segunda-feira, maio 23, 2011

Cena em primeira pessoa.

Com a ponta do dedo, escrevo em sua coxa a palavra TEXTO. Ficamos quietos.

sexta-feira, maio 20, 2011

o gato desengatou?

O gato está agindo de um jeito esquisito
pior que nem sei faz quanto tempo
os gatos são opacos feito paredes

Percebi hoje que ele desvia o olhar de mim
que ele não roça mais em minhas pernas
que ele não mia mais quando está com fome

O gato me encara debaixo da escada
eu não sei o que dizer
Há quanto tempo está mal, gatinho?

Talvez não esteja mal
essa mania de acharmos que tudo que é estranho é mau
talvez isto que esteja incomodando o gato

Sei que assistir tevê sem o gato não é a mesma coisa

quarta-feira, maio 18, 2011

Razões pelas quais adoro verdadeiramente o sexo.

Não vou dizer que é pelo amor, não vou dizer que é porque a natureza é bela, porque é aí que nos permitimos ser animais, ignorar a racionalidade, porque é daí que a vida vem. Essas porras nem são verdade de verdade. A verdade é que há algo no sexo que me atrai (o cheiro, o gosto, sua pele, seus calores?), talvez porque seja um abraço final, se feito com carinho; um aperto de mão perfeito, se feito às pressas – como um negócio –; o beijo mais molhado que se pode cumprir.


Sexo não se faz, cumpre-se.


Não há nada de superficial (mesmo suas peles são profundidade) no sexo.


Entendo as ressalvas políticas que se fazem em relação ao sexo. Como todo segredo universal, é mal entendido e praticado por muitos, talvez pelo véu que é posto sobre nós. Mas eu o entendo mais ou menos assim.


Desculpem pelo trote.

domingo, maio 08, 2011

uma linha.

um traço em todas as direções – de seus dedos a não-sei-mais-onde – sem a certeza de alcançar alguém, uma poética cotidiana que todos praticam… as palavras se dissipam em rede: multiplicação às cegas, divisão por zero? todos os oceanos são, hoje, letra.

daqui ao infinito (isto é: daqui a lugar algum).

quinta-feira, maio 05, 2011

O Preceptor.

Sala de reuniões de uma empresa de telefonia. Marcos, um produtor e diretor de cinema, senta-se de frente a Paulo, representante de uma pequena empresa de telefonia. Há uma pequena câmera filmadora em cima da mesa, apontada para Marcos.

PAULO
Conversei com o Sr. de la Roche e restaram algumas dúvidas em relação a seu projeto. Ele está bem escrito e apresentado, as planilhas estão todas corretas, veja bem, mas concordamos — eu e o Sr. de La Roche — que faltava... Como se diz? Faltava vida, algum brilho. O senhor... como era, mesmo?

MARCOS
Marcos Bonfim, senhor.

PAULO
Marcos Bonfim, sim. O senhor era dançarino antes, diz aqui em seu currículo.

MARCOS
Sim.

PAULO
E agora é produtor de cinema. As câmeras não o incomodam, então, não é mesmo? (Tosse.) Você deve adorar uma câmera? Você tem ombros bonitos.

MARCOS
Mmm... É, sim, senhor Paulo.

PAULO
Muito bem, hein? De dançarino a produtor e diretor de cinema! Incrível, incrível, poxa vida. (
Tosse.) Você sabe, as câmeras são para nossa segurança, nunca se sabe, não é mesmo? (Espirra.) Enfim, sobre a vida do projeto, você sabe que não estamos acostumados a atender gente pequena, se você está aqui é porque simpatizamos muito com o senhor.

MARCOS (assente com a cabeça)
Muito obrigado, senhor. Vocês... Quando pensávamos no projeto, achamos que sua marca combinava perfeitamente com nossa história, isso porque... Você sabe, o setor da telefonia e o da música, não é mesmo? E sendo um musical...

PAULO
Claro. Você dança, então?

MARCOS
Eu dançava, mas...

PAULO
Você pode dançar para mim? Isso, levante-se, por favor, sem cerimônias! Que tal... Dance, por favor, por favor. (
Marcos se balança lentamente, ensaiando movimentos de dança contemporânea, inseguro) Isso! Era isso que faltava no projeto, agora entendo muito melhor! Era essa a vida que faltava, caramba, quanta classe, que movimentos. Que movimentos! O senhor sabe mesmo se balançar muito bem. O senhor... Você se incomoda se eu o chamar de Marcos?

MARCOS (parando de dançar)
Não, senhor Paulo.

PAULO
Ora, não pare de dançar! E chega disso de senhor Paulo. (
Tosse bastante.) Pode me chamar de Paulo de Ferro, é como me chamam por aqui. Mas dance, dance! Você dança muito bem.

