sabia bem como o pessoal de lá era.

Eu queria poder te oferecer um cômodo aqui em casa, mas o que acontece é o seguinte: estou cuidando da cadela de minha prima e de seus 6 filhotes. Não gosto de julgar as pessoas, mas quando aceitei cuidar de seu animal não imaginava que estivesse prestes a ter cachorrinhos! E adoro cachorrinhos, você sabe, mas são 6, e um deles já morreu, então, pra ser bem sincero, minha casa também está infestada por bichinhos fora de meu controle.

(aliás, se souber de alguém que queira um filhotinho de labrador, por favor passe o contato)

Enfim, me entristece sua situação com as baratas, ainda mais sabendo que… Do seu medo de baratas. Agora escrevendo aqui, que bobagem falar do seu medo de baratas, né? Você o conhece muito bem, não tem razão para que eu o invoque.

Desculpa, faz tanto tempo que a gente não se fala, né? Pelo menos seu endereço ainda é o mesmo há anos, embora eu nunca a tenha visitado. Se me lembro bem, você gosta muito da região, moraria aí a vida toda... Acho que eu também, meu bairro mesmo é uma chatice sem fim, mas estou perto de tudo e o sol bate forte agora pela janela. O ar no seu apartamento é bom de respirar? Ah, pergunta idiota, né, respirar com baratas nunca é bom, por melhor que seja o bairro. Desculpa, acho que estou me perdendo.

Bom, escrevi isso mesmo mais para saber como você está. É meio mentira, porque, se fosse realmente isso, eu teria te ligado ou mandado um zap. Ok, você deve ter percebido as 4 folhas de louro frescas dentro do envelope. Eu sei que você não acredita nessas coisas, mas, se você ainda confia em mim pra alguma coisa, faça o seguinte:

  • Corte com as mãos cada folha de louro bem no meinho. Se a folha rasgar um pouco, não tem problema. Enquanto faz isso, tente canalizar os pensamentos positivos sobre seu lar nas pontas de seus dedos;
  • Posicione cada um dos pedaços maiores nos pontos cardeais da sua casa, o mais precisamente que conseguir (Norte, Sul, Leste, Oeste);
  • Posicione os pedaços restantes nos pontos colaterais (Nordeste, Noroeste, Sudeste, Sudoeste);
  • Feche bem as janelas, é essencial que o vento não leve as folhas de louro;
  • Esvazie os lixos, a geladeira e os armários da despensa, jogue tudo fora (IMPORTANTE: NO LIXO DE FORA!)
  • Saia de casa por ao menos uma semana, deixando a porta destrancada;
  • NÃO DURMA NA CASA DE CONHECIDOS.

Sei que as instruções podem soar um pouco contraditórias com o que disse aqui, mas é uma receita de família que, dizem, salvou minha avó de uma infestação de cupins que ameaçava destruir tudo que havia construído em 20 anos – ela ainda era jovem quando aconteceu, só não se podia dizer o mesmo da casa que herdara dos pais.

Pelo menos não é um problema eu não ter lugar para te oferecer, porque a ideia é se deixar levar para outros lugares ainda não colonizados. Você não tem porque me ouvir, e acho que eu também não tenho motivos bons para estar te escrevendo, e pode bem ser que quando esta carta chegue sua infestação já esteja solucionada. Se for este o caso, sugiro que faça um feijão ou um molho vermelho com as folhas do louro, que é delicioso e foi tirado diretamente dum pé que tenho aqui em casa, um louro bonito trazido da Turquia pela minha prima. A mãe dos cachorrinhos adora se deitar abaixo dos pés e, às vezes, masca suas folhas. Hahaha, escrevendo isso, acabo de perceber que, talvez, cachorros não possam comer (e colher) os louros. Devia ter perguntado pra prima.

Por enquanto estamos todos vivos (com exceção do pobre cachorrito que morreu ainda em seus primeiros dias).

Beijos,

Carlos.

domingo, setembro 22, 2013

epitáfios, 1.

palavras fáceis de serem usadas: vazio, difícil, triste, bonita, eu, fim, mas etc. (é difícil dar algum sentido novo ou autêntico a elas).

não há limite para o lamento, ele se inicia muito antes do fim para qualquer pessoa responsável. sabemos que haverá razão para lamentarmos e já o fazemos com antecedência, há até tipos específicos de lamentos designados ao próprio ato de lamentar.

o leite derramado é uma lição dura de se aprender, é uma afirmação que deveria surtir efeito, nunca surtirá. "não adianta chorar sobre o leite derramado", é quase como esfregar a palavra idiota em minha cara. uma palavra feita de tijolos irregulares com giz colorido ressaltando as letras.

é evidente que não adianta chorar sobre o leite derramado. chorar provavelmente não adianta para muita coisa. chorar adianta para chorar.

ainda assim, há a escolha da palavra "sobre". em outras versões, "pelo" a substitui, ou ela é simplesmente omitida, mas prefiro o mistério dessa palavra. "sobre".

chorar sobre algo é tornar algo representável pelo choro.

