terça-feira, julho 14, 2015

como lidar com meu repertório de movimentos

limitadíssimo repertório de movimentos em que as possibilidades de comunicação são poucas, exclusivamente verbais. a visão da dança me lembra que esse é um meio fechado para mim, algo bem além das coisas que meu corpo sabe fazer.

vejo minhas imagens de mim – produzo-as com alguma frequência, mais no passado – e é risível como já, tão cedo, sou uma paródia triste e obesa de mim mesmo. não encontro orgulho na minha imagem, muito menos na minha "essência". paródia patética de mim. aguado, ensebado, todas as roupas furadas.

como interromper a entropia?

segunda-feira, outubro 06, 2014

epitáfios, 5.

THERE'S NO LIMIT TO WHAT CAN BE ACHIEVED IN A VERY SMALL TIME FRAME -
I AM POSITIVELY CERTAIN THAT THIS MAY BE A LITTLE BIT TRUE THOUGH IT'S ALSO VERY POSSIBLE THAT IT ISN'T

epitáfios, 4.

se é apenas natural pensar na morte, é pelo menos necessário decidir como fazê-lo (começa aí a ilusão, é possível decidir como pensamos? a mentira é responder sim ou responder não?), qual será nossa morte, quando, como, por quê?

nesse sentido, ao menos é possível ficcionalizar a morte, para, assim, torná-la nossa.

hipótese: talvez seja assim que opera o homem absurdo.

o homem absurdo vive pois já viveu sua própria morte fictícia milhões de vezes. ele já a considerou. ter consideração pela morte é uma das formas de conquistá-la (sem engano, ela nos conquistará em algum momento, mas mesmo essa conquista pode estar sob nosso controle... ao menos ficcionalmente).

um retrato da morte, uma morte invocada por nós, pelo homem absurdo que, por definição, já está morto. o suicídio não é uma opção, pois o homem absurdo já se considera morto.

assim como um mineral é morto, assim como os átomos são mortos, assim como os elétrons, os prótons e tudo aquilo que não me importa é morto, embora pleno em movimento. a partir de um momento, a vida é só dizer que sim, a coisa está viva.

o que está vivo? nada.

terça-feira, setembro 16, 2014

epitáfios, 3.

se existe um limite
(imaginando-se aqui um limite duro, imutável – UM CORTE)
eu já me sinto ultrapassado

sexta-feira, dezembro 06, 2013

epitáfios, 2.



don't embed any certainties
'coz if embodied they can
and certainly will
become part of your organism
and you don't want any hard stuff
filling the emptiness of your body

domingo, setembro 22, 2013

epitáfios, 1.

palavras fáceis de serem usadas: vazio, difícil, triste, bonita, eu, fim, mas etc. (é difícil dar algum sentido novo ou autêntico a elas).

não há limite para o lamento, ele se inicia muito antes do fim para qualquer pessoa responsável. sabemos que haverá razão para lamentarmos e já o fazemos com antecedência, há até tipos específicos de lamentos designados ao próprio ato de lamentar.

o leite derramado é uma lição dura de se aprender, é uma afirmação que deveria surtir efeito, nunca surtirá. "não adianta chorar sobre o leite derramado", é quase como esfregar a palavra idiota em minha cara. uma palavra feita de tijolos irregulares com giz colorido ressaltando as letras.

é evidente que não adianta chorar sobre o leite derramado. chorar provavelmente não adianta para muita coisa. chorar adianta para chorar.

ainda assim, há a escolha da palavra "sobre". em outras versões, "pelo" a substitui, ou ela é simplesmente omitida, mas prefiro o mistério dessa palavra. "sobre".

chorar sobre algo é tornar algo representável pelo choro.

é lamentar sobre algo, abre-se a possibilidade também de comemorar sobre algo.

escrever sobre algo, mas aqui o sobre é o do choro ou da comemoração. poderia ser "escrever por algo" ou apenas "escrever algo".

escrevi muito sobre você (por você, você).
e esse foi meu ofício,
e eu sempre lamentei sobre isso (por isso, isso).

aí está a metaverdade.

sexta-feira, maio 03, 2013

Di.

– Você percebe, né?
– O quê?
– Já acabou.
– É?
– É.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

falam fim do mundo.

falam fim do mundo
a terra que explode e acaba
e o fim do meteoro?

terça-feira, novembro 27, 2012

CENA 1.

Jeremias e Russo estão sentados em cima de uma mesa. Há centenas de folhas de papel, de vários tamanhos e cores diferentes, em cima da mesa.

