domingo, setembro 02, 2007

DIL.

O que mais me interessa num relacionamento, prestem atenção, meninos, essa fala é importante, são os sorrisos comedidos, não tirem o olho!, como assim?, comedir, medir a dois, tornar até um sorriso uma coisa que deve ser pensada e planejada por duas pessoas, perceberam, meninos?, é isso mesmo que eu quero de vocês, e também os beijos comedidos, as palavras comedidas, os seios comedidos, oh!, anotaram?.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Som.

A mão dela girou em seu eixo um pouquinho, o volume aumentou e os três se atentaram.

"Olha, seu pai vai falar no rádio!"

Os ouvidos tilintam de curiosidade e expectativa, as duas crianças e a mãe ignoram o trânsito e apuram a audição.

"... Agora o diretor do Departamento de Cultura, Jean de Silve, irá comentar sobre a lei de incentivo ao cinema... Jean, o dinheiro que é gasto pelo Estado dessa forma retorna de alguma maneira para a população?..."


"Boa noite, Turíbio, sim, eu acho que há um retorno, de tal forma que... Veja bem, nós do S..."

"
Bam!"

Ouve-se um estouro, os três pulam assustados e saberão logo que o pai foi baleado por motivo algum.

"Começa agora a Hora do Brasil."

.

domingo, agosto 26, 2007

O baile ao pé da letra.

Eu não sei dançar; os outros dançam por mim e apenas observo e me deleito ou me choro.

Eu não sei, mas sei fazer dançar e rodopiar e passos-pra-lá-pra-cá. A música eu não sei ouvir, mas sei seguir.

Se não sou eu que danço, quem é essa que se esbanja à minha frente?

Inalienável.

terça-feira, agosto 21, 2007

Feel'in the blanks.

Como não havia nada para fazer e estávamos sozinhos, de qualquer forma, ela resolveu me masturbar.

Ou eu resolvi que ela devia me masturbar.







Depois de tudo isso, tudo deu errado.

sábado, agosto 18, 2007

Crônica.

Doutro lado do metrô, logo ali na outra plataforma, separados de mim por um vão, há um homem e uma mulher.

A frase sofre de imprecisão e até mentira, eu sei, mas doutro lado um homem e uma mulher.

É um casal jovem, em média 15 anos cada um, um casal jovem e peculiar e até peculiar, e ambos se dão as mãos e ela é toda ternura com ele, e ele sorri aquele sorriso de homem que sabe que é amado e protegido por uma mulher.

Quanto amor naquele casal! E como ela trata o outro como se fosse uma bonequinha enorme, que merece todo o cuidado, e beija aquela boca dum jeito estranho e constrangedor para a gente que observa do lado de cá.

Uma dupla ao meu lado comenta os dois, pode-se ouvir um deles falando "É... Tá certo ele!", e ela é japonesa e ele é barbado, doutro lado. E as mãos dela tentam cobrir completamente a mão dele e ela tem uns oclinhos e ele tem sua pasta e sua cara de universitário.

Eu, aqui do meu lado, acho um absurdo aquele encantador casal, aquele encantador e jovem e peculiar, peculiar casal. Contemplo admirado, repugnado, , minhas coisas se mexem dentro de mim, e sou capaz de acreditar que todos os outros têm suas coisas móveis também. E um monte de borboletas.

Doutro lado do metrô, um crime à mostra, uma criança de 10 anos e outra de 20 se namoram. E a moral, e o moral? E minha vontade de ridicularizar o pobre rapaz? E minha vontade de me jogar nos trilhos?

E aquela boca infantil e todo o ranho das crianças?

Como pode?...

domingo, agosto 12, 2007

Margens.

De um lado do rio:
- Olá, você aí do outro lado, na outra margem, olá!
De um lado do rio:
- Olá, você que grita tanto. Que quer?
De um lado do rio:
- Alô, você me ouve bem?
De um lado do rio:
- Alô, mas é claro, por que grita?
De um lado do rio:
- Venha, venha para cá, você está do lado errado!
De um lado do rio:
- Venha você que parece não me ouvir...
De um lado do rio:
- Passe para cá, eu o espero!
De um lado do rio:
- Passe bem!
De um lado do rio:
- Há tempo, veja a ponte logo aí!
De um lado do rio:
- Há! Eu que não vou por aí.
De um lado do rio:
- Eu estou certo e o caminho é meu!
De um lado do rio:
- Eu pouco me importo, vou por aqui mesmo.
De um lado do rio:
- Ora! Parece que não está me ouvindo!
De um lado do rio:
- Ora, olha quem diz.
De um lado do rio:

De um lado do rio:
Dá de ombros.
De um lado do rio:
Puxa uma arma.
De um lado do rio:
de ombros.
De um lado do rio:
Acabou.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Anedota, anedota.