é lamentar sobre algo, abre-se a possibilidade também de comemorar sobre algo.

escrever sobre algo, mas aqui o sobre é o do choro ou da comemoração. poderia ser "escrever por algo" ou apenas "escrever algo".

escrevi muito sobre você (por você, você).
e esse foi meu ofício,
e eu sempre lamentei sobre isso (por isso, isso).

aí está a metaverdade.

quarta-feira, março 14, 2012

2012.

não tenho (mais) tempo para você
(mas) eu te amo

terça-feira, janeiro 10, 2012

desculpa pela falta.

quase não escrevo
quando escrevo
quase escrevo
um não-romance

segunda-feira, outubro 31, 2011

trecho de uma longa carta, II.

"cara amiga,
mais do que eu esperava
tão perto, tão longe
por favor, me abrace"

quarta-feira, outubro 19, 2011

trecho de uma longa carta

"traçar o horizonte com os corpos
morte
maravilhosa
morte"

quinta-feira, setembro 22, 2011

direto de direita.

1. Erga a mão direita;
2. Lance-a contra o teclado;
3. Repita.

segunda-feira, julho 18, 2011

os meus,

trago-os junto ao corpo.

terça-feira, julho 12, 2011

poeminha manco.

poeminha manco:

tropecei numa pedrinha
que entrou no meu sapato
penetrou como a espinha
de um peixe putrefato

meu pé ficou cheio de pus
perdi o tempo, o ritmo, a estrada
bati o dedão na quina da porta
escorreguei pela escada

daqui ali tem mais de um metro
ou será que um quilômetro?
não aguento nem um nanômetro

porque o momento é outro
não há tempo para o tempo
não há espaço para dançar
não há tempo para o outro
não há espaço para o momento

meu pé, caindo e roto,
me sugere que a dança
do momento e do espaço
é bater os incisivos
no asfalto

segunda-feira, junho 06, 2011

celular, quase às 3 da manhã:

Eu vou esquecer o toque do seu rosto, seus seios maravilhosos, o cheiro. Não há Literatura que os salvem.

segunda-feira, maio 23, 2011

Cena em primeira pessoa.

Com a ponta do dedo, escrevo em sua coxa a palavra TEXTO. Ficamos quietos.

quarta-feira, maio 18, 2011

Razões pelas quais adoro verdadeiramente o sexo.

Não vou dizer que é pelo amor, não vou dizer que é porque a natureza é bela, porque é aí que nos permitimos ser animais, ignorar a racionalidade, porque é daí que a vida vem. Essas porras nem são verdade de verdade. A verdade é que há algo no sexo que me atrai (o cheiro, o gosto, sua pele, seus calores?), talvez porque seja um abraço final, se feito com carinho; um aperto de mão perfeito, se feito às pressas – como um negócio –; o beijo mais molhado que se pode cumprir.


Sexo não se faz, cumpre-se.


Não há nada de superficial (mesmo suas peles são profundidade) no sexo.


Entendo as ressalvas políticas que se fazem em relação ao sexo. Como todo segredo universal, é mal entendido e praticado por muitos, talvez pelo véu que é posto sobre nós. Mas eu o entendo mais ou menos assim.


Desculpem pelo trote.

domingo, maio 08, 2011

uma linha.

um traço em todas as direções – de seus dedos a não-sei-mais-onde – sem a certeza de alcançar alguém, uma poética cotidiana que todos praticam… as palavras se dissipam em rede: multiplicação às cegas, divisão por zero? todos os oceanos são, hoje, letra.

daqui ao infinito (isto é: daqui a lugar algum).

segunda-feira, abril 25, 2011

retratos

em suas mais variadas formas
em suas mais variadas
em suas

quarta-feira, março 16, 2011

solipsismo (passageiro)

um quarto vazio é um quarto vazio, ao menos até que você pense nele de outra forma. aí ele deixa de ser um quarto vazio, me parece. sim, eu sei, não é o pensamento mais brilhante do mundo, mas o mundo anda já brilhante demais.

domingo, março 13, 2011

quarta-feira, março 09, 2011

Ata da reunião de ontem.

– O que me incomoda, dentre muitas outras coisas – dizia Rosbife – é que, numa situação dessas, o silêncio seja tão significativo. Não que o silêncio em si queira dizer qualquer coisa, mas enquanto eu escolho o que falar… Quando eu falo, no final das contas, parece que eu estava fazendo de propósito, o silêncio. Um intervalo calculado.

Rosbife, Catupiry e Mortadela ficaram quietos, deitados na cama improvisada no chão. Não sei quanto tempo foi.

– E não é calculado – emendou Rosbife –. Viu só? Pareceu de propósito.

Ficaram em silêncio.

***

Um pouco depois, começou o sexo.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

últimas palavras (unilaterais!)

E na verdade eu sinto um ranço cada vez maior e um nojo e um enojamento e as pessoas e suas opiniões e a política e o modo como tudo se dá, como as opiniões surgem e como é tudo raiva, ódio, infantilidade, droga, discutamos feito gente grande, feito século XXI, feito a igreja que mantém o homem de pé sem cuspir em ninguém, sem.....................

Tempos dietéticos.