quarta-feira, março 28, 2007

Sorria, jeje.

Encarava-me o sorriso dela, gigantesco e chamativo. É seu atributo mais notável, pensei, enquanto tentava pensar no que pensar.

Vejam o que eu via: ela de pernas abertas, nua, e lá estava o sorriso, gigantesco e chamativo, encarando-me.

Percebem? Eu a via por baixo e havia um sorriso enorme logo acima do que deveria chamar minha atenção, e ele era chamativo, encarava-me gigantesco.

Era isso que eu pensava, falando com meus outros eus. Tentava "engolir" aquela boca esquisita, dentes a mostra, esquisitamente feliz e logo lá, logo ao lado. Por que o sorriso?

Por que um sorriso?

Por que diabos um sorriso tatuado logo acima de sua xoxota no lugar dos tradicionais pelinhos?

Por que sorri, meu amor?

terça-feira, março 27, 2007

A Odisséia desprecavida!

"Pois é, parece que estamos namorando..."
"Oba."
"E agora?"
"Agora? Agora já não estamos mais."

:)

Nunca contei para ninguém, mas os experimentados já devem saber, que é muito mais fácil escrever do que ler. Hoje, qualquer um escreve,

quantos lêem? Quantos dos que se julgam autores realmente lêem? É lamentável, mas conheço pessoas que se julgam capazes de escrever sem que tenham lido nada nos últimos xis meses. Daria até para fazer uma metáfora, mas

quinta-feira, março 22, 2007

Com texto, sem táxi;

[...]
- Que é que resta para nós, Sr. Dubin?
O velho Dubin meio-sorriu, como sempre fez naquelas ocasiões.
- Só o de sempre, algumas poucas linhas para completarmos nossa história.
Chovia, e a calça dos dois ensopava-se com o pingar e respingar das gordas gotas.
- Mas o fim será assim? Um fim fechado, limitado e sem qualquer chance de continuidade?
Dubin sabia o que diria, mas, mesmo assim, hesitou:
- É o fim, no máximo haverá outros começos.
Os lábios afrouxaram.
- Você... Podemos terminar juntos?
- Claro, meu amor.
Qualquer um poderia ver - qualquer um não viu - como os olhos de Dubin eram sinceros e, ainda assim, tristes.
- Então...

A porta do carro branco se abriu, Dubin que a abriu, ela entrou - olhou-o de esguelha antes - e, então, ele fechou-a com ternura.

FIM

domingo, março 18, 2007

Merecimentos e preconceitos.

Toda mulher merece um homem mais alto que ela mesma.
Todo homem merece uma mulher mais magra que ele mesmo.

Não importa o que se quer dizer, mas sim o que se diz.

segunda-feira, março 12, 2007

A verdade e o saco de arroz.

Os grilhos dos grilhões da vida que não é tão pouca só pode ser protumberante se o pouco for também polka.

Se seguir o que aqui digo, sua vida professional e afetiva surgem como a oportunidade que deve ser buscada e, assim, o alcance estará a seu sucesso.

Já eu, sou a sombra.

terça-feira, março 06, 2007

O garoto, a pipa e os bestsellers.

Lilo Rastros era um garoto absolutamente normal, que gostava de brincar e brincar, além de descansar e pintar desenhos. Os videogueimes não o interessavam demais, preferia a televisão.

Há uma falha narrativa aí, logo no começo. Se digo que ele era normal, é óbvio que algo de anormal acontecerá ou ele se tornará um pânque.

Tudo ia bem para Lilo Rastros até o dia em que se sentou em sua cadeira, logo à frente de sua escrivaninha, e sorriu para um papel em branco. Segurava o lápis confiante e encarava os olhos da folha, tanto desafiador como convidativo. Riscou, riscou e riscou.

Após terminar o que fazia, alargou mais o sorriso, enxugou o suor de sua testa como pôde e andou desajeitado com a folha até sua mãe, triunfante. Tropeçou três vezes, como se houvesse desaprendido a andar.

- Mãe, mãe, olha que eu fiz!