Carlos pediu 50 esfihas para o encontro de amigos que aconteceria dali a pouco, preparou a mesa, distribuiu jornais pelos cantos da casa e consultou quão gelada estava a cerveja. Arrumou-se com certo esmero, ansioso pelo que viria, já prevendo a chegada de seus colegas, ensaiando alguns gestos, preparando as boas frases e piadas.

Passaram-se 30 minutos, os amigos chegaram, cumprimentaram-se amavelmente, abraçaram-se, beijaram-se e todo tipo de coisa que acontece quando pessoas não se vêem há muito tempo. Sentaram-se, conversaram um tanto e se inquietaram com a falta das esfihas. Ora, Carlos havia feito o pedido havia tempos e tempos!

Pegou o telefone, discou 30928400 e aguardou, impaciente, um bocado.

“Halabibi Esfihas, boa noite.”

“Boa. Ahn, eu fiz o pedido faz mais de 40 minutos e... ah, não chegou.”

“Por favor você poderia confirmar o número de seu telefone?”

[...]

“Senhor, vou estar checando por que o atraso do senhor, ok?”

“Claro.”

Após 5 torturantes minutos, todas as visitas sentadas à mesa, ansiosas, o atendente retornou ao telefone e, com voz pesarosa, disse que o motoboy, o Zé, um cara muito bacana, pai de família, havia sofrido um acidente grave, gravíssimo, enquanto tentava entregar as esfihas, que foi um desastre terrível, terrível! Provavelmente não seria mais capaz de andar e talvez até...

“Ora... Isso é muito triste! Eu... Nossa! E foi acontecer logo quando ele vinha fazer a minha entrega! Mas, bem... O que fazer, não é? Ahn... Bom, aquela promoção ainda tá de pé?”

“Senhor, qual promoção?”

“Se demorar mais de 30 não pago nada, né?”

segunda-feira, julho 30, 2007

Da impossibilidade de se escrever.

Esta será e é minha opinião sobre o ato - que não é um ato - de escrever:

Já aviso que nada disso é novo, tudo já foi escrito e reescrito, inclusive este tema, inclusive estas idéias, inclusive de forma muito mais aguçada do que aqui. Estar consciente disso, saber que tudo que se faz é uma cópia - ainda que involuntária - quase sempre inferior a algos que estão no passado, já é uma barreira terrivelmente cruel. Especialmente a meu ego, e ao ego de todos os escritores que sejam sequer um pouco realistas ou pessimistas.

Por escritores considero os que tentam escrever e se alteram de alguma forma assim.

Talvez tenha algo de novo no que vem agora: muitíssimos argumentam que quem diz que escrever é fácil é um mentiroso que nunca escreveu, ou que simplesmente não escreve de verdade. Porque essa é uma ação difícil, que requer planejamento, edição, revisão mental ortogonal ortodoxal ai minha coisa dorsal, e por aí vai. Eu posso afirmar com certa convicção que escrever não é um ato tão difícil assim, até relativamente natural e, para mim, até um pouco relaxante.

Os dedos nas teclas, procurando-as às cegas, coisa gostosa! A mão segurando a caneta já é um pouco mais cansativo, mas ver os garranchos no papel dá gosto.

Escrever é até fácil, é até gostoso.

O problema é todo o resto do processo, o escrever "inconsciente e consciente", que raramente está conectado diretamente ao ato em si e que toma quase todo o meu tempo. Mais que meu tempo, a minha cabeça. Ou a cabeça toma meu escrever, tanto faz.

Eu pretendia falar mais sobre o assunto, mas eu acabaria me acusando de artificial ou coisa que o valha. Todos vocês podem, espero, preencher todas as lacunas da argumentação com seus próprios... saberes.

[;;;]

Essas idéias talvez apareçam um pouco diferente do normal, mas agora me convenço que é absolutamente a mesma coisa dita por todos antes.

É impossível - e imprescindível e imprescritível - escrever.

sexta-feira, julho 27, 2007

Metaverdades.

Crio, porque não sei;
Se soubesse, citaria.

E se este fosse um mundo de idiotas,
Ah!, eu seria o rei com todas as honras.
E você, meu amado amigo, meu súdito.

domingo, julho 22, 2007

Sem Título, 20.

Não queria abrir os olhos, hoje cedo, porque ainda não havia decidido quem eu seria. Talvez fosse a ocasião de vestir o Marcos, já faz tanto tempo que não o vejo... Rolei na cama um bom tempo, ainda sem identidade, apenas um 'eu' vazio e sem nenhum gosto especial, ainda oscilante entre as diversas facetas que eu poderia assumir, as personalidades todas... Era quase duas horas, sabia mesmo sem olhar o relógio ou checar a claridade. Qual de nós acordava tarde assim? Nenhum, pareceu-me, já estou velho para essas coisas...

Tocou o telefone, atendi às cegas, era alguém em busca de um Fernando, Fernandinho, querendo saber se havia chegado bem em casa. Ponderei um bocado, sabia que eu e ninguém daquela casa éramos Fernando, mas talvez... Sim, sou eu, eu disse, está tudo bem, é como se eu tivesse nascido agorinha mesmo, como se eu só tivesse descoberto que estou aqui agora, com sua ligação, sua linda voz de barítono. Ele estranhou do outro lado e desligou, mas ao menos eu me decidi.

Conheci, hoje, numa das noitadas dignas de Fernando, eu, uma perfeita moça, raríssima. Penso em continuar sendo Fernando ao menos até amanhã, para não magoá-la.

quinta-feira, julho 19, 2007

Acontecimentos corriqueiros tremendamente normais.

Hoje, há pouquíssimo, encontrei na porta de casa uma carta endereçada a mim, coisa rara, e sem remetente. Abri, encarei as letras impressas em Arial, essa fonte sem graça, vida e formas voluptuosas, e dizia:

Usa a língua de forma fantástica, Ricardo!

Ri um bocado dos significados que achei na frase, a ordem e a asserção, as línguas, as pessoas, eu mesmo como (pretenso) escritor e como (pretenso) amante. Ora, eu não sei quem foi o/a autor/a da zombaria, mas obrigado pelo apoio e por me lembrar que eu posso ser tanto a terceira quanto a segunda pessoa.

E, até, a primeira.

domingo, julho 15, 2007

Tique-tique.

tique-tique
Sentado em frente ao volante, sentia o couro levemente escorregadio e gelado e o semáforo fechado há tempo demais, ouvia a seta para a direita enquanto a chuva pingava...

tique-tique
Na minha frente outro carro, tão cinza quanto o meu, o céu sujo e também o ritmo insistente da luz que acendia e apagava, provavelmente também o barulho em seu interior...

tique-tique
tique-tique

A cada toque um acender, a cada intervalo um apagar, para a mesma direita que eu, exatamente ao mesmo tempo! Eu...

tique-tique
tique-tique

Éramos os dois a mesma pessoa, eu e meu anterior, quiçá minha anteriora, com certeza era ela, no mesmo ritmo, naquela mesma loucura, imersos no mesmo batuque...

tique-tique
tique-tique

Senti que pulsávamos juntos, que éramos simétricos, sincronizados, que talvez se eu finalmente encontrasse...

tique-
tique-

O sinal abriu, e, após poucos momentos de hesitação, o carro da frente, a pessoa da frente, virou para a esquerda.



Vazio, tomei meu caminho à direita.


Talvez ela tenha se expressado mal.

quarta-feira, julho 11, 2007

Pre-tensões.

- Não é que eu saiba ser qualquer coisa mais do que eu aparento ser, mas é fato que eu sou muito mais do que vocês, seus porcos nojentos - pigarreou -, fracos das idéias e sentimentos! Algum dia, meus caros, perceberão o erro, vêem bem?, o erro que fizeram, e então, só então, companheiros... -


fôlego

- Só então, companheiros... Vocês vão poder entender o que se passou aqui.
- Isso é tudo?
- ... Sim.
- Esplêndido.

Abriram o alçapão, rangeu a corda, forte e grossa, tão resistente e tesa quanto poderia ser, e rude e acolhedora como a ditadura, e com seu abraço apertado e amoroso estraçalhou as veias jugulares, as artérias carótidas e tudo que restou foi um bocadinho de ar, que logo acabou, e acabou.

sexta-feira, julho 06, 2007

Ela achou que seria legal tentar pornografia.