MARCOS (ofegante)
Obrigado, Paulo de Ferro...

PAULO
Então, Marcos Bonfim... Você sabe que gostamos muito de músicas e danças, mas realmente não estamos acostumados com projetos tão pequenos e baratos. (Tosse.) Um curta-metragem musical? Você é muito engraçado.

MARCOS (parando de dançar)
Mas... Quando pensamos em vocês... Sabemos muito bem que o dinheiro é tão pouco para vocês... E divulgaremos sua empresa na Internet...

PAULO
Por favor, continue dançando! Não queria o ofender, sua dança não tem nada de engraçada, está alegrando meu dia! Depois de você vem o
Cirque du Soleil e você não imagina como eles são sisudos e chatos. (Tosse.) O que eu vinha dizendo é que eu e o Sr. de la Roche não acreditamos na viabilidade comercial de seu filme. Marcos, Marcos Bonfim, você sabe por que está dançando?

MARCOS (para de vez de dançar)
Porque você pediu...

PAULO
Exatamente, exatamente. Você já ouviu falar na Srita. de la Roche? Por favor, sente-se!

MARCOS
Não, senhor, mas, quanto à viabilidade do projeto... Sei que a contrapartida econômica não será muito forte, mas, sendo dinheiro de isenção... Calculamos aqui que o orçamento é bem abaixo do limite de sua empresa...

PAULO
Sim, é verdade. Mas você já ouviu falar na Srita. de la Roche?

MARCOS
Não, mas imagino que seja filha do Sr. de la Roche...

PAULO
Incrível, e ainda por cima é um gênio! (
Toca o telefone.) Sinto muito, eu preciso atender. (Tosse repetidamente, nervoso.) Sr. de la Roche? Sim, tenho-o aqui. Certo... Tudo bem, então levo adiante. Ok. (Desliga o telefone.) Marcos, Marcos Bonfim, você deveria estar muito orgulhoso! O Sr. de la Roche disse que você é perfeito, que ele nunca se emocionara antes com tanta intensidade vendo alguém dançar!


MARCOS (olhando ao redor)
Muito... obrigado?

PAULO
Sim! Você... (
espirra.) Estamos muito perto de chegarmos num acordo! Marcos, você pode tirar sua roupa?

MARCOS
Não, senhor.

PAULO
Ora, senhor pra lá, senhor pra cá! Ande logo, tire sua roupa. Estávamos falando de vida, do vigor de seu projeto! O que precisamos é saber se o senhor tem a saúde boa, se é que você me entende. (Crise de tosse.) Arre, o ar dessa cidade! Vamos, tire logo tudo, fará um bem danado para seu filme! (Pigarreia.) Somos apenas eu e o Sr. de la Roche o vendo (aponta para a câmera).

MARCOS
Eu... Claro. (tira toda a roupa e cobre seu púbis com um contrato).

PAULO
Muito bem! (Pigarreia.) Agora sim estamos falando como gente grande! Sem mais mistério, sem mais mistério. Marcos Bonfim, o senhor tem um belo corpo, ah, isso sim! (Tosse terrivelmente.) Queremos que, como contrapartida, você dê umas aulas de dança para a Srita. de la Roche. Evidentemente, podemos dar mais um dinheirinho para tal, sem problemas.

MARCOS
Só isso?... Senhor... Paulo... Me parece um bom acordo.

PAULO
Ora, que bom! (
retira um lenço do bolso e assoa o nariz.) Agora, deixe-me ver esses documentos!

MARCOS
Os... documentos?

PAULO
Esses em sua mão! Jogue-os aqui.

MARCOS (Lança os papéis sobre a mesa, Paulo os ignora e continua o encarando, com um sorriso de canto a canto do rosto. Marcos olha para o chão.)
É isso?... Posso me vestir...?


PAULO
Claro que pode. Muito obrigado, Marcos Bonfim.

Marcos pega suas roupas no chão, Paulo guarda a câmera dentro de sua gaveta, sorridente.

MARCOS
Muito obrigado por tudo, Paulo de Ferro.

PAULO
Você nem imagina, você nem imagina! (
Tosse.)

sábado, abril 30, 2011

Brincando de drama.

Rob entra em casa, vestindo sua roupa de trabalho. Encontra sua mulher, Clara, sentada numa poltrona ao lado de uma barraca montada na sala de estar. Ela segura um copo de conhaque em uma mão e parece dormitar.

ROB
Bebendo às quartas? Qual é a boa?

CLARA (coloca o copo no chão, levanta-se e vai animada até Rob, abraçando-o)
Você, de volta! Eu senti tanto a sua falta, sabe? Você está tão cheiroso...

Rob larga-se dela e senta-se na poltrona.

ROB
Que exagero! Fedido, você quer dizer. Se existe estar meio-morto, é assim que eu estou. (Olha para a barraca.) Seu dia parece ter sido divertido, no entanto.

CLARA (senta-se no colo dele)
Você não imagina como! Arrumava os armários quando achei nossa tendinha, lembra?

ROB
Sim, era bom, era muito bom. Eu vou tomar um banho, agora.

Clara inclina-se sobre ele e o beija na boca.

CLARA
Por que você não entra na nossa tendinha?


ROB
Ela está arejando, não está? Você sabe muito bem que tenho cá minhas alergias.


CLARA
Sim, com certeza, mas e eu? Eu montei a barraca mesmo assim, eu me sujei toda por você. Vê meus olhos vermelhos?


ROB
Sim, e a face inchada e essa boca quase explodindo. Se eu não conhecesse suas alergias, acharia que você passou a tarde inteira chorando. Mas hoje não é um bom dia para joguinhos em uma barraca.

Rob se levanta, forçando Clara a ficar de pé. Rob começa a ir em direção ao quarto.

CLARA
Não! Espere um pouco, temos visitas!


Rob vira-se para Clara.

ROB
Numa quarta-feira?


CLARA
Você sempre me disse que todo dia é dia quando nós o queremos bem. Hoje é um dia especial.

ROB
Sim, o dia em que se toma uísque, montam-se as barracas e chamam-se as visitas. Quem vem pra cá?


CLARA
Eu estava me sentindo muito sozinha à tarde, sabe? Você não estava aqui...

ROB
Costuma acontecer quando eu trabalho, como nas quartas-feiras...


CLARA
Mas você voltou pra mim, não é? Para nossa tendinha. Chegou tarde...

ROB
Estou enfiado até a cabeça nas reuniões com os chineses, não me encha por causa disso!

CLARA
Afunda-se até a cabeça...

ROB
Só quero um banho, conversamos depois, na cama, quentinhos e tudo mais.

Clara aperta seu corpo contra o de Rob, intensamente.

CLARA
Agora, na barraca.

ROB
E a visita? Ela não vem?


CLARA
Já veio. Ajudou-me com a barraca, sujou-se comigo, também.

ROB
Ela a ajudou.

CLARA
Como ela sempre lhe ajuda.


Rob larga suas coisas no chão e se senta novamente na poltrona, derrubando acidentalmente o copo com conhaque no chão. Ele apoia a cabeça entre as mãos.

ROB (
irritado)
Quem, Clara?


CLARA
Entre e veja! Você sabe, você é bom de entender as coisas, sempre percebe tudo bem antes de mim... Vai, entre!


ROB
Você não devia beber às quartas-feiras.


CLARA
Você nunca volta para casa às quartas. O que você faz às quartas?


ROB
Os chineses, Clara, eu já lhe disse! Os malditos chineses me tomam todas as noites.

CLARA
Você chegou cedo, onde estão os chineses? Talvez seus chineses estejam aqui, não é, na nossa tendinha?


ROB
Você delira, arre! Você mesma disse que  eu cheguei tarde! Arre, Clara, arre, deixe de maluquice e de conhaque, você parece um...

Clara pula novamente em seu colo, beijando seu pescoço.

CLARA
Você não está cheirando a reunião com os chineses! A reunião foi cancelada, não foi? Ela não respondeu suas mensagens e você veio direto para casa, pra mim, para a substituta. Mas eles também vieram pra cá, pra nossa reunião! Vamos, entre!

ROB
Entro, porque não há chinês algum, tudo bem, joguemos o seu jogo infantil!

Rob se levanta, retirando Clara rudemente de seu colo. Vai em direção à barraca.


CLARA
Se você entrar nessa barraca, é nosso fim.


Rob entra na barraca.

segunda-feira, abril 25, 2011

prova de xilo: lara ao parapeito.

retratos

em suas mais variadas formas
em suas mais variadas
em suas

terça-feira, abril 19, 2011

COVEIROS.

PERSONAGENS

PRIMEIRO PROFESSOR, chefe da área de português da escola.
SEGUNDO PROFESSOR, recém-contratado da área de português.
GUSTAVO, 14 anos, aluno exemplar, filho de deputado.
HENRIQUE, 13 anos, aluno e braço direito de Gustavo.


CENA

Sala dos professores, grande montanha de papéis sobre as mesas.

Dois professores entram com mais papéis nas mãos e se jogam sobre as cadeiras, com canetões vermelhos nas mãos, rabiscando com ênfase os papéis.

PRIMEIRO PROFESSOR
Acha justo que um aluno seja reprovado por copiar as respostas de outro?

SEGUNDO PROFESSOR
Creio que sim, está no regulamento, não está? Se os diretores decidiram assim, a questão não está mais em nossas mãos.

PRIMEIRO PROFESSOR
Não devia ser o outro, o que deu as respostas, também punido?

SEGUNDO PROFESSOR
Não se ele o houver feito por compaixão? Se o coração está leve...

PRIMEIRO PROFESSOR
Mas está aí, justamente, o problema! Como alguém pode fazê-lo de mente limpa? Ajudar um crime, torná-lo possível, é pior do que cometê-lo de fato. Se alguém dá a faca e o queijo para outra pessoa, é certo que esta outra cortará, com a faca, o queijo.

SEGUNDO PROFESSOR
Não podemos punir nosso melhor aluno, está na ata da reunião de ontem. A culpa é do burro que aceitou a cola.

PRIMEIRO PROFESSOR
Que parvice!

SEGUNDO PROFESSOR
Na verdade, se quer saber... Se ele não fosse filho de político, levava uma boa reprovação na testa.

PRIMEIRO PROFESSOR
Arre, mas esse é o absurdo! Um professor… O importante são as notas, o importante é a conduta! Não há nada menos importante para um professor do que o pai de um aluno. Veja esse monte de lixo, essas respostas incoerentes… Temos que poder corrigi-las, riscá-las, puni-las!

SEGUNDO PROFESSOR
Certo, certo, muito certo.

PRIMEIRO PROFESSOR
Pois, como é que se deve punir bem um aluno?

SEGUNDO PROFESSOR
Reprovando-o?

PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, parvo, mas não só isso! Saiu-se com a resposta mais simplória que pensou, isso vale no máximo um meio certo.

SEGUNDO PROFESSOR
'Como é que se deve punir bem um aluno'?

PRIMEIRO PROFESSOR
Foi o que lhe perguntei.

SEGUNDO PROFESSOR
Não sei, peço água.

PRIMEIRO PROFESSOR
Ah, água? É mesmo um imbecil. Mas não pense demais no assunto para não fritar essa cabeça enorme! A boa punição é social, parte por todas as camadas da vida do cabritinho, faz com que ele se arrependa de sua preguiça, burrice – o que quer que seja – com cada pelinho de seu corpo. Como fazer isso? Vai, busca um café para mim e sua tal água, e pense bem no assunto! (Sai o segundo professor.)

Vêem-se Gustavo e Henrique aproximando-se à porta da sala

PRIMEIRO PROFESSOR (Corrige as provas ferozmente e cantarola.)

Tu és tolo, tu és tolo como porta.
Se eu te digo: tu saíste a teu pai
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu saíste mesmo, mesmo a teu pai

GUSTAVO
Como ele canta assim, corrigindo provas como se lavasse o chão?

HENRIQUE
Talvez lavar o chão e corrigir nossa concordância seja a mesma coisa pra alguém que passa os dias fazendo isso.

GUSTAVO
A repetição só esvazia, a repetição só esvazia.


PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)

Não te escondas, não te escondas de teus erros.
Se eu te digo que errar é coisa humana,
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu és humano, mesmo, mesmo, por inteiro

(Amassa uma prova e joga em direção à porta.)

GUSTAVO
Essa prova jogada ao chão foi de um aluno que colocou todas as suas forças, estudou três semanas, negou todos os compromissos, perdeu um pouco de sua própria vida! Foi assim, não foi?

HENRIQUE
Acho que sim, cara.

GUSTAVO
Ou então, de um que nunca tivera problemas antes, que se sentou para a prova-final insuspeito, e agora... Agora sua prova está no chão, agora deve passar mais um ano chafurdando na bosta!

HENRIQUE
Bem provável.

GUSTAVO
É isso, então é isso mesmo, e agora é lixo!

PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)
Errado, errado e errado.
Errado, errado, errado, errado!
Tudo que tu tens feito
é errar ao quadrado!
(Arremessa outra prova)

GUSTAVO
Eis outra. Poderia ser de qualquer um de nós. (
Pega a prova amassada.) Como brincam com nossa juventude, marcam com machados nossa vida, esquecem que já somos pessoas! Este papel amassado significa nosso fracasso social, não?

HENRIQUE
É.

GUSTAVO
Não tem medo de ser essa prova tua caveira?

HENRIQUE
Já sabia que não me daria bem, cara.

GUSTAVO
É esse tipo de atitude que permite que nos esmaguem. Vou lá ter com ele. (
Adianta-se.) De quem são essas provas?

PRIMEIRO PROFESSOR (sem tirar os olhos das provas)
Minhas, ora.
Não, não, não,
parece que fizeste um errão!

GUSTAVO
Não são suas, ainda que as trate como tal.

PRIMEIRO PROFESSOR
Espero que não sejam suas, então, pois que a coisa aqui é podre.

GUSTAVO
Percebo bem a podridão. Muitos reprovados?

PRIMEIRO PROFESSOR
Poucos, infelizmente. Muitos me escapam pelas frestas dos dedos.

GUSTAVO
Escapam como?

PRIMEIRO PROFESSOR
De toda forma, por sorte, por cola, mas alguns, mesmo, apenas porque têm pais que os protegem.

GUSTAVO
Como pode um pai proteger o filho da reprovação?

PRIMEIRO PROFESSOR
É justamente o que eu pergunto. A sombra de um pai poderoso assusta o povo lá de cima, como se a má índole de uma criança pudesse ser justificada pelo emprego do pai.

GUSTAVO
Deixá-lo-ão impune, portanto?

PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, às custas do pobre asno que aceitou sua ajuda. Mas todos terão sua vez, minha caneta é justa. (
Amassa uma prova e joga em direção a Gustavo.) Veja se isso é possível!

GUSTAVO
Deixe-me ver (
pega a prova). “Casmurro traiu sim a Capitolina dá pra ver logo no começo da história porque ele é sério e isso significa culpa”. De quem é essa afronta?

PRIMEIRO PROFESSOR
De um imbecil, o que acha?

GUSTAVO
Não adianta perguntar, eu não sei.

PRIMEIRO PROFESSOR
Este enorme imbecil, esta anta completa, se não a reconhece, é um tal de João não sei das quantas, garoto-problema, repetente, uma vergonha.


GUSTAVO
Ora, como ele pode falar assim? Estamos todos sujeitos ao erro, mesmo João, taciturno, com as mãos metidas nos bolsos do moletom… Somos gente! Se na grafia identifica a ignorância, devia corrigi-la, e não puni-la! Oh, João, pobre tolo, pobre tolo. Diga-me, Henrique…

HENRIQUE
Digo. O quê?

GUSTAVO
Estamos sozinhos com nossos erros, todos?

HENRIQUE
Sim, parece que sim.

GUSTAVO
E seremos punidos assim?

HENRIQUE
Uns mais, outros menos.

GUSTAVO
Como somos fracos, Henrique! Se estamos sujeitos à queda, se mesmo Napoleão caiu de seu cavalo, como podemos continuar? As provas estão por toda parte, os juízes estão sempre prestes a entrar em cena e nos esmagar. A partida é perdida, sempre. Mas quieto, quieto – lá vem os diretores com o pobre asno que mandei à forca. Escondemo-nos!

(Saem.)

sábado, abril 16, 2011

conto de celular (:

Surpreendo um gnomo me espiando enquanto me dispo. Sorrio e pergunto se ele quer massagear as minhas costas. Excitadíssimo, ele goza no chão instantaneamente e explode numa fumaça roxa.

segunda-feira, abril 11, 2011

sábado, abril 09, 2011

1, 2, 3, 4

dansa dansa dansa
corpo corpo corpo
chão chão chão

dansa corpo chão
no chão
o corpo
dansa

quarta-feira, abril 06, 2011

João Paulo Segundo.

P. Ah, escrever, escrever é viver, viver é escrever! Onde deito minha pena, os deleites deleitam e amamentam um mundo outro de posturas e possibilidades! Ah, mas quem vem aí?
J. Olá? Quem está à luz de velas?
P. (curvando-se sobre os papéis) Oh, parece-me que... João! Bom lhe ver aqui, amigo meu!
J. Ah, Paulo, que agradável surpresa. Que faz?
P. Não lhe interessa de verdade, coisas de um mundo outro.
J. É mesmo? Pois acabo de retornar de uma corrida no parque e mal sabe o que me aconteceu.
P. Não o sei, mesmo...
J. Pois...
P. Pois?
J. Pois que enquanto eu corria... Ora, conto-lhe, ainda que seu orgulho me esconda tudo! Estava eu correndo quando vi uma moça, veja bem, uma moça com as pernas de fora...
P. Fato bastante incomum nesses dias ensolarados.
J. Caída no chão, veja bem, as pernas descobertas pelo short e uma poça de sangue a seu lado!
P. E por quê?
J. Ora, me diga você! Por quê?
P. (desinclina-se de sobre os papéis, pondera com a caneta na mão) Oh, mundo, mundo, cruel mundo! Foi ela engolida por um automóvel?
J. Nada, nada!
P. Pois então que foi alvejada pela faca de um assaltante, ou, numa crise convulsa, caiu-se no chão, afetada pelos humores e amores de nosso tempo... Uma Werther de sua própria consciência, vertendo-lhe a alma o acesso nervoso súbito.
J. Lindo, lindo, porém falso, oh, muito falso!
P. Então o quê? Atiraram-lhe uma pedra, Madalena moderna sem Cristo a defendê-la?
J. Jesus que me livre, também não o foi.
P. Então o quê?
J. Que faz aí?
P. Eu?
J. Sim, você, ora, é claro!
P. Confabulo sobre a causa da queda da moça de shorts curtos, você bem o sabe.
J. E debaixo de seu braço, escondido o papel?... Escreve?
P. Ora, de que importa!
J. Tenho quase certeza que o ouvi louvando qualquer coisa. Passou a acreditar em Deus?
P. Sim, sempre acreditei com toda a força de meus cabelos.
J. Não use sua calvície como rota de fuga irônica! Escreve ou não escreve?
P. Escrevo.
J. Então bote aí, Paulo de Medeia, firule bem sua caligrafia: a moça dos shorts curtos não existe e você é um tolo.
P. (levanta-se, apontando a caneta ameaçadoramente para João) Quem, eu ou você?
J. Arre, reage rápido e infantil. Vá a merda, que vou ao mercado comprar queijo.
P. Passe bem, sofista!
J. Passe à merda, passe à merda!

terça-feira, abril 05, 2011

João Paulo.

J. O que é que você está fazendo aí?
P. Oh! Se eu lhe dissesse, se eu lhe dissesse...
J. O quê, mas o quê? O que esconde aí, debaixo dos braços, olhos desconfiados?
P. Meu amigo, meu companheiro, não posso lho dizer! Se o fizesse...
J. O que é, diga, diga!
P. Você já o pressente.
J. Não, o quê?
P. Se eu lhe dissesse...
J. Chega de se repetir, pelo amor de Deus.
P. Sim, concordo; por que quer saber?
J. Porque você esconde.
P. Por que eu escondo?
J. Como eu vou saber?
P. Vai saber.
J. Vou?
P. Vai, oh, claro que vai!
J. Então o quê? O que você está fazendo aí?
P. Por Deus, chega de se repetir!
J. Está vendo? É você! Você, que não quer me dar nada, só costura com as palavras.
P. Não costuro nada, como é cego.
J. Então...
P. Então?
J. Passar bem.
P. Passemos. Adeus!

segunda-feira, abril 04, 2011

sem título, abril de 2011.

níveis de realidade
corpo no caminho
abraços inevitáveis

quarta-feira, março 30, 2011

novela - parte 1

"Não queria que parecesse que eu estou querendo chamar atenção demais e eu mesmo acho um pouco imbecil fazer isso aqui, mas pensando bem – não tive tanto tempo assim pra pensar – achei que valeria a pena. Não vou escrever mais pra não soar mais melodramático ainda.

Estou com câncer. No intestino, principalmente, mas no fígado, no sangue, em tudo, mais ou menos. Acho que vocês entendem o que eu quero dizer.

Se vocês tiverem qualquer coisa pra resolver comigo, acho que é agora ou nunca. Não queria fazer um anúncio público, assim, virar fofoca grande num só segundo, mas é melhor do que virar fofoca pequena recheada de remorso das pessoas pra quem eu teria coragem de contar. Enfim, se tiverem o que dizer, me liguem.

Mas só se for alguma coisa de verdade. Não tô muito bem do humor".

Ele publicou a mensagem antes que desistisse. Reclinou-se com a cadeira, passou a encarar os volumes de Marcel Proust. O maior problema de morrer vai ser deixar isso tudo sem acabar, não os livros chatos do proust, mas tanta coisa indefinida, tanto chão que poderia ter sido mas não foi.

Ele já havia tido tempo para racionalizar as coisas e já inventava que seu medo não era da morte em si, mas de suas consequências. Porque a morte, não é mesmo? Recebeu uma mensagem no celular – "Sério?" "Sim, um café?" "Eu tô no trabalho" "Tudo bem, eu aguento até às dezenove" "é" "na sumaré, então?" "Sim." "Ok" – ele já sabia que seu irmão seria o primeiro a reagir abertamente à notícia, embora seus dois colegas aleatórios que curtiram seu status no facebook o deixassem um pouco mindfucked.

Deu tempo para um banho.

Mas eles curtiam o quê?

Outra mensagem no celular: "sério?", de um número desconhecido. Sério. Ele se vestiu, assegurou-se que estava com tudo que precisava e saiu. Assim que fechou atrás de si o portão do prédio, percebeu que não havia ninguém lá esperando-o sair do prédio, e mesmo as pessoas na rua o ignoravam ou o notavam como sempre. A Internet ainda não havia engolido todo o mundo, mas ele sabia que na faculdade seria diferente e que, de um jeito ou de outro, reconheceriam nele o condenado precoce que era.

Chega de exagerar tudo, e então, numa só caminhada, chegou ao café na Sumaré e se sentou do lado de fora, à espera do irmão. Pediu um expresso, acendeu um cigarro e se afundou na cadeira, observando a rua. Viu uma antiga colega do fundamental passando – muito feia, aliás, e um tanto burra – e riu de verdade, para fora. Mas ele se corrigiu logo, achando que podia estar fazendo o gênero risonho auto-irônico, maluquinho na depressão. Nada disso.

— Fumando?
— Sempre um gênio da observação, o senhor.
— Obrigado. Posso?
— Claro – oferece o cigarro e o assento – à vontade.

Ocuparam-se de acender o cigarro em dupla.

— Mas é verdade, mesmo?
— Mais verdade do que eu mesmo.




sábado, março 26, 2011

foto: Lara no cabeleireiro.

No centro da foto os olhões de Lara se vendo no espelho, olhos pintados e tudo bonito. Suas maçãs do rosto – já normalmente pronunciadas – indicam o começo de sorriso daqueles que se percebem fotografados e sentem prazer por isso. Preta&branca, como todas as outras da mesma série, analógica, cotidiana. O cabeleireiro ergue o cabelo de Lara dos dois lados, como se o examinasse, revelando suas orelhas e seus brincos discretos, o pescoço que, nesse contraste, tem uma poça de sombra em sua profundidade e uma alvura terrível em todo o resto. Só se mostra um pouco do avental que colocaram sobre ela. Como o cabeleireiro lhe puxa os cabelos, Lara tem o rosto levemente voltado para baixo, como uma predadora, deixando-o um pouco mais triangular, menos oval. A camisa do cabeleireiro, listrada, cria uma boa separação de figura e fundo. Desfocadas, no espelho – que possui dois riscos visíveis dividindo suas três partes – duas mulheres bem arrumadas se abraçam firmemente, provavelmente velhas conhecidas. Talvez uma delas esteja grávida, sempre é possível. No canto superior esquerdo, o ventilador de teto de madeira escura está desligado. Uma luz generosa, gorda e suave entra pelo mesmo lado esquerdo, banhando tudo e a todos. As sombras provavelmente eram muito mais suaves do que essas que se desenham no pescoço e no rosto de Lara, mas a fotografia é cheia dessas pequenas traições. Lara não era tão bonita assim, também, nem tão parecida com Anna Karina, mas essa foto as aproximava de forma incrível. A tesoura na mão do cabeleireiro, escondida entre as mechas dela, também não brilhava de jeito tão provocativo. Assim que se percebe a tesoura, a atenção se desloca dos lindos olhos de Lara para ela, não há jeito.

Mais importante de tudo, a foto ignora a minha presença, ignora a minha mão, ignora que fui eu quem pressionei o botão naquela hora, que esperei o abraço daquelas mulheres e o olhar de Lara.

Fotografar você sempre foi, para mim, uma espécie de morte.

domingo, março 20, 2011

fraco bem mais fraco do que eu faria

cafécafécafé cadê o café
alguém fez o café (eu não fiz o café então se tem café é porque fizeram café)
mas a dor de cabeça
a dor de cabeça é insistenteinsistente repetitiva
três dias já
será que é enxaqueca
mais café mais café mais café
(então se tem café é porque fizeram café)

quem fez o café
eu não sei
eu estava dormindo até agora há pouco
agora há pouco
cafécafécafé

lembro de alguém se mexendo ao meu lado
e se levantando
e tomando banho no banheiro
chuveiro vapor toalha
beijo suave no rosto
gotas de suor
dor de cabeça insistenteinsistente repetitiva

agora há pouco café
fraco bem mais fraco do que eu faria
se não fui eu quem fiz falta uma peça nesse guarda-roupa
negòcinho irradia da nuca até o meio da cabeça
dor de cabeça repetitivamente insistenteinsistente
(aiaiai mas se não fui eu só pode ter sido você)

mas você você é quem
qual delas
porque arrearrearre dor de cabeça e talvez
talvez
uma gotinha de álcool demais
e se mais café café café eu quisesse
teria que fazer e faço

três dias já dor de cabeça
mão medindo a febre
cabeça balançando cabeça latejando
não não não nada bem consigo
masmasmas pelo menos uma última noite então
tudo bem
mais ou menos isso não é

você mas você é quem
cheiros na cama cadê os cheiros na cama
cheiroscheiroscheiros só de café
dor de cabeça
impressão de que sim de que você disse sim
que nos deitamos e tudo mais
tudo mais
tudo mais
aí sono dorme
dor mimos
você café
eu cama
eu café
você rua

eu eu eu
queria lembrar porque
meu café está pronto
forte denso irregular
e seu café
fraco bem mais fraco do que eu faria
mas você é quem
dor de cabeça insistentemente repetitiva
falta uma peça nesse guarda-roupa

saudades suas
demais
mas você
você é quem

quarta-feira, março 16, 2011

A nossa canção.

Célia disse que não aguentava mais aquela música tocando sem parar, e era verdade, aquilo não se fazia com ninguém.

– Eu não entendo porque a gente, porque agora, porque não dizem nada... – Eric desconfiava que talvez aquilo fosse apenas um golpe psicológico – Isso deve ser só um golpe psicológico

solipsismo (passageiro)

um quarto vazio é um quarto vazio, ao menos até que você pense nele de outra forma. aí ele deixa de ser um quarto vazio, me parece. sim, eu sei, não é o pensamento mais brilhante do mundo, mas o mundo anda já brilhante demais.

domingo, março 13, 2011

quinta-feira, março 10, 2011

quarta-feira, março 09, 2011

Ata da reunião de ontem.

– O que me incomoda, dentre muitas outras coisas – dizia Rosbife – é que, numa situação dessas, o silêncio seja tão significativo. Não que o silêncio em si queira dizer qualquer coisa, mas enquanto eu escolho o que falar… Quando eu falo, no final das contas, parece que eu estava fazendo de propósito, o silêncio. Um intervalo calculado.

Rosbife, Catupiry e Mortadela ficaram quietos, deitados na cama improvisada no chão. Não sei quanto tempo foi.

– E não é calculado – emendou Rosbife –. Viu só? Pareceu de propósito.

Ficaram em silêncio.

***

Um pouco depois, começou o sexo.

sábado, março 05, 2011

rosa pink.

moça no vestido rosa
disse toda ponderosa
"fica bom em mim, o rosa?"
"fica, claro, sua gostosa!"

the lady, delight in pink
asked to me, while in think
'do you like on me, the pink?'
'well, 'f course, i'd love to sink

actually, i'm on the brink
of takn'off fabric & ink
get you closer 'fore you blink
make you mine with all my stink'

"o alvo da minha prosa
não sua roupa, até jeitosa
é sua bunda vultuosa
vem pra cá que a gente goza."

terça-feira, março 01, 2011

Mais um verão.

– Oh, eu não devia dizer, mas eu digo porque sou otário, mesmo: se eu quisesse eu te enganava, sabia? A senhora não sabe absolutamente porra nenhuma de carros, dá pra perceber isso pelo jeito que você olha pras coisas enquanto eu faço as coisas. Então se eu quisesse eu podia te dizer que o eixo frontal do transmissor secundário sofreu uma avaria severíssima e que agora ou você troca toda a serigrafia aqui no canto da xilogravura ou o carro nunca mais que vai andar, mesmo, e que o conserto é rápido porque tenho todas as peças aqui mas que tudo não sai por menos de 3 mil reais, ou eu podia te dizer logo que o problema é a embreagem, mesmo, coisa simples, mas que as peças e a crise, enfim, que tudo sairia por 3 mil, também, e daria no mesmo, pra mim, mas talvez você se convencesse mais no primeiro cenário do que no segundo. As pessoas gostam de um pouco de complicação, e a senhora, com todo respeito, não parece ser daquelas que iriam pro google procurar a tal xilografia da serragem, então ficaria tudo bem, mas uma pecinha assim custar 3 mil reais seria um absurdo. Mas seria tudo bem, porque você está com pressa ou coisa assim e você não vai usar seu seguro nem vai ter como sair daqui enquanto seu carro não ficar bom, então, senhora, você só poderia cair no meu papo, de um jeito ou de outro, mas, enfim, como você já deve ter percebido, o problema é só essa mangueirinha de nada aqui, cobro 50 reais porque eu também tô cheio dessas peças sobrando e não gosto de ver cliente pagando à toa por bobagem pequena, então você me dá cinquenta reais e eu faço o serviço e você segue adiante e eu fico aqui e ficamos por isso mesmo, igualzinho a antes de seu carro pifar e esquentar e dar um piripaque terrível e eu, bem, eu fico daquele jeito,  com o coração partido de ver mais uma partindo, mais um probleminha menor que não custa nada e que num segundo está pronto, sabe? Então é isso? 50 reais e nunca mais nos vemos?

– Sim, por favor.

– Que bom, fez a escolha certa. Tchau!

***

O carro não funcionou. Na verdade, o motor todo havia se fundido num bloco sólido. As rodovias, todas interditadas pelas enxurradas terríveis, permaneceram assim por 3 semanas. No fim das contas, Tom – o cara da oficina – levou para a cama sua primeira cliente. Foram muito felizes nessas 3 semanas. Quando a enxurrada passou, Tom cedeu sua bicicleta a Natália – a senhora em questão, na verdade beirando seus 30 anos –, que pedalou o mais rápido que pôde rumo à capital. 3 dias depois, os ninjas chegaram à oficina de Tom, sentiram o cheiro de Natália por todo seu corpo e o estraçalharam.