A mãe estava ocupada lavando a louça. Passaram-se alguns minutos.

- Oi, oi. É um desenho?
- É!
- Deixa a mãe dar uma olhada...

Ela agachou, também sorrindo. Pegou o papel e observou perplexamente. Fechou o sorriso.

- Que é isso?
- Não sei! Eu desenhei hoje!
- Como você desenhou isso?
- Eu o lápis, daí...

A mãe franziu o cenho, suspirou e levantou-se.

- Olha, não mente mais para a mãe. Eu sei que isso não é seu!
- É meu, eu desenhei!
- Não foi você que desenhou isso, filho! Onde você arranjou isso?
- Eu desenhei!

As linhas circulares do rosto de Lilo tornaram-se ésses, até zês. Chorou e chorou. A mãe bateu na bunda dele por não assumir a culpa e os anos trataram de esquecer isso tudo.

O desenho dizia, completamente legível e caligráfico:

"Havia uma bactéria. Lá estava ela, infectando a comida do menino, que a comeu junto com o hot-dog. A bactéria então fez seu caminho padrão e lá ficou, provocando distúrbios, até que outra bactéria maior, que viera de uma cápsula conhecida como Floratil, começou a comer a comida que a bactéria inicial pretendia comer. Então a bactéria inicial morreu de fome e foi cagada em jato. A outra bactéria não parecia causar mal algum para o intestino do moleque e, por isso, ficou lá numa boa. Isso até o moleque morrer e ela começar a comê-lo todo."

domingo, março 04, 2007

Um pouco de culpa nossa, todos os dias.

Eu não amo nem desando, sei que estou errado e por isso mesmo acerto.

Você nunca pedirá desculpas.

Você é orgulho puro.

Eu a odeio, mãe.

domingo, fevereiro 11, 2007

Insônia.

Escrevo tomado pela insônia e, após muito tempo, usando o eu lírico "eu de verdade". Oi, gente, aqui quem fala sou eu! Oba. Para quem não está familiarizado, meu nome é Ricardo Koiti e tenho como sobrenomes Abreu Miyada. Atualmente sou um escritor insone. Era para eu estar dormindo, eu tentei e tinha sono, mas não rolou.

Lá vamos nós dissertar sobre o problema da insônia:

O problema da insônia, para mim, não é a insônia em si, mas as conseqüências no dia seguinte. Cansaço, dor de cabeça, sono, sonhos, essas coisas bestas. Ficar acordado é bacana, até mesmo quando queremos dormir, mas o dia seguinte estraga tudo. Ou, na maioria dos casos, o mesmo dia.

É, eu sei, vocês dormem 2 horas por dia ou mesmo 1 e ficam se gabando. Ok, ok, legal. Respeitem esse pobre que tem que gastar um terço de sua vida dormindo para ficar bem. Hah, e lá vai o que eu poderia ter dito:

O sono não vem; ou já se foi. Na busca de algo para fazer enquanto não consigo adormecer, tamborilo sobre o criado-mudo. Curiosamente, ele responde com toc-toc's e espanta mais ainda meu sono. Resta-me apenas levantar e ir até meu companheiro, o computador, e tamborilar sobre suas teclas. Ao invés dos toc-toc's, recebo de volta tec-tec's prazerosos conforme o texto surge na tela. Aperto Enter algumas vezes, espaço noutras, digito letras, distribuo caracteres diligentemente. Infelizmente, estou mais ativo do que nunca, lúcido logo na hora na qual devia desligar minha racionalidade e apagar. Enter, enter, publicar. Ouço o computador gemer delicadamente conforme acaricio suas teclas, Salvar, Nova Pasta, Novo, novo, de novo.

Termino o que pretendia fazer, mas falta algo. Não sinto o sono que vem logo após o gozo, não sinto a vontade de sorrir por minha vitória e me jogar de lado no chão, esperando meu corpo se recuperar. Não posso descansar, tenho que satisfazer o computador e sua sede de palavras. Tenho que satisfazer meus dedos, ávidos por mais téc-téc's. Fecho os olhos e digito no escuro, tentando escrever cada ve z mais rápido, dem prestsr atenção apenas o téc-tec conti´nuo e veradeorp., aqieçe qie vcpnrora tpda a ,omja aç,a e, finalmente, chega a verdade da confusão calma que é estar de olhos cerrados.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

N'arte.

O amor na arte, o desejo na arte, o ódio na arte. As pessoas insistem em ficar tratando desses temas idiotas e retrógrados quando querem ser "artísticos". Ah, cacete, que chatice! Vou começar uma nova arte exatamente agora, livre desses sentimentos "humanos" inexistentes que vivem querendo povoar as coisas dos outros. Lá vai:

"Havia uma bactéria. Lá estava ela, infectando a comida do menino, que a comeu junto com o hot-dog. A bactéria então fez seu caminho padrão e lá ficou, provocando distúrbios, até que outra bactéria maior, que viera de uma cápsula conhecida como Floratil, começou a comer a comida que a bactéria inicial pretendia comer. Então a bactéria inicial morreu de fome e foi cagada em jato. A outra bactéria não parecia causar mal algum para o intestino do moleque e, por isso, ficou lá numa boa. Isso até o moleque morrer e ela começar a comê-lo todo."

Uau, isso sim é literatura!

domingo, fevereiro 04, 2007

Raised the Three!

Attention: the tenuous line between truth and more truth is in the source.

Raised the Three

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Chegue, Chega.

Carlos na cadeira. Detalhe na porta. Carlos olha fixamente. Detalhe na pequena fresta da porta, chão sujo. Carlos observa, com um livro na mão. Crime e Castigo. Carlos com o livro aberto. Carlos com o livro fechado. Detalhe na porta. Carlos observa fixamente. Passos. Carlos pisca. Passos. Carlos se inclina. Passos, passos. Carlos se levanta. Detalhe na fresta, carta no chão. Carlos vê fixamente, de pé. Detalhe na carta. Sedex. Carlos sua. Detalhe nos pés descalços de Carlos. Carlos se abaixa. Detalhe na mão de Carlos, pegando a carta. Carlos leva a carta para perto de seu rosto. Carlos coloca a mão no bolso. Detalhe na carta. Detalhe no isqueiro em movimento. Detalhe na chama. Detalhe na carta ardendo em chamas e o plástico do invólucro gotejando. Detalhe no chão. Carlos engole em seco. Detalhe na cadeira. Carlos se senta.

FIM

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Perfil.

Arquivado: dia 29/01/07

"Eu busco conhecimento.
Re-conhecimento.
Senhecimento.

Chega de cimento, chega!

Mas a vida no campo não compensa. Por isso, só posso dizer: Dê-me sua boca, apenas por alguns instantes. É importante e não será nad'e'mal.

Não! Não me dê as costas!

Filha da puta."

Arquivado: dia 04/02/07

"Vi a mulher mais linda do mundo logo lá, no metrô. Perfeita."

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Fuja.

- Então você veio mesmo.

Pedro estava deitado confortavelmente em sua cama, olhando para o ar logo a sua frente, poucos metros adiante. Havia nada, mas havia também um menino nu, olhando fixamente para ele.

- Então você pode me ver.
- Hah, esperava algo diferente?
- As pessoas normalmente não podem.

O menino nu era, também, ao mesmo tempo mas alternadamente, um homem nu de 30 e poucos anos, exatamente igual a Pedro. E era, também, também, ao mesmo tempo todos os intervalos de tempo entre o menino e o adulto, e todos esses eram, também, também, também, exatamente iguais a Pedro caso fôssemos voltando gradualmente sua idade até a que o menino-adulto que estava ali aparentava quando aparentava ser um menino.

- Ponto para mim, então! Mas eu só o vejo porque abriram meus olhos, agora eu sei.
- Sabe mesmo?

Enquanto o menino-adulto falava, seu corpo insistia em mudar e mudar e mudar, indo e voltando no tempo.

- Claro que sei, claro que sei. Ademais, sei e sei e sei.
- Delira, já?
- Sim, posso vê-lo.

Pedro fervia de/em febre. Detalhe na mão trêmula dele.

- Sabe quem eu sou, este é um dos seus sei's.
- Exato. Seja bem vindo, Morte.


Morte não portava uma ceifa, nem tinha seu manto negro e pesado e ossos no lugar de pele. Mas o sorriso ironicamente macabro estava lá, naquele menino-adulto, como o de um esqueleto que tenta conformar/assombrar sua vítima.

- Obrigado, pouquíssimas pessoas receber-me-iam de braços abertos como você.
- Como Cristo. Hah.
- Hah.
- Bom, Morte, mas eu sei que não é esse o caso. Digo, nunca ninguém mais receber-lhe-ia porque você é só meu/minha. Eu sei que há um/uma Morte para cada pessoa, que você não é um organismo metafísico onipresente e onisciente e tudo o mais.

Morte agora estava agora logo ao pé da cama, olhando para os pés de Pedro e ponderando. Pedro fora um menino lindíssimo, um adolescente feíssimo e um adulto mais-ou-menos, então o resultado geral do menino-adulto lá era, em geral, medíocre.

- Você está certo, Pedro. Eu existo única e exclusivamente para lhe matar/morrer, não há mais nada, nada.
- Certo. Morte, eu tenho uma idéia diferente, eu vou lhe matar.
- Ora, mesmo?

Detalhe na outra mão trêmula dele, um revólver gelado e brilhante e carregado.

- Sim. Eu não blefo.
- Imagino que seja um péssimo jogador de pôquer, então.
- Nem tanto, eu sou sortudo.
- Mas e quanto a seu câncer? Se você me matar, seu câncer continuará existindo e, enfim, seu cérebro virará uma gosma cancerígena incapaz de pensar e qualquer outra coisa, enquanto você continua vivo para sempre por ter matado o próprio/a própria Morte.
- Como os imortais de Gulliver. Eu estou preparado para tudo isso.

Morte suspirou.

- Será sofrimento eterno. Olhe, por que trocar a incerteza de um Inferno pela certeza de um em vida?
- Porque eu gosto de ter certezas.
- Vá em frente, então, mate-me e mostre-me como foge de seu Destino. Espero que aproveite sua invalidez infinita após minha morte.

Abriram-se os braços de Morte como os de um mártir, como os daquele que se sacrificara em vão por toda a humanidade, e, quando o menino-adulto parecia ser apenas adulto, lá foram as balas de Pedro, buscando abrigo nos peitos de Morte. Voou longe, explodiu sangue, bateu na porta, caiu no chão.

Pedro suspirou, cansado e com dores de cabeça já infinitas. Talvez seu/sua Morte estivesse blefando e seu câncer cerebral não fosse durar para todo o sempre, junto com sua vida. Talvez houvesse uma melhora ou, ainda, fosse possível conviver com o câncer mantendo-se racional e são.

Sendo como for, era hora de dormir um pouco. Ficara tempos e mais tempos esperando Morte, preparado para se livrar de seu algoz. Agora havia de haver sono.

Dormiu.


Como Pedro conjecturava, Morte realmente blefava. O câncer não durou para sempre, já que acabou com o/a Morte de Pedro, naquela noite.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

O homem-sem-charme.

I met him in a crowded room
Where people go to drink away their gloom
He sat me down and so began
The story of a charmless man
Educated the expensive way
He knows his claret from his beaujolais
I think he’d like to have been Ronnie Kray
But then nature didn’t make him that way

He thinks he’s educated, airs those family shares
Will protect him, that we’ll respect him
He moves in circles of friends who just pretend
That they like him, he does the same to them
And when you put it all together
There’s the model of a charmless man

He knows the singers and their cavalry
Says he can get in anywhere for free
I began to go a little cross-eyed
And from this charmless man I just had to hide

He talks at speed he gets nosebleeds
He doesn’t see his days are tumbling down upon him
And yet he tries so hard to please
He’s just so keen for you to listen
But no-one’s listening
And when you put it all together there’s the model of a charmlessman


porblursobremimmaséclaroqueprecisaseabstrairbastante.

domingo, janeiro 07, 2007

Trabalhando com arte.

- Eu quero que você tire sua roupa, agora.

Prancheta na mão.

- Isso, assim. Você é linda mesmo.

Vai e vem com a caneta.

- Você pode chegar mais perto, por favor?

Rabisca, rabisca, rabisca.

- Estamos quase terminando. Linda, linda!

Ajustes finais.

- Perfeito! O texto já está pronto, pode ir pra casa que tá tarde.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

O melhor texto que já escrevi.

Ele a saudou com um beijo na boca, enquanto deslizava sua mão pelas costas, pela cintura e por aí.

- É o melhor texto que já escrevi - Ele levantou a mão com que cariciava o corpo d'Ela, e havia duas folhas de papel em sua mão.
- Uhn... E o quê vai fazer com ele? - Ela sussurrou em seu ouvido.
- Eu não sei, eu não sei! - o escritor distanciou-se um pouco sobressaltado, olhou bem para o corpo da garota a sua frente - Talvez eu não faça nada.
- Não sabe o que fazer depois de alcançar o ápice? - sorriu Ela meio ironicamente, meio brincalhona.
- Claro que sei! Eu tenho que escrever algo melhor! Mas... não dá!
- Você acabou de escrever isso.

Ele estendeu a mão e os papéis para a cara dela.

- 15/11/96? Quinze de novembro de noventa e seis? O seu melhor texto tem mais de 10 anos?
- Eu sei que é patético...
- Mas... e tudo que você escreveu até hoje? - enquanto falava, Ela passava a mão vagarosamente pelo rosto barbado d'Ele.
- Lixo.
- E por que só agora? Por que nunca me mostrou isso antes?
- Eu nunca tive coragem de assumir que eu nunca conseguirei escrever algo melhor do que essa bosta. Eu... você... Perde todo o senso de evolução, sabe?
- Ah...

Ele se distanciou mais e foi até o banheiro, com passos sussurrantes e breves.

- Olha, leia o texto enquanto eu tomo uma ducha. Você pode decidir o que fazer com ele, ou sei lá o quê.
- Tá certo - Ela lançou um olhar melancólico para ele, e então lançou um olhar melancólico para o texto, que retribuiu mostrando suas palavras de forma melancólica para Ela.

Ela terminou de ler. Bateu na porta do banheiro.

- Ei... isso é só um emanharado de palavras aleatórias misturadas! Isso não é seu melhor texto! - Toc toc toc mais nervoso - Carlos, Carlos, abre essa porta!

Ela suspirou. Ele devia estar passando por uma daquelas crises dos escritores que escrevem mais ou menos bem. Era estupidez se entristecer muito com isso, já que ele tinha uma vida boa e divertida, apesar de ter apenas habilidades suficientes para vender o suficiente para levar uma vida boa e divertida.

- Abre isso agora, Carlos.

Ela pegou uma cadeira e lançou contra a porta. A cadeira bateu e voltou, machucando-a no pé.

- Porra, abre isso!

Ia chamar os bombeiros quando o interfone tocou:

- Dona Lúcia... desce aqui embaixo... é... uma...

Ela largou o interfone e olhou pela janela. Havia algo no chão. Algos no chão, a 16 andares de distância.

Horrorizada, percebeu que eram pedaços de corpo e muito sangue.

Quando finalmente desceu e observou os pedaços de seu namorado e também cliente de sua Editora, horrorizou-se de verdade.

Havia algo escrito por quase todo o corpo do falecido escritor. Eram palavras aleatórias, misturadas na confusão do sangue por todos os lados.

Era o melhor texto da vida d'Ele. Era o melhor texto de sua morte. Seria o texto de seu epitáfio.

E este, meus caros, é o pior texto de toda a minha vida.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

A droga de toda a vida.