Você também é capaz de sentir seus dedos roçando e dançando e tomando todo o teclado? O romantismo das canetas e lápis e pedaços de pedra talvaz possa ser recuperado mesmo nesse frio e plástico amigo, frio e plástico, torna-se uma arte plástica, fria, apertada e usada à vontade por todos da casa...

Você também é capaz de produzir textos sem qualquer estética, métrica, musicalidade? Figuras de linguagem usadas à toa, como quando ilustramos uma coisa com uma foto qualquer sem saber o porquê dessa escolha? A mão do acaso! Ah, por ocaso já observou o acaso?

Ah, pobre papel - numa analogia furada e já invalidada por tudo dito antes -, suportas tantos textos não-primos, todos irmãos uns dos outros, uma mestiçagem danada!

Oh, pobre computador, não entendes nada do que escrevem por ti.

Aqui jaz, com tod'orgulho, três filhotes de cabra e um strictu sensu.

segunda-feira, julho 02, 2007

Retomando o bolo de ceroulas:

Talvez falte, comentou meu amigo, talvez falte 1 bocado de inspiração neste seu bolo. Não é que não esteja gostoso, nem que, sabe?, acho que você me entende. Assim, com certeza é 1 bolo, eu consigo perceber isso, mas quando eu mordo é como se não fosse... se faltasse personalidade? 1 estilo, talvez, talvez verdade ou algo assim. O sabor, o tema, essas 2 coisas todas se mesclam e fazem arder no fundo da garganta, não sei se me entende. Mas continue assim, continue assim, você tem futuro! Caprichando um pouquinho mais na cobertura... Mexendo aqui e acolá...

domingo, julho 01, 2007

u Amor......

"VuxXxe ME DexXxAH Usah SEU KORpu??!?! Eu PrecISU di TodU vuxXxe...KADaH OXXiNhu...KadAH JUNTeEnHAH...KadAH mILIMETru KUBIcU.................. Oh!!!!!...SEm sEu buStU...SeUxXx bRAXXuxXx...kAdaH 1 DI SuAxXx PArtixXx...nAum pOXXU se nAdAh...NAUM PoXXu faZe nadAh...NUncAh sAIRei Du Pontu mALDItu EM ki Me EncOntru!!!!! DexXxe-me APalPaH-lu...SenTi-lu...OBSeRvaH-lu...VEdaH-Lu.................. ENtREgue-SI di 1xXx PRAh Mim...lIberTI-sI DIXXU TUDU I APENaxXx pERmItaH-ME ki.................."

kAnsaDu dAKELAH BoBAgi SEM sENtIdU – AleM DI RepetItIvAH au exXxTRemU –...AmaXXEi u BILHeti ki ME ESPerARAH DENTRu dI MeU PeKenITu aRMaRIu escOLah I me livREi Di 1xXx DAkeLE LixXxu......

eNtReTAntU...eNKanTU FInJU AXXISti AxXx MinhAxXx AulAxXx dI SemPrE...pOXXu rEvE U rEVeRBeraH DaKeLAxXx palaVraxXx AXXustADOraxXx...MaxXx...PEnsanU bEm...DuLCIXXImAxXx......

Sim.................. deliCIosAxXx!!!!! kaIxXx sErIAm axXx UlTimAxXx PalavraxXx dU pEDAXXu di pApEU Ki eU...tAUM INSensiveu...jOgUEi ForAh AgORAH MSM??!?! kORRU...AxXx gOtaxXx...DiREtu Pru LIxXxu...enfiU DiSESpERadaMenTi ToDu U bRaXXU I aGItU-U em bUsCaH d'ALgU...... U plasticu NEGRu eh tb EScUrU au tOKe...JAh KI naDah reVELaH a MeUxXx DeDUxXx FerVOrOsuxXx...pOr + INSISTentixXx Ki SejAm.................. enFiU U roSTu...enfim...NAkelaH eSPeciE di TUNeU ExXxTRaH-dIMEnsioNAU ki NUxXx lIvrAh dU Ki NAUM KERemUxXx +...I NaDaH DinovU......

koMu uLtIMaH tENTATIvaH...KOLoCu MeuxXx 2 bRAXXUxXx nakELE ENormE vAsu plASTIcU...EntAuM a KaBeXXaH...U TrONcU...AxXx PErnAxXx...TUDu Ki pOdI KAbe naKeLe ESpAXXU LIMiTAdAMeNTi IlimiTaDEENhu...... axXxu KI SeMPRe hAH ESpaXXu PRAh + LixXxu..................

maravilhaH!!!!! AxXxU FinAlMENTi 1 pedAXXU Di PApeU aMAXXaDu!!!!!

