sexta-feira, novembro 25, 2011

presente

as suas meias sobre o sofá
o seu cheiro perdido em todas as coisas
(até as bolotas de cabelo no ralo)
eu entendo

a casa habitada por seus vestígios
prova de que algum dia existiu
(algo entre mim e)
você

o que eu não entendo
e eu tento
(juro que tento)

é por que você precisou ir embora
sem avisar nem nada
(simplesmente morreu)

segunda-feira, outubro 31, 2011

trecho de uma longa carta, II.

"cara amiga,
mais do que eu esperava
tão perto, tão longe
por favor, me abrace"

quarta-feira, outubro 19, 2011

trecho de uma longa carta

"traçar o horizonte com os corpos
morte
maravilhosa
morte"

sexta-feira, setembro 30, 2011

quinta-feira, setembro 22, 2011

direto de direita.

1. Erga a mão direita;
2. Lance-a contra o teclado;
3. Repita.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Aquela noite foi 29 de fevereiro.


Estou esperando você me ligar; já nem sei quantas vezes foi desse jeito, você disse que me ligava mais tarde e aí, bem, aí você pareceu me esquecer por um tempo e, então, você ligou. Sei que vai acabar me ligando alguma hora, mas me magoa imaginar que — talvez — seja mais tarde do que eu quero, do que eu espero de você.

(agora você deve estar rindo um pouco com seus amigos ou assistindo ao fim do filme, já nem lembro a desculpa que você me deu dessa vez)

Uma parte razoável da vida se resume a isso: espera. Espero que, espero minha mãe, espero meu filho, espero o trem e, também... Elipse de um termo não é elipse de tempo. Eu continuo piscando meus olhos e balançando minhas pernas no escuro: sozinha, nua – estou de pijama, ainda assim –, imaginando se o jogo já acabou, se seus pais já falaram o que tinham que falar com você.

(o jantar está bom? seus dentes estão limpos? você ainda me ama?)

Sim, eu estou bem; não, não tem importância ficar sozinha; não tenho medo; sim, tenho medo, mas vai ficar tudo bem; até amanhã, é; não, é claro que eu; você; não; ah; tá, boa noite.

(dance à vontade, bode — berra!)

Não sei quando que as coisas começaram a ser assim, quando você conseguiu outras coisas na sua vida que não fossem eu. Você diz que sou eu que como seu tempo, talvez seja o contrário: é você quem come seu próprio tempo comigo. E aí só restam telefonemas, o resto...

(talvez você esteja mesmo na sua cama, e aí é ainda pior, porque você me trocou por uma horinha a mais de sono)

Como se eu já não te descansasse do monte de coisas que arranja pra fazer. Eu sou mais uma obrigação, só que eu posso ser deixada de lado, porque nos amamos, não é? O amor nos libera um do outro, não é?

Ontem conversei com o Caio, o Guilherme estava junto, o Pedro também, ou então Clara, Lara e Cotomara, não sei, só lembro de Lélio e Lina dançando felizes por se terem, porque aquilo sim era amor, apesar de ser outra natureza, a natureza do Miguilim e da festa do Manuelzão, fabricada, acho, as nuvens amanhã, amanhã acho que eu vou na feira, será que o Caio, você, ou o Guilherme, o Caio foi comigo? O meu irmão já saiu, acho, mas tá escuro-beterraba, a trança. Meu amor, não sei, plexo xixi, naturalmente, sabão coco-ração de porco, não gosto você me perde música, xixi sabonete xampu, xixi banheiro-cardume-de-pães, tenho que, ai, bexixiga xixixeia... Ah, merda.

Quando é assim, no meio da noite, no meio do frio, eu não sento: miro de pé — não sei se é do mesmo jeito que você, porque eu não fico tão de pé assim, e não dá pra ver direito o que acontece. E aí, se o destino estiver do jeito que parece estar, o telefone vai tocar antes de eu me secar. A calcinha molhada ou andar que nem pingüim? Alguém pode atender antes e levantar pra me chamar, aí vão me pegar no meio do caminho com as calças abaixadas, e eu não vou ter como fazer.

(você também riria de mim? está rindo de mim agora?)

Ah, é. Eu tô sozinha — você nem ligou.