"Achei há dois anos, num sebo escondido numa rua suja, um livro 'interessante'. Chamava-se 'O segredo do futuro' e dizia que fora escrito originalmente por um chinês, havia milhares e milhares de anos. Um hippie doido deve tê-lo traduzido, julgando pela data da edição. Comprei, pela curiosidade e pelo preço.

O livro tratava, em sua primeira metade, sobre a existência do Futuro. Argumentava que realmente existia um caminho pré-determinado e que — após um tanto de escrito com pouco valor — havia meios verdadeiros de se ver o Futuro. Na verdade, só seria possível descobri-lo até o fim da sua vida. Eu entendo que seja difícil de entender, mas o livro diz que se você morrerá em 2032, será possível ver todo o seu futuro até essa data.

O meio mais simples apresentado por Fa Ming — suponho que seja esse o nome do autor, agora me falha à memória — para espiar o Futuro é um chá feito de diversas ervas misturadas com alguns ingredientes caríssimos e de difícil obtenção. Após ler todo o livro, decidi que a única coisa que valia era a tal receita. Arranquei as 30 páginas que tratavam da confecção desse incrível 'medicamento' e joguei todo o resto fora.

Nenhuma das ervas era alucinógena, mas quase todas eram muito raras por aqui. Por isso, tomei como uma espécie sadia de passatempo a procura pelos fantásticos ingredientes. De férias em férias, de eBay a eBay, consegui os itens, um por um. Isso tudo tomou um pouco menos de dois anos, e exatamente agora terminou minha busca. Como todas as ervas são secas e a maioria dos ingredientes imperecíveis, creio que estou preparado para a preparação.
Na verdade, escrevo enquanto a água ferve.


Ferveu. É incrível como uma receita supostamente tão incrível é tão simples. É só jogar tudo dentro... Não que eu realmente acredite na veracidade da coisa toda, mas supõe-se que o procedimento todo deveria ter algo mais de especial, de fantástico.
O resultado não é exatamente agradável: a mistura toda fede e tende para o verde-musgo, pedaços sólidos flutuam. Bem, no máximo acabo de preparar um alucinógeno poderosíssimo.


Amém."


Aqui o relato se perde. Mas reza a lenda que Ele viu, realmente, toda a sua vida, viveu todo o futuro pulsante que tinha pela frente, cada detalhe, cada segundo, cada minuto, cada década. Sentiu um fluxo tão intenso de vida que, após alguns instantes de frenesi de momentos felizes e tristes, acabou chegando no ponto inevitável de sua vida, que é a morte.

Parou o coração, acabou a droga de toda a vida.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Dois mil e sete.

Talvez dois mil e sete realmente mereça uma listinha de promessas.

Talvez a virada de ano realmente represente alguma coisa.

E por aí vai.

Sendo assim, para poder ser brega, pero no mucho, cá vai uma listinha de promessas (ou previsões) para o ano que logo vem. Espero que entendam a mensagem deste pobre que vos fala.

1 - Prometo me estressar bastante graças ao cursinho;
2- Prometo deixar completamente de lado o grêmio e, assim, decepcionar meus coleguinhas;
3- Prometo ter problemas no meu relacionamento graças ao item 1. Talvez também ao 2, quem sabe;
4- Prometo que minha gastrite piorará e melhorará diversas vezes durante o ano;
5- Prometo que jogarei menos videogame;
6- Prometo que lerei;
7- Prometo que os itens 6 e 7 terão lados bons e ruins;
8- Prometo acabar coisas que comecei neste ano e começar coisas que nunca terminarei;
9- Ou talvez não.

terça-feira, novembro 28, 2006

A fabulosa "Coletânea de Fracassos Humanos em Diálogos Interessantes para Toda a Família"!

Apresento-lhes meu mais novo projeto literário:

A fabulosa "Coletânea de Fracassos Humanos em Diálogos Interessantes para Toda a Família"!

A idéia é simples: é uma coletânea (sim, exato) de diálogos interessantes (claro, claro) que retratam o fracasso humano (como adivinhou?) para o gosto de toda a família (não necessariamente todos os membros de uma vez, lógico)!

E eu preciso da ajuda de vocês! Sim, claro, lógico.

Proponho que juntos escrevamos essa maravilhosa coletânea, que me ajudem com diálogos escritos por vocês (podendo haver um tantinho de narração, como não) e que façam com que essa maravilhosa idéia não fracasse como todos os humanos idiotas desse mundo (e eu incluo eu e você!)

E lá vai uma amostra de um diálogo, autoria d'um amigo meu e que não é um exemplo do que ocês devem escrever, já que são livres para fazerem diálogos fracassantes do modo que bem entenderem.


- Quero te bejá!
- Quêêêê?
- Isso mesmo que você entendeu - insistiu.
Fez-se silêncio, então ele viu que ela não ia falar:
- Eu te adoro - e blá blá blá.
- Mas como eu posso acreditar em você depois de todas as sua cachorradas com aquela outra?
- É porque você eu quero de verdade!
Silencio, novamente.
- Eu juro!
Mais silêncio.
- Tá, e se eu disser que não sou eu?
- Ahm? Como eu posso acreditar em você?
- Não sou eu, eu sou um amigo 'dele'.
- Olha, eu.. eu tô saindo. Tchau.
E poucos minutos depois:
- Nããããão! Ferrô como eu faço pra você acreditar em mim?

E à propósito, essas não estavam bebendo; uma já havia bebido e a outra nunca bebeu e provavelmente nunca beberá.


Ajudem-me, literatos e não-literatos! Qualquer um pode ajudar escrevendo um Diálogo Interessante para a Coletânea!

sexta-feira, novembro 24, 2006

Terminâncias.

- Claro que eu ainda tenho espaço para amigos... Para todos!
- Sim, para todos, claro, para todos, obviamente, para todos. Para todos quais, idiota? Que amigos?
- Aqueles, aqueles, aqueles!
- Nem sequer esses, nem sequer estes? Deve ser triste ter amigos tão distantes assim.
- Olha, ...
- Sim?
- Não me enche o saco, por favor.
- Agora está limitando os seus tais amigos de simplesmente encherem o seu saco, é? Prefere logo que eu não fale porra nenhuma, né?
- Me deixe em paz...
- É isso, então? ... Opa, ô chêimpion, traz uma gelada! ... Olha, sr. "eu não preciso de mais ninguém", é melhor você mudar de atitude logo, que tá enchendo o MEU saco.
- Cale a boca.
- E essa arrogância toda não vale pra nada, nada mesmo.
- Cale a boca, sério.
- Guilherme, olh'aqui, pára com isso e olh'aqui: eu queria mesmo te ajudar, beleza? Eu tentei te avisar antes, eu tento te avisar agora, eu talvez tente um pouco depois, mas mais do que isso, não dá. Tua vida se fechou, irmão.
- Foda-se.
- Tá vendo?
- Não, não estou. Eu estou aqui sentado com você, numa boa, e ocê me vem falar que eu não tenho mais espaço/tempo/o caralho a quatro pros meus amigos?
- Aí, oh. Cadê a paciência?
- Ricardo... Olha, Ricardo. Olha. Ah, vai à merda.

Guilherme se levantou sem beber seu último gole e sem esperar a nova bebida que chegava. Na verdade, saiu sem beber absolutamente nada.

E, na verdade, nem saiu de casa, antes de tudo.

A discussão não valeria a pena.

terça-feira, novembro 07, 2006

Sobre sempre.

Pequeno remarque sobre o overuso da palavra sempre.

Eu já me cansei de ouvir - moustlimente ler, na verdade - as pessoas falando - escrevendo - pra sempre, sempre, 4evah, e por aí. Não que a idéia não seja bonitinha, mas é sãti ei gigantesca mentira que me incomodo.

Rauéver, antes de falar mais a fundo, já deixo contra-argumentado o padrão dos atacados: Não, não é inveja.

Uéu, sabemos que ninguém tem controle direto sobre o futuro. Sabemos, alsou, que qualquer coisa vai, eventualmente, morrer e acabar e etc. Numa análise mais banal das coisas, o sempre sempre é interrompido pela morte, então sempre é mentir dizer sempre.