".................. eNtREgUe-SI DI 1xXx pRAH mIM...lIbErTi-sI dIXXU tUdU i APEnAxXx mE peRMiTah ki Eu u ENgULaH InteiRU i NuncAH +.................. nUNcah + nuxXx sEPArarEMUxXx!!!!!


ObrIGAdu pelAh kOmpReEnsaUM......"

Texto original
MiGuXeiToR

domingo, junho 24, 2007

O amor.

"Você me deixa usar seu corpo? Eu preciso de todo você, cada ossinho, cada juntinha, cada milímetro cúbico... Oh!, sem seu busto, seus braços, cada uma de suas partes, não posso ser nada, não posso fazer nada, nunca sairei do ponto maldito em que me encontro! Deixe-me apalpá-lo, senti-lo, observá-lo, vedá-lo... Entregue-se de uma vez para mim, liberte-se disso tudo e apenas permita-me que..."

Cansado daquela bobagem sem sentido – além de repetitiva ao extremo –, amassei o bilhete que me esperara dentro de meu pequenito armário escolar e me livrei de uma vez daquele lixo.

Entretanto, enquanto finjo assistir às minhas aulas de sempre, posso rever o reverberar daquelas palavras assustadoras, mas, pensando bem, dulcíssimas.

Sim... Deliciosas! Quais seriam as últimas palavras do pedaço de papel que eu, tão insensível, joguei fora agora mesmo? Corro, às gotas, direto para o lixo, enfio desesperadamente todo o braço e agito-o em busca d'algo. O plástico negro é também escuro ao toque, já que nada revela a meus dedos fervorosos, por mais insistentes que sejam... Enfio o rosto, enfim, naquela espécie de túnel extra-dimensional que nos livra do que não queremos mais, e nada novamente.

Como última tentativa, coloco meus dois braços naquele enorme vaso plástico, então a cabeça, o tronco, as pernas, tudo que pôde caber naquele espaço limitadamente ilimitado. Acho que sempre há espaço para mais lixo...

Maravilha! Acho finalmente um pedaço de papel amassado!

"... Entregue-se de uma vez para mim, liberte-se disso tudo e apenas me permita que eu o engula inteiro e nunca mais... Nunca mais nos separaremos!


Obrigado pela compreensão."

terça-feira, junho 19, 2007

qwertly

Concluo que o jovem brasileiro que chega agora ao vestibular não sabe dissertar.

Quanto é dois mais dois não sei só sei que dói ser dois e um e somente um o somatório de todos nós é você, minha querida
e amada perna.




É um disco novo, cheio de nostalgia, mas também repleto de inovação e s
olidariedade, talvez quem sabe até quiçá uma revolução astrológica!




Fecha a cena com Gabi e Justino se beijando.
Xavier observa tudo ressabiado, convoca
seus mutantes e a suprema beatitude.


F a c I M

- Bárbara, sua puta! Por que me trair de forma tão cruel? Por que me fazer de joguete, de brinquedinho, de personagem de literatura? Eu te amo, sua vaca de merda, eu te amo!



!!!!![/img][/src=c3p0lit.era]

terça-feira, junho 12, 2007

Valor

Tudo começara quando o menino achara na rua uma raposa de pêlos ruivos, quase que ardendo em chamas. Na ocasião, parecera uma boa idéia levar o bicho para casa até que o dono aparecesse ou algo do tipo. Não era um filhote, mas também não se podia dizer que era um adulto, pensaram o garoto e o animal na ocasião.

Ocorreram as coisas relativamente bem, até que a mãe do garoto perguntou por que ele ficava tanto tempo trancado em seu quarto, ao que ele respondeu, supondo-se muito corajoso, Estou escondendo uma raposa que achei na rua, e a mãe zangou-se com o feito do menino, onde já se viu esconder uma raposa? O jovem, decepcionado com a mãe, foi ao quarto e bateu a porta.

Andam ambos juntos, menino e raposa, pela rua afora. Estão procurando, talvez, o sentido daquilo tudo, as verdades ocultas na vida ou, o que talvez seja mais provável, um lugar para o pobre bicho selvagem. Selvagem? Mas ele se comportou direitinho todo esse tempo! Qual o problema em continuarem as coisas como estão?

Apenas uma raposa, droga!

Sentam-se ambos, já cansados, numa calçada qualquer. O menino afaga a cabeça do pobre canídeo, que fora ainda mais duramente abandonado do que ele, esperando um milagre ou algo congênere.


Latidos!

A raposa ergue as orelhas, sente todo os seus músculos ferverem e, num só pique, vence a distância de dois quarteirões e vira na r. Corta Azar num frenesi quase religioso, como se os latidos remetessem a terríveis memórias das caçadas infernais de outrora. O menino, desesperado por ver-se livre de seu problema, chora copiosamente.

Entretanto, quando chegar em casa, sua mãe elogiará sua obediência e capacidade de se livrar das coisas inúteis.

terça-feira, junho 05, 2007

Falta qualquer coisa

Falta qualquer coisa
na poesia
que apresento cá;

Não é métrica
nem Verdade,
Não é lírica
nem Vaidade,

Essas que não valem nada!
São menos do que sentir,
são menores que o real,
só persistem em surgir
a estragar o meu sarau!

Falta muita coisa
na apoplexia
que apresentei lá.

sexta-feira, junho 01, 2007

Há'quela rebeldia nossa de cada tempo livre...

Rabisco aqui, em primeira pessoa e tudo, porque a impressão foi forte demais para ser contida dentro de mim.

Puta que pariu.

É incrível a completa, repleta, notável, empaspalhável, etceterável falta de habilidade dos "escritores"-autores de diversos blogs por aí.

"Todavia ainda há tempo
Muito pouco é verdade
Mas sei que olharas a mim
Espero que não sejastes tarde"


Puta que pariu.
É sério, só pode ser piada. Vai mais um trecho, só pra deixar mais claro o motivo de meu asco:

Não olhei sua boca
Pois sei que nao posso beijá-la
Não olhei sua pele
Que de tão bela me ipnotizou

quinta-feira, maio 31, 2007

Refluxos;

Escute:

Billy Pilgrim soltou-se no tempo.

domingo, maio 27, 2007

Prófase I.

Agora, ela só era capaz de tentar focar seu olhar sobre a caneca sobre o pires, insistentemente olhando para um ponto um pouco mais distante do que o que procurava. Além disso, tremia de leve, tentava saber de onde vieram aquelas memórias e porque haviam sumido.

Naquele dia, lembrara, duas pessoas morreram, e o telefone lhe contara mais coisas além das poucas palavras que lembrava, que se limitavam a... Como era horrível se lembrar da voz amorfa! Não era exatamente um som, era como se houvesse conversado com idéias em seu estado mais puro, algo verdadeiramente divino, como... Monera.

Conseguiu, neste momento, sorrir de si mesma e de suas loucuras. Não havia ela mesma inventado o terrível acidente e aquela temível voz, que a fez chorar tanto e sofrer tanto quanto um humano poderia chorar e sofrer? Pois talvez...

TRIIIIIIIIIIIIM...
Sentiu o frio percorrendo-a,
TRIIIIIIIIIIIIM...
Cerrou os punhos e os olhos com força,
TRIII...!
- Oi.
Ela atendeu o telefone apenas porque o toque fazia sua cabeça doer e não havia mais ninguém para atendê-lo. Temia, é fato, que fosse novamente a voz, que novamente ela matasse alguém, que...
- Monera? É Carlos... Você não aparecerá na reunião, não é? Aconteceu alguma coisa?
- Não, é que... Cá, eu... Olha, eu tô c'uma puta dor de cabeça, mal consigo me levantar...
- Ceeeerto... Olha, tudo de melhor pra você, então.
- Não, mas eu faço a minha parte, pode ter certeza! Eu juro que se precisarem...
- Se precisarem? - e riu - Você faz parte do grupo!

Ouviu-se o silêncio do outro lado, marcado pela respiração ofegante de Monera. Carlos se mexeu do outro lado do telefone, impaciente.
- Mona, cê tá muito mal?
- Você... fala... falou em... negrito e itálico...?
- Olha... Eu vou deixar você descansar. Depois a gente vê como a gente faz. Melhora, hein?
Cléquiti.
Tuu--tuu--tuu--tuu--Monera--minha--Monera--tuu--és--a--deusa--da--humanidade--.
--Aceite--tuu--tuu-tuu--se--e--ao--mundo-- Atenção, o número que você discou não está disponível, verifique se...
Cléquiti.
Monera tremia de frio, encolhida no chão. Não podia ser, ela realmente ouviu a voz, pôde tentar decifrar se era um homem ou uma mulher, novamente, sentiu-se invadida como antes. De olhos vidrados, levantou-se incerta, procurou a janela, colocou ambas as mãos no fecho e falhou miseravelmente tentando abri-la. Jorrava lágrimas, mas sabia o que via: a janela negava-se abrir para ela.

Monera bateu o punho na escrivaninha algumas vezes, fazendo voar aleatoriamente os papéis, que, como pára-quedistas, cairam por toda sala, que era também seu escritório e quarto. Um logo à sua frente, exuberava a seguinte frase, em Minion, tamanho 24:

"A ti permite-se apenas a observação do mundo deles, que são como tu, exatamente como tu, mas não deuses."

Ela ergueu seu braço, formando uma linda silhueta carregada de raiva, e o baixou com toda a fúria que possuía, acertando em cheio a folha, a maldita folha que se levava muito a sério, e 10 mil japoneses do outro lado do mundo, vítimas do terremoto repentino que acometeu a península.

Quebrou-se um osso da mão de Monera, no entanto.

sábado, maio 05, 2007

Intérfase I.

O fato é que Monera se esquecera daquilo com certa facilidade, auxiliada pelo suposto superego e dois anos de vida. Da mesma forma que não lembrava mais do irônico episódio da moto, a revelação de que era uma deusa foi renegada para cantinhos escuros e pouco visitados de seu cérebro. Entretanto, ela levava uma vida razoável, às vezes até divertida, e assim ia indo.

Ela acordou, cansadíssima e com a cabeça latejante, espreguiçou-se, foi ao banheiro, despiu-se num só movimento e abriu o registro, chuááá direto na sua cabeça. Mas estava tão cansada que não sentiu a água, não sentiu o frio costumeiro que logo é trocado pelo calor do chuveiro elétrico; em suma, não sentiu nada.

Passados alguns segundos, Monera percebeu que havia algo errado, já que a água insistia em evitá-la, em correr em torno de seu corpo sem realmente tocá-la, em fugir de sua pele como foge da gordura.

Ela deslizou pelo box, lembrou-se da moto, dos corpos e da voz.

Ela se molhou toda.

Em sua cabeça, zunia a mensagem artificial, autômata e anômala:
- Monera, minha Monera, tu és a deusa da Humanidade.

terça-feira, maio 01, 2007

O telefone tocava:

TRIIIIIIIIIIIIM... TRIIIIIIIIIIIIM... TRIII...!
- Oba.
Ela atendeu o orelhão apenas porque ele estava tocando e ninguém parecia disposto a atendê-lo. Agora, se dispunha a ouvir o barulho do silêncio d'outro lado.
- Diga lá, quem é?
- Alô, é você, não é?
Considerou um pouco, enquanto imaginava qual era o sexo daquela voz sem vibração e sem forma:
- Sim, sou eu.
- Ótimo. Preparada para aceitar o seu Destino - falou a voz em negrito e itálico.
- Haha, suponho que sim.
- Muito bom. Vê aquela pessoa quase a atravessar a avenida? Ela esqueceu a carteira no chão.

Ela, uma jovem chamada Monera, levantou os olhos à busca de uma pessoa e sua carteira. Alguns minutos a leste, viu um homem calvo, roupas sociais, atravessando com firmeza a avenida. Um pouco atrás dele, a peça de couro caída.
- Senhor, você deixou cair sua carteira! - gritou, num desespero desajeitado e despropositado.
Ele se virou, assustado, procurou com os olhos a voz que o gritou, então a sua carteira e, quando ia buscá-la, foi atropelado por uma moto em altíssima velocidade, cujo motorista, infeliz motorista desprevinido, foi catapultado e caiu de cabeça, descapacitando o pobre cérebro descapacetado.

Monera gritou e grudou-se ao telefone público, deslizou direto ao chão, querendo chorar e não conseguindo, abrindo e não fechando mais a boca.

A voz disse:
- Monera, minha Monera, tu és a deusa da Humanidade.