Tem uma chaleira apitando no apartamento ao lado. Ela faz barulho forte, viril-afeminado, explosivo. Não, ainda não explode, por enquanto é só ameaça. Mas apita, puta, apita demais. Apita aguda, apita sempre, apita há um puta tempo. Trina e treme tímpano. Alguém a ignora, eu não: antes estoura a panela ou minha cabeça? Não aguento a água fervendo, não quero esse aviso nervoso. Tirem essa porra do fogo! Por favor, é só desligar e servir o chá ou preparar o café, não gastem mais gás nem meus ânimos. Podem parar.
Mas ela apita, eu não posso fazer nada. Grita tanto quanto pode e eu me encolho. Não se pode trabalhar assim. Espero que o chá fique uma merda.
segunda-feira, maio 28, 2012
sexta-feira, maio 11, 2012
Uma imagem.
Você se move como uma lagarta em minha cama, seus músculos glúteos
contraem-se num vai-e-vem; sua barriga se enrijece, se tensifica… o
beijo em nossas bocas se distribui pelo corpo inteiro, suas pernas se
movem, suas coxas se roçam e sei que agora você já está molhada, quase
pingando — mesmo —, que minha mão encontrará todo seu calor. Você estará
pronta para mim.
sábado, maio 05, 2012
terça-feira, abril 17, 2012
terça-feira, abril 10, 2012
minha irmã.
ela chegou em casa e ela me disse
"que que cê tá olhando?
que que cê tá fazendo?"
e eu gritei pra ela:
"Nada!", "eu não tô fazendo nada!"
ela me persegue
ela me pune
às vezes acho que ela não tem coração
ou que ela acha que eu sou um brinquedinho
a gente mal conversa
ela já chega gritando
aí eu fecho a janela do navegador
coloco as calças
e eu grito pra ela:
"Nada!", "eu não tô fazendo nada!"
poxa vida
caralho
"eu não tô fazendo nada!"
não me olha assim que eu me sinto pivete
"que que cê tá olhando?
que que cê tá fazendo?"
e eu gritei pra ela:
"Nada!", "eu não tô fazendo nada!"
ela me persegue
ela me pune
às vezes acho que ela não tem coração
ou que ela acha que eu sou um brinquedinho
a gente mal conversa
ela já chega gritando
aí eu fecho a janela do navegador
coloco as calças
e eu grito pra ela:
"Nada!", "eu não tô fazendo nada!"
poxa vida
caralho
"eu não tô fazendo nada!"
não me olha assim que eu me sinto pivete
domingo, abril 01, 2012
na geladeira:
mãe,
como você pediu, estou botando água nas plantas a cada três dias, à noite.
é bom porque é refrescante, durante o dia está muito quente!
a maria está ficando comigo, então pode ficar tranquila que a casa está inteira.
ontem fui procurar gelo pra botar no copo, mãe.
encontrei canequinhas com água congelada, dentro delas havia nomes.
você os odeia?
ontem bateu aqui em casa um homem barbudo.
a maria foi quem disse: "bateu em casa um homem barbudo!".
eu não tava em casa, mas ela disse: "um homem barbudo e alto e com cara de bravo".
isso lá é descrição?
ele disse, disse ela, que voltava hoje.
não sei, mãe, não gosto de visita assim.
gente que eu não conheço, alta e barbuda.
quem é ele?
ontem eu não tava em casa porque eu fui comprar espelhos novos para o interruptor.
esses últimos que você comprou são muito ruins.
não tinha mais luz na sala.
agora tem luz na sala.
também tem água nas plantas.
não tem mais nomes no congelador…
e eu espero o homem barbudo.
como você pediu, estou botando água nas plantas a cada três dias, à noite.
é bom porque é refrescante, durante o dia está muito quente!
a maria está ficando comigo, então pode ficar tranquila que a casa está inteira.
ontem fui procurar gelo pra botar no copo, mãe.
encontrei canequinhas com água congelada, dentro delas havia nomes.
você os odeia?
ontem bateu aqui em casa um homem barbudo.
a maria foi quem disse: "bateu em casa um homem barbudo!".
eu não tava em casa, mas ela disse: "um homem barbudo e alto e com cara de bravo".
isso lá é descrição?
ele disse, disse ela, que voltava hoje.
não sei, mãe, não gosto de visita assim.
gente que eu não conheço, alta e barbuda.
quem é ele?
ontem eu não tava em casa porque eu fui comprar espelhos novos para o interruptor.
esses últimos que você comprou são muito ruins.
não tinha mais luz na sala.
agora tem luz na sala.
também tem água nas plantas.
não tem mais nomes no congelador…
e eu espero o homem barbudo.
terça-feira, março 20, 2012
a verdade (a minha verdade) é que é muito difícil essa coisa de viver, isto é, essa coisa de seguir projetos, completar as tarefas — até mesmo as que você mesmo se impôs —, é difícil, é difícil demais, ainda que seja mais ou menos a única coisa que a gente possa fazer enquanto estamos vivos.
nunca abrir mão
sempre abrir mão
nunca abrir mão
sempre abrir mão
quarta-feira, março 14, 2012
terça-feira, janeiro 10, 2012
sexta-feira, novembro 25, 2011
presente
as suas meias sobre o sofá
o seu cheiro perdido em todas as coisas
(até as bolotas de cabelo no ralo)
eu entendo
a casa habitada por seus vestígios
prova de que algum dia existiu
(algo entre mim e)
você
o que eu não entendo
e eu tento
(juro que tento)
é por que você precisou ir embora
sem avisar nem nada
(simplesmente morreu)
terça-feira, novembro 08, 2011
segunda-feira, outubro 31, 2011
trecho de uma longa carta, II.
"cara amiga,
mais do que eu esperava
tão perto, tão longe
por favor, me abrace"
quarta-feira, outubro 19, 2011
sexta-feira, setembro 30, 2011
terça-feira, setembro 27, 2011
quinta-feira, setembro 22, 2011
segunda-feira, agosto 29, 2011
quarta-feira, agosto 10, 2011
Aquela noite foi 29 de fevereiro.
Estou esperando você me ligar; já nem sei quantas vezes foi desse jeito, você disse que me ligava mais tarde e aí, bem, aí você pareceu me esquecer por um tempo e, então, você ligou. Sei que vai acabar me ligando alguma hora, mas me magoa imaginar que — talvez — seja mais tarde do que eu quero, do que eu espero de você.
(agora você deve estar rindo um pouco com seus amigos ou assistindo ao fim do filme, já nem lembro a desculpa que você me deu dessa vez)
Uma parte razoável da vida se resume a isso: espera. Espero que, espero minha mãe, espero meu filho, espero o trem e, também... Elipse de um termo não é elipse de tempo. Eu continuo piscando meus olhos e balançando minhas pernas no escuro: sozinha, nua – estou de pijama, ainda assim –, imaginando se o jogo já acabou, se seus pais já falaram o que tinham que falar com você.
(o jantar está bom? seus dentes estão limpos? você ainda me ama?)
Sim, eu estou bem; não, não tem importância ficar sozinha; não tenho medo; sim, tenho medo, mas vai ficar tudo bem; até amanhã, é; não, é claro que eu; você; não; ah; tá, boa noite.
(dance à vontade, bode — berra!)
Não sei quando que as coisas começaram a ser assim, quando você conseguiu outras coisas na sua vida que não fossem eu. Você diz que sou eu que como seu tempo, talvez seja o contrário: é você quem come seu próprio tempo comigo. E aí só restam telefonemas, o resto...
(talvez você esteja mesmo na sua cama, e aí é ainda pior, porque você me trocou por uma horinha a mais de sono)
Como se eu já não te descansasse do monte de coisas que arranja pra fazer. Eu sou mais uma obrigação, só que eu posso ser deixada de lado, porque nos amamos, não é? O amor nos libera um do outro, não é?
Ontem conversei com o Caio, o Guilherme estava junto, o Pedro também, ou então Clara, Lara e Cotomara, não sei, só lembro de Lélio e Lina dançando felizes por se terem, porque aquilo sim era amor, apesar de ser outra natureza, a natureza do Miguilim e da festa do Manuelzão, fabricada, acho, as nuvens amanhã, amanhã acho que eu vou na feira, será que o Caio, você, ou o Guilherme, o Caio foi comigo? O meu irmão já saiu, acho, mas tá escuro-beterraba, a trança. Meu amor, não sei, plexo xixi, naturalmente, sabão coco-ração de porco, não gosto você me perde música, xixi sabonete xampu, xixi banheiro-cardume-de-pães, tenho que, ai, bexixiga xixixeia... Ah, merda.
Quando é assim, no meio da noite, no meio do frio, eu não sento: miro de pé — não sei se é do mesmo jeito que você, porque eu não fico tão de pé assim, e não dá pra ver direito o que acontece. E aí, se o destino estiver do jeito que parece estar, o telefone vai tocar antes de eu me secar. A calcinha molhada ou andar que nem pingüim? Alguém pode atender antes e levantar pra me chamar, aí vão me pegar no meio do caminho com as calças abaixadas, e eu não vou ter como fazer.
(você também riria de mim? está rindo de mim agora?)
Ah, é. Eu tô sozinha — você nem ligou.
sábado, julho 30, 2011
Rascunho de fábula (monólogo ingênuo)
Um ponto infinitamente adimensional se percebe em uma linha perfeitamente unidimensional em uma área plenamente bidimensional em um espaço obviamente tridimensional.
O ponto pondera pouco (a conclusão óbvia, inelutável):
"Hora de fundar a metafísica".
sexta-feira, julho 29, 2011
PALÍNDROMO pelos espaços em branco e pela arbitrariedade da linguagem
Encarar o espelho é ter certeza de todas as falhas (buracos, vazios, negativos) em minha ética, em meus olhos, nos meus ossos nus. Também é querer se jogar para o lado de lá para enxergar melhor o lado de cá, para poder ver as coisas de verdade (tudo que está fora de mim, inclusive eu).
.)ue evisulcni ,mim ed arof átse euq odut( edadrev ed sasioc sa rev redop arap ,ác ed odal o rohlem ragrexne arap ál ed odal o arap ragoj es rereuq é mébmaT .sun sosso suem son, sohlo suem me ,acité ahnim me )sovitagen, soizav, socarub( sahlaf sa sadot ed azetrec ret é ohlepse o raracnE
.)ue evisulcni ,mim ed arof átse euq odut( edadrev ed sasioc sa rev redop arap ,ác ed odal o rohlem ragrexne arap ál ed odal o arap ragoj es rereuq é mébmaT .sun sosso suem son, sohlo suem me ,acité ahnim me )sovitagen, soizav, socarub( sahlaf sa sadot ed azetrec ret é ohlepse o raracnE
segunda-feira, julho 18, 2011
terça-feira, julho 12, 2011
poeminha manco.
poeminha manco:
tropecei numa pedrinha
que entrou no meu sapato
penetrou como a espinha
de um peixe putrefato
meu pé ficou cheio de pus
perdi o tempo, o ritmo, a estrada
bati o dedão na quina da porta
escorreguei pela escada
daqui ali tem mais de um metro
ou será que um quilômetro?
não aguento nem um nanômetro
porque o momento é outro
não há tempo para o tempo
não há espaço para dançar
não há tempo para o outro
não há espaço para o momento
meu pé, caindo e roto,
me sugere que a dança
do momento e do espaço
é bater os incisivos
no asfalto
tropecei numa pedrinha
que entrou no meu sapato
penetrou como a espinha
de um peixe putrefato
meu pé ficou cheio de pus
perdi o tempo, o ritmo, a estrada
bati o dedão na quina da porta
escorreguei pela escada
daqui ali tem mais de um metro
ou será que um quilômetro?
não aguento nem um nanômetro
porque o momento é outro
não há tempo para o tempo
não há espaço para dançar
não há tempo para o outro
não há espaço para o momento
meu pé, caindo e roto,
me sugere que a dança
do momento e do espaço
é bater os incisivos
no asfalto
sábado, junho 25, 2011
sexta-feira, junho 24, 2011
segunda-feira, junho 06, 2011
celular, quase às 3 da manhã:
Eu vou esquecer o toque do seu rosto, seus seios maravilhosos, o cheiro. Não há Literatura que os salvem.
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