mas isso porque você não entendeu nada.
e, se você for esperto, perceberá que o estou acusando injustamente, embora talvez eu esteja certo, às vezes."
Seus olhos tão esperançosos que chega a ter certa graça que você não verbalize logo suas intenções que suas mãos redundam as minhas e bebemos juntos pela já nonagésima ou coisa assim vez, você que é meu querido amigo e eu, frágil moça agora sozinha sem seu amor de tanto tempo, um pouco mais que esse tempo em que nos conhecemos e nos tornamos amigos de confiança.
— E, de certa forma, personagens do Cortázar, ambos.
— Sim, literariamente, sim — essa sou eu falando, intercalaremos (que bonito que é isso: um diálogo é necessariamente inter-calar, quando um burro fala, o outro abaixa as orelhas).
— Acho isso lindo, che, podermos tomar uma num bar sem problemas, despreocupados, nós dois.
— Não lhe cai bem esse che, parece mais um gaúcho do que um porteño ou o que quer que você quisesse parecer; além do mais, acho que você usa nas horas erradas e só fala besteira.
— Pode ser que sim, mas pelo menos eu te faço companhia.
É irritante — não é irritante? — que você insista tanto em colocar na minha cara que só você está aqui comigo, que eu estaria totalmente sozinha se não fosse, mas... Suas vontades são absurdas, não há porque eu atendê-lo, aceitar os carinhos que você me oferece, a cama quente, o enfim-livre que você insinua; tão óbvio e tão difícil acreditar que você tem medo.
— Há motivo! — e brindamos — Nada melhor que gin tonic, non?
— Não há nada melhor, mesmo.
Enquanto isso, você pensa: “Ela está mal, dá pra perceber na pele dela, será que ela já está pronta? Ou então é o contrário, talvez justamente por não estar pronta eu possa ajudá-la, não sei, arre, me sinto um monstrinho pensando assim, como pode? Não há nada de errado, não meto chifres em ninguém e não pode ser que ela não sinta nada por mim, depois de tanto tempo... E, talvez, durante a noite, após tudo, ela chore e se liberte e enfim esteja pronta, mas pronta já comigo, pra mim, enfim, ou então...”
— Pobre tolo, tendo que me aguentar aqui com esse vocabulário todo mal traduzido.
— Ah, querida, não se engane: é melhor assim.
(Poor fool ... dont make a fool of yourself, you’ll never get me)
— Está tarde, enfim... preciso ir, então.
— Não, querida, você precisa vir.
(I must GO... Not at all, honeydarling, you must come)
— Que que cê tá fazendo aí?
Ele olha para ela um pouco como que desentendido.
— Eu... ué, é exatamente o que parece. Tô escrevendo.
Ela sorri toda preguiçosa para ele, se arrasta até a pontinha da cama, até do lado do chão, onde ele está encurvado em torno d’uma cadernetinha .
— Acho que você não devia misturar trabalho com...igo.
Ele olha de esguelha para ela, ora, ora.
— Não é trabalho…
Ela bagunça um pouco mais o cabelo dele.
— É um diário? Você escreve sobre mim?
Ele descosta a caneta do papel, coloca o papel de lado. Olha-lhe um pouco ofendido.
— Não. É só… lazer, enfim. Escrevo sobre nada, mas é normal fazer assim.
Ela pende a cabeça cama abaixo, (mas só um pouquinho).
— E você acha gostoso? Posso experimentar?
Ele solta um pouco de ar, Por que não?, troca a página e entrega caneta e caderno, Talvez seja divertido.
— Ah, não, não é justo, vou escrever na mesma página que você e pronto.
Ela sorriu largamente, afinal, e pôs-se a escrever.
“existe coisa mais bonita do que acordar e ainda estar junto, de conhecer enfim como a outra pessoa é ao amanhecer, se ela se veste ou não, se ela prepara café-da-manhã ou se senta no chão e coloca-se a escrever, se ela é apenas uma mulher e apenas mais um pouco de sexo, ou então, talvez, ela seja muito mais inteligente do que pareceu ontem à noite, enquanto você a comia e provavelmente pensava que ela era só mais uma dessas, quando, na verdade, pode ser que ela realmente quisesse transar com você e gostasse muito de você e percebesse que, de manhã, você escreveria ainda antes dum banho, antes até de me acordar de alguma forma e dar os últimos beijos.”
Era óbvio que aconteceria, afinal de contas era o espaço dele e não o meu, aquele corredor todo dia recebia seus pés e os meus — ao menos eu tentava — sempre o evitavam. Esqueci, não me preparei... dei de cara.
Ao que me consta, era ele que dizia que nada havia acontecido entre nós, o que são um ano e meio? (o que é um ano e meio.), como ele poderia ter me traído se nós nunca Nem me conhecia direito, eu só fui um caso (eu fui o caso) e agora, há quanto tempo, não é mesmo (não é mesmo)?
Ele olhou pra mim, não é?, e havia nada em seus olhos, porque, acho que ele se assustou um pouco, mas eu, não estava preparada, eu achava que não seria nada, porque, afinal de contas, aquele corredor todo dia, e ele dizia que não, antes, e há tanto tempo sem nada, afinal, ao que me consta, ele que me evitava — ao menos eu tentava — era óbvio que aconteceria, seus pés e os meus, eu não fiz nada, eu apenas, eu achava, não seria nada pra mim, porque não havia mais raiva, amor, paixão, ódio, saudade, beijos, e nada.
Matar, matar, matar... ou uma taça de sorvete (se ao menos eu pudesse).
Houve uma vez na minha vida uma pessoa que... certamente não foi um acontecimento, mas algo mais como um evento ou uma passagem, se preferirem. A gente se conheceu como qualquer criança pode se conhecer nesses dias descuidados de hoje, conversamos, ficamos amigos. Ou até mais que isso, eu acho – ou achava, hoje eu certamente não diria isso, mas ça va. Tinha alguma coisa de bonito (pueril, certamente) naquela cumplicidade afetiva sem toques ou mesmo vistas que a gente tinha. Éramos, na nossa cabeça, namorados. Mas ela ficava longe, isso costuma ser um problema, mesmo que algum possa pensar que não e passar a vida provando - mas é e pronto. A distância, a telegamia como eu chamo, ela tem a capacidade de crescer exponencialmente e então... Eu não sei bem se por isso, ou se por um segundo que me fez pensar naquilo tudo e no ridículo daquilo tudo e, bem, acabamos, por assim dizer. Porque eu fiquei mais longe que simplesmente longe, longe dela mais do que da cidade dela, e alguém podia dizer que continuamos amigos, acho que não é mentir. Não que seja mais fácil, mas pelo menos (super)funciona. É só que andou chovendo bastante e, não sei porque, sempre que chove eu fico pensando se podia ser diferente e vejo que não.