E chamar um punhado de oudi friendis com quem você nunca conversa de amigos pra sempri é pleinmente patético.

E etc's. Acho que quem concorda comigo já concorda comigo.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Dia do céquissu.

'Felizes dias do Céquissu', obviamente atrasado.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Sobre golpes falsos - verídico.

- Chamada a cobrar, para aceitá-la, continue na linha após a identificação - disse o telefone.
- Alô.
- Alô. Aqui é do corpo de bombeiros, aconteceu um acidente terrível de carro. Tem algum parente seu de carro fora de casa?
- Tenho sim. Tenho 15 - era mentira.
- 15?
- É, 15 parentes fora de casa.
- Da sua casa você tem 15?
- É.
- Então, aconteceu um acidente que envolveu 6 carros. Veja se você reconhece algum deles: corolla, vectra, corsa, astra, civic, clio e gol - eu não reconhecia.
- São 7.
- Isso, o acidente foi entre 7 carros.
- Olha, antes você tinha falado 6. Acho que você não sabe contar.
- Ah, eu não sei contar?... - ele tomou fôlego pra falar algo do tipo "Olh'aqui, eu vou matar não sei quem que eu seqüestrei", ou algo assim, mas ao invés disso:
- Tututu - disse o telefone, graças a mim.

domingo, outubro 22, 2006

Ninguém mais acredita n'Ele.

Era uma vez um homem com problemas de expressão. Ele era muito desenvoltado, muito do falador, do careteador, do expressionador. Mas era um palhaço, no fim das contas, já que só falava quando não precisava, e careteava e expressionava.

Quando realmente havia carecimento, apenas abria e fechava a boca, aflito. Mas era óbvio que não deixaria o aflitismo transparecer-se, então simplesmente abaixava a cabeça, abaixava a cabeça.

Sussurrava palavras surdas.

Ouvia palavras mudas.

"Como interpretar? Por que interpretar? O que dizer, como, como, ridículo!"

E assim passaram-se oportunidades a rodo. Sentia-se ardendo de querer poder mostrar que quer poder o tempo todo. Era muito famoso por não conseguir demonstrar o que queria poder demonstrar, e assim foi durante muito tempo, até que percebeu que as pessoas talvez já tivessem esquecido de tudo e achassem que ele estava simplesmente normal, que não havia mais ardor interno.

Faltava burburinho externo.

Faltava a água para avisar que o ar fugia blumbilhante pelo furo do pneu. "Mas qualquer um que se interessasse realmente pelo andar da carruagem perceberia muito facilmente que o pneu já está até murcho demais!", diria ele.

Talvez, talvez.

Mas ninguém liga. O pneu-menino não está incomodando, já que a carruagem está, infelizmente, parada.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Sobre ser ricardo.

Ricardo significa, em pós-grego-contemporâneo, "o detentor do segredo das esferas mais ínfimas", sendo, assim, nome tão significativo e poderoso.

Em hebraico-germânico, ricardo é "salvador das pátrias".

Em pré-hepúblico-soviético, o sentido é deveras profundo: "aquele que mantém".

Os radicais se estendem mais adiante - para trás -, chegando aos caros egípcios-pré-colombianos, para quem ricardo é, apenas, "o que não é pedro".

Apenas a título de obsevação, pedro significa "rijo como joão", em húngaro-hapocatílico.

Também nessa língua, ricardo significa "largo como uma rocha", o que conflita com a definição do aurélio-laroussiano, que diz: "ricardo - estreito como um rio".

É óbvio que pode ser uma rocha muito grande, ou um rio muito estreito, mas esses conceitos são tão antagônicos que, mesmo que façam sentidos juntos, mantêm-se em conflito.

Mas há um ricardo - sim, apenas um, ele foi escolhido pelo Criador para ser o único - que foge dessas banalizações idiotas, ignorando toda a etimologia de seu nome, assim como a riqueza histórica por trás de tudo.

Isso porque ele não se chama ricardo.

Chama-se Ricardo.
Que é anagrama de Criador.