Jeremias brande uma folha grande, dobrada e amassada, apontando para ela. Russo parece absorto em um documento encadernado com espiral.

JEREMIAS
Precisa ser mais redondo nas pontas, para garantir estabilidade no ar. A aerodinâmica está toda errada! Vai cair, sem dúvida.

RUSSO
... Não há como ter certeza. Ainda nem decolou.

JEREMIAS
Olha, vê a curva dessa asa, o formato dos sprinklers laterais... (inverte a folha de papel) Os cálculos não tem sustentabilidade, a entropia sobe conforme a curva de ascendência se retrai.

RUSSO
A Comissão aprovou, não foi?

JEREMIAS
Sim, mas vai cair.

RUSSO
Não sei, isso é o que você diz. Eles disseram outra coisa...

JEREMIAS
Você acha que não vai cair?

RUSSO
Disseram que não.

JEREMIAS
Os cálculos estão todos errados, precisa ser mais redondo nas pontas, você sabe!

RUSSO
Na Europa eles estão fazendo em ângulo reto. Na China, eliminaram totalmente as pontas...

JEREMIAS
Aqui fazemos redondas, e essas aqui estão muito pouco arredondadas. Isso não voa.

RUSSO
Se não voar, não cai...

JEREMIAS
Espero que não voe.

Russo vira-se assustado para Jeremias. Ele levanta a mão com documento encadernado, como se fosse usá-lo para dar uma pancada na cabeça de Jeremias.

RUSSO
Queto! Cê é loko?

Jeremias se retrai todo. Mantêm-se assim. Jeremias ergue a cabeça aos poucos, até que foca seu olhar no documento na mão de Russo.

JEREMIAS
O que é isso?

RUSSO
Não sei, você não cala a boca.

JEREMIAS
Posso ver?

Russo bate violentamente com o documento na cara de Jeremias. Ergue o braço novamente, mas Jeremias interrompe a trajetória do segundo golpe e rouba o documento das mãos de Russo, que o encara com ferocidade. Jeremias passa as páginas rapidamente, olhos vidrados.

JEREMIAS
O que é isso?

RUSSO
Já disse que não sei!

JEREMIAS
De onde você tirou?

RUSSO
Peguei na sala da diretoria, era para entregar para a Comissão ontem, só que eles estavam fora. Parece que foram jogar golfe com o Secretário.

JEREMIAS
Jura?

RUSSO
Sim, eles jogam todas as quintas.

Jeremias mostra uma página do documento para Russo. Vira a cara, como se não quisesse ler o documento. Jeremias insiste, balançando-o no ar. Russo olha de soslaio e se sobressalta. Ele tira o documento da mão de Jeremias e o observa mais de perto.

RUSSO
Vai cair! Vai cair!

Jeremias lança o documento na mesa, com força.

terça-feira, outubro 30, 2012

isto não significa que agora seja melhor

tenho achado as pessoas mais bonitas
quando eu era criança e adolescente eu já sentia que meu limiar de "belo" era um pouco maior do que o dos outros

(mas ainda assim)

desconfiava muito das pessoas. não acreditava que aquelas pessoas fossem de verdade.

conheço muitas novas e reconheço seus desalinhos e a distância delas até a tal da "beleza normal" e elas me atraem

(não a traio)

ainda desconfio profundamente da Humanidade (humanidadade, o Homem, os homens)
creio em alguns indivíduos

(a beleza) não é suficiente

não seremos salvos pelo relativismo
o absolutismo nunca basta

sábado, outubro 06, 2012

ele; ela

problemas desses gêneros

sexta-feira, agosto 24, 2012

autóctone três.

nessa história chata de caos e ordem, a inadequação se revela assim:

- dionísico, quando deveria reinar apolo
- apolínico, quando reina dionísio

domingo, junho 10, 2012

cruzamento.
























num cruzamento de 5 ruas, os faróis se alternam de um jeito meio imprevisível. passo aqui uma vez por semana, mas nunca entendo direito a ordem das coisas: só sei que não devo acelerar quando já estou com o pé na embreagem e o carro ronrona o princípio do impulso.

meu pé direito recua, relaxo o esquerdo.

se estou neste cruzamento, acabo de deixá-la em casa. provavelmente, ela ainda se lembra de mim e até sente a sombra de meu corpo.

penso nela por 2 minutos. à noite, é desperdício gastar tanto tempo num farol.

mas é a intersecção de 5 linhas. é perigoso atravessar um cruzamento tão mal balanceado.

enfim, vou.

segunda-feira, maio 28, 2012

O vizinho planeja tomar armas contra mim.

Tem uma chaleira apitando no apartamento ao lado. Ela faz barulho forte, viril-afeminado, explosivo. Não, ainda não explode, por enquanto é só ameaça. Mas apita, puta, apita demais. Apita aguda, apita sempre, apita há um puta tempo. Trina e treme tímpano. Alguém a ignora, eu não: antes estoura a panela ou minha cabeça? Não aguento a água fervendo, não quero esse aviso nervoso. Tirem essa porra do fogo! Por favor, é só desligar e servir o chá ou preparar o café, não gastem mais gás nem meus ânimos. Podem parar.


Mas ela apita, eu não posso fazer nada. Grita tanto quanto pode e eu me encolho. Não se pode trabalhar assim. Espero que o chá fique uma merda.

sexta-feira, maio 11, 2012

Uma imagem.

Você se move como uma lagarta em minha cama, seus músculos glúteos contraem-se num vai-e-vem; sua barriga se enrijece, se tensifica… o beijo em nossas bocas se distribui pelo corpo inteiro, suas pernas se movem, suas coxas se roçam e sei que agora você já está molhada, quase pingando — mesmo —, que minha mão encontrará todo seu calor. Você estará pronta para mim.

sábado, maio 05, 2012

Nunca mais encontramos aquelas baquetas.

terça-feira, abril 17, 2012

Pela manhã.

Entre colocar a calça e tomar o café, espremo tempo para um texto matinal.

terça-feira, abril 10, 2012

minha irmã.

ela chegou em casa e ela me disse
"que que cê tá olhando?
que que cê tá fazendo?"
e eu gritei pra ela:
"Nada!", "eu não tô fazendo nada!"

ela me persegue
ela me pune
às vezes acho que ela não tem coração
ou que ela acha que eu sou um brinquedinho

a gente mal conversa
ela já chega gritando
aí eu fecho a janela do navegador
coloco as calças
e eu grito pra ela:
"Nada!", "eu não tô fazendo nada!"

poxa vida
caralho
"eu não tô fazendo nada!"

não me olha assim que eu me sinto pivete

domingo, abril 01, 2012

na geladeira:

mãe,

como você pediu, estou botando água nas plantas a cada três dias, à noite.
é bom porque é refrescante, durante o dia está muito quente!
a maria está ficando comigo, então pode ficar tranquila que a casa está inteira.

ontem fui procurar gelo pra botar no copo, mãe.
encontrei canequinhas com água congelada, dentro delas havia nomes.
você os odeia?

ontem bateu aqui em casa um homem barbudo.
a maria foi quem disse: "bateu em casa um homem barbudo!".
eu não tava em casa, mas ela disse: "um homem barbudo e alto e com cara de bravo".
isso lá é descrição?

ele disse, disse ela, que voltava hoje.
não sei, mãe, não gosto de visita assim.
gente que eu não conheço, alta e barbuda.
quem é ele?

ontem eu não tava em casa porque eu fui comprar espelhos novos para o interruptor.
esses últimos que você comprou são muito ruins.
não tinha mais luz na sala.

agora tem luz na sala.
também tem água nas plantas.
não tem mais nomes no congelador…
e eu espero o homem barbudo.

terça-feira, março 20, 2012

a verdade (a minha verdade) é que é muito difícil essa coisa de viver, isto é, essa coisa de seguir projetos, completar as tarefas — até mesmo as que você mesmo se impôs —, é difícil, é difícil demais, ainda que seja mais ou menos a única coisa que a gente possa fazer enquanto estamos vivos.

nunca abrir mão
sempre abrir mão

quarta-feira, março 14, 2012

2012.

não tenho (mais) tempo para você
(mas) eu te amo

terça-feira, janeiro 10, 2012

desculpa pela falta.

quase não escrevo
quando escrevo
quase escrevo
um não-romance

sexta-feira, novembro 25, 2011

presente

as suas meias sobre o sofá
o seu cheiro perdido em todas as coisas
(até as bolotas de cabelo no ralo)
eu entendo

a casa habitada por seus vestígios
prova de que algum dia existiu
(algo entre mim e)
você

o que eu não entendo
e eu tento
(juro que tento)

é por que você precisou ir embora
sem avisar nem nada
(simplesmente morreu)