 (texto escrito em 2008)


sábado, julho 30, 2011

Rascunho de fábula (monólogo ingênuo)

Um ponto infinitamente adimensional se percebe em uma linha perfeitamente unidimensional em uma área plenamente bidimensional em um espaço obviamente tridimensional.

O ponto pondera pouco (a conclusão óbvia, inelutável):

"Hora de fundar a metafísica".

sexta-feira, julho 29, 2011

PALÍNDROMO pelos espaços em branco e pela arbitrariedade da linguagem

Encarar o espelho é ter certeza de todas as falhas (buracos, vazios, negativos) em minha ética, em meus olhos, nos meus ossos nus. Também é querer se jogar para o lado de lá para enxergar melhor o lado de cá, para poder ver as coisas de verdade (tudo que está fora de mim, inclusive eu).


.)ue evisulcni ,mim ed arof átse euq odut( edadrev ed sasioc sa rev redop arap ,ác ed odal o rohlem ragrexne arap ál ed odal o arap ragoj es rereuq é mébmaT .sun sosso suem son, sohlo suem me ,acité ahnim me )sovitagen, soizav, socarub( sahlaf sa sadot ed azetrec ret é ohlepse o raracnE

segunda-feira, julho 18, 2011

os meus,

trago-os junto ao corpo.

terça-feira, julho 12, 2011

poeminha manco.

poeminha manco:

tropecei numa pedrinha
que entrou no meu sapato
penetrou como a espinha
de um peixe putrefato

meu pé ficou cheio de pus
perdi o tempo, o ritmo, a estrada
bati o dedão na quina da porta
escorreguei pela escada

daqui ali tem mais de um metro
ou será que um quilômetro?
não aguento nem um nanômetro

porque o momento é outro
não há tempo para o tempo
não há espaço para dançar
não há tempo para o outro
não há espaço para o momento

meu pé, caindo e roto,
me sugere que a dança
do momento e do espaço
é bater os incisivos
no asfalto

sábado, junho 25, 2011

sexta-feira, junho 24, 2011

segunda-feira, junho 06, 2011

celular, quase às 3 da manhã:

Eu vou esquecer o toque do seu rosto, seus seios maravilhosos, o cheiro. Não há Literatura que os salvem.

quinta-feira, maio 26, 2011

segunda-feira, maio 23, 2011

Cena em primeira pessoa.

Com a ponta do dedo, escrevo em sua coxa a palavra TEXTO. Ficamos quietos.

sexta-feira, maio 20, 2011

o gato desengatou?

O gato está agindo de um jeito esquisito
pior que nem sei faz quanto tempo
os gatos são opacos feito paredes

Percebi hoje que ele desvia o olhar de mim
que ele não roça mais em minhas pernas
que ele não mia mais quando está com fome

O gato me encara debaixo da escada
eu não sei o que dizer
Há quanto tempo está mal, gatinho?

Talvez não esteja mal
essa mania de acharmos que tudo que é estranho é mau
talvez isto que esteja incomodando o gato

Sei que assistir tevê sem o gato não é a mesma coisa

quarta-feira, maio 18, 2011

Razões pelas quais adoro verdadeiramente o sexo.

Não vou dizer que é pelo amor, não vou dizer que é porque a natureza é bela, porque é aí que nos permitimos ser animais, ignorar a racionalidade, porque é daí que a vida vem. Essas porras nem são verdade de verdade. A verdade é que há algo no sexo que me atrai (o cheiro, o gosto, sua pele, seus calores?), talvez porque seja um abraço final, se feito com carinho; um aperto de mão perfeito, se feito às pressas – como um negócio –; o beijo mais molhado que se pode cumprir.


Sexo não se faz, cumpre-se.


Não há nada de superficial (mesmo suas peles são profundidade) no sexo.


Entendo as ressalvas políticas que se fazem em relação ao sexo. Como todo segredo universal, é mal entendido e praticado por muitos, talvez pelo véu que é posto sobre nós. Mas eu o entendo mais ou menos assim.


Desculpem pelo trote.

domingo, maio 08, 2011

uma linha.

um traço em todas as direções – de seus dedos a não-sei-mais-onde – sem a certeza de alcançar alguém, uma poética cotidiana que todos praticam… as palavras se dissipam em rede: multiplicação às cegas, divisão por zero? todos os oceanos são, hoje, letra.

daqui ao infinito (isto é: daqui a lugar algum).

quinta-feira, maio 05, 2011

O Preceptor.

Sala de reuniões de uma empresa de telefonia. Marcos, um produtor e diretor de cinema, senta-se de frente a Paulo, representante de uma pequena empresa de telefonia. Há uma pequena câmera filmadora em cima da mesa, apontada para Marcos.

PAULO
Conversei com o Sr. de la Roche e restaram algumas dúvidas em relação a seu projeto. Ele está bem escrito e apresentado, as planilhas estão todas corretas, veja bem, mas concordamos — eu e o Sr. de La Roche — que faltava... Como se diz? Faltava vida, algum brilho. O senhor... como era, mesmo?

MARCOS
Marcos Bonfim, senhor.

PAULO
Marcos Bonfim, sim. O senhor era dançarino antes, diz aqui em seu currículo.

MARCOS
Sim.

PAULO
E agora é produtor de cinema. As câmeras não o incomodam, então, não é mesmo? (Tosse.) Você deve adorar uma câmera? Você tem ombros bonitos.

MARCOS
Mmm... É, sim, senhor Paulo.

PAULO
Muito bem, hein? De dançarino a produtor e diretor de cinema! Incrível, incrível, poxa vida. (
Tosse.) Você sabe, as câmeras são para nossa segurança, nunca se sabe, não é mesmo? (Espirra.) Enfim, sobre a vida do projeto, você sabe que não estamos acostumados a atender gente pequena, se você está aqui é porque simpatizamos muito com o senhor.

MARCOS (assente com a cabeça)
Muito obrigado, senhor. Vocês... Quando pensávamos no projeto, achamos que sua marca combinava perfeitamente com nossa história, isso porque... Você sabe, o setor da telefonia e o da música, não é mesmo? E sendo um musical...

PAULO
Claro. Você dança, então?

MARCOS
Eu dançava, mas...

PAULO
Você pode dançar para mim? Isso, levante-se, por favor, sem cerimônias! Que tal... Dance, por favor, por favor. (
Marcos se balança lentamente, ensaiando movimentos de dança contemporânea, inseguro) Isso! Era isso que faltava no projeto, agora entendo muito melhor! Era essa a vida que faltava, caramba, quanta classe, que movimentos. Que movimentos! O senhor sabe mesmo se balançar muito bem. O senhor... Você se incomoda se eu o chamar de Marcos?

MARCOS (parando de dançar)
Não, senhor Paulo.

PAULO
Ora, não pare de dançar! E chega disso de senhor Paulo. (
Tosse bastante.) Pode me chamar de Paulo de Ferro, é como me chamam por aqui. Mas dance, dance! Você dança muito bem.

MARCOS (ofegante)
Obrigado, Paulo de Ferro...

PAULO
Então, Marcos Bonfim... Você sabe que gostamos muito de músicas e danças, mas realmente não estamos acostumados com projetos tão pequenos e baratos. (Tosse.) Um curta-metragem musical? Você é muito engraçado.

MARCOS (parando de dançar)
Mas... Quando pensamos em vocês... Sabemos muito bem que o dinheiro é tão pouco para vocês... E divulgaremos sua empresa na Internet...

PAULO
Por favor, continue dançando! Não queria o ofender, sua dança não tem nada de engraçada, está alegrando meu dia! Depois de você vem o
Cirque du Soleil e você não imagina como eles são sisudos e chatos. (Tosse.) O que eu vinha dizendo é que eu e o Sr. de la Roche não acreditamos na viabilidade comercial de seu filme. Marcos, Marcos Bonfim, você sabe por que está dançando?

MARCOS (para de vez de dançar)
Porque você pediu...

PAULO
Exatamente, exatamente. Você já ouviu falar na Srita. de la Roche? Por favor, sente-se!

MARCOS
Não, senhor, mas, quanto à viabilidade do projeto... Sei que a contrapartida econômica não será muito forte, mas, sendo dinheiro de isenção... Calculamos aqui que o orçamento é bem abaixo do limite de sua empresa...

PAULO
Sim, é verdade. Mas você já ouviu falar na Srita. de la Roche?

MARCOS
Não, mas imagino que seja filha do Sr. de la Roche...

PAULO
Incrível, e ainda por cima é um gênio! (
Toca o telefone.) Sinto muito, eu preciso atender. (Tosse repetidamente, nervoso.) Sr. de la Roche? Sim, tenho-o aqui. Certo... Tudo bem, então levo adiante. Ok. (Desliga o telefone.) Marcos, Marcos Bonfim, você deveria estar muito orgulhoso! O Sr. de la Roche disse que você é perfeito, que ele nunca se emocionara antes com tanta intensidade vendo alguém dançar!


MARCOS (olhando ao redor)
Muito... obrigado?

PAULO
Sim! Você... (
espirra.) Estamos muito perto de chegarmos num acordo! Marcos, você pode tirar sua roupa?

MARCOS
Não, senhor.

PAULO
Ora, senhor pra lá, senhor pra cá! Ande logo, tire sua roupa. Estávamos falando de vida, do vigor de seu projeto! O que precisamos é saber se o senhor tem a saúde boa, se é que você me entende. (Crise de tosse.) Arre, o ar dessa cidade! Vamos, tire logo tudo, fará um bem danado para seu filme! (Pigarreia.) Somos apenas eu e o Sr. de la Roche o vendo (aponta para a câmera).

MARCOS
Eu... Claro. (tira toda a roupa e cobre seu púbis com um contrato).

PAULO
Muito bem! (Pigarreia.) Agora sim estamos falando como gente grande! Sem mais mistério, sem mais mistério. Marcos Bonfim, o senhor tem um belo corpo, ah, isso sim! (Tosse terrivelmente.) Queremos que, como contrapartida, você dê umas aulas de dança para a Srita. de la Roche. Evidentemente, podemos dar mais um dinheirinho para tal, sem problemas.

MARCOS
Só isso?... Senhor... Paulo... Me parece um bom acordo.

PAULO
Ora, que bom! (
retira um lenço do bolso e assoa o nariz.) Agora, deixe-me ver esses documentos!

MARCOS
Os... documentos?

PAULO
Esses em sua mão! Jogue-os aqui.

MARCOS (Lança os papéis sobre a mesa, Paulo os ignora e continua o encarando, com um sorriso de canto a canto do rosto. Marcos olha para o chão.)
É isso?... Posso me vestir...?


PAULO
Claro que pode. Muito obrigado, Marcos Bonfim.

Marcos pega suas roupas no chão, Paulo guarda a câmera dentro de sua gaveta, sorridente.

MARCOS
Muito obrigado por tudo, Paulo de Ferro.

PAULO
Você nem imagina, você nem imagina! (
Tosse.)

sábado, abril 30, 2011

Brincando de drama.

Rob entra em casa, vestindo sua roupa de trabalho. Encontra sua mulher, Clara, sentada numa poltrona ao lado de uma barraca montada na sala de estar. Ela segura um copo de conhaque em uma mão e parece dormitar.

ROB
Bebendo às quartas? Qual é a boa?

CLARA (coloca o copo no chão, levanta-se e vai animada até Rob, abraçando-o)
Você, de volta! Eu senti tanto a sua falta, sabe? Você está tão cheiroso...

Rob larga-se dela e senta-se na poltrona.

ROB
Que exagero! Fedido, você quer dizer. Se existe estar meio-morto, é assim que eu estou. (Olha para a barraca.) Seu dia parece ter sido divertido, no entanto.

CLARA (senta-se no colo dele)
Você não imagina como! Arrumava os armários quando achei nossa tendinha, lembra?

ROB
Sim, era bom, era muito bom. Eu vou tomar um banho, agora.

Clara inclina-se sobre ele e o beija na boca.

CLARA
Por que você não entra na nossa tendinha?


ROB
Ela está arejando, não está? Você sabe muito bem que tenho cá minhas alergias.


CLARA
Sim, com certeza, mas e eu? Eu montei a barraca mesmo assim, eu me sujei toda por você. Vê meus olhos vermelhos?


ROB
Sim, e a face inchada e essa boca quase explodindo. Se eu não conhecesse suas alergias, acharia que você passou a tarde inteira chorando. Mas hoje não é um bom dia para joguinhos em uma barraca.

Rob se levanta, forçando Clara a ficar de pé. Rob começa a ir em direção ao quarto.

CLARA
Não! Espere um pouco, temos visitas!


Rob vira-se para Clara.

ROB
Numa quarta-feira?


CLARA
Você sempre me disse que todo dia é dia quando nós o queremos bem. Hoje é um dia especial.

ROB
Sim, o dia em que se toma uísque, montam-se as barracas e chamam-se as visitas. Quem vem pra cá?


CLARA
Eu estava me sentindo muito sozinha à tarde, sabe? Você não estava aqui...

ROB
Costuma acontecer quando eu trabalho, como nas quartas-feiras...


CLARA
Mas você voltou pra mim, não é? Para nossa tendinha. Chegou tarde...

ROB
Estou enfiado até a cabeça nas reuniões com os chineses, não me encha por causa disso!

CLARA
Afunda-se até a cabeça...

ROB
Só quero um banho, conversamos depois, na cama, quentinhos e tudo mais.

Clara aperta seu corpo contra o de Rob, intensamente.

CLARA
Agora, na barraca.

ROB
E a visita? Ela não vem?


CLARA
Já veio. Ajudou-me com a barraca, sujou-se comigo, também.

ROB
Ela a ajudou.

CLARA
Como ela sempre lhe ajuda.


Rob larga suas coisas no chão e se senta novamente na poltrona, derrubando acidentalmente o copo com conhaque no chão. Ele apoia a cabeça entre as mãos.

ROB (
irritado)
Quem, Clara?


CLARA
Entre e veja! Você sabe, você é bom de entender as coisas, sempre percebe tudo bem antes de mim... Vai, entre!


ROB
Você não devia beber às quartas-feiras.


CLARA
Você nunca volta para casa às quartas. O que você faz às quartas?


ROB
Os chineses, Clara, eu já lhe disse! Os malditos chineses me tomam todas as noites.

CLARA
Você chegou cedo, onde estão os chineses? Talvez seus chineses estejam aqui, não é, na nossa tendinha?


ROB
Você delira, arre! Você mesma disse que  eu cheguei tarde! Arre, Clara, arre, deixe de maluquice e de conhaque, você parece um...

Clara pula novamente em seu colo, beijando seu pescoço.

CLARA
Você não está cheirando a reunião com os chineses! A reunião foi cancelada, não foi? Ela não respondeu suas mensagens e você veio direto para casa, pra mim, para a substituta. Mas eles também vieram pra cá, pra nossa reunião! Vamos, entre!

ROB
Entro, porque não há chinês algum, tudo bem, joguemos o seu jogo infantil!

Rob se levanta, retirando Clara rudemente de seu colo. Vai em direção à barraca.


CLARA
Se você entrar nessa barraca, é nosso fim.


Rob entra na barraca.

segunda-feira, abril 25, 2011

prova de xilo: lara ao parapeito.

retratos

em suas mais variadas formas
em suas mais variadas
em suas

terça-feira, abril 19, 2011

COVEIROS.

PERSONAGENS

PRIMEIRO PROFESSOR, chefe da área de português da escola.
SEGUNDO PROFESSOR, recém-contratado da área de português.
GUSTAVO, 14 anos, aluno exemplar, filho de deputado.
HENRIQUE, 13 anos, aluno e braço direito de Gustavo.


CENA

Sala dos professores, grande montanha de papéis sobre as mesas.

Dois professores entram com mais papéis nas mãos e se jogam sobre as cadeiras, com canetões vermelhos nas mãos, rabiscando com ênfase os papéis.

PRIMEIRO PROFESSOR
Acha justo que um aluno seja reprovado por copiar as respostas de outro?

SEGUNDO PROFESSOR
Creio que sim, está no regulamento, não está? Se os diretores decidiram assim, a questão não está mais em nossas mãos.

PRIMEIRO PROFESSOR
Não devia ser o outro, o que deu as respostas, também punido?

SEGUNDO PROFESSOR
Não se ele o houver feito por compaixão? Se o coração está leve...

PRIMEIRO PROFESSOR
Mas está aí, justamente, o problema! Como alguém pode fazê-lo de mente limpa? Ajudar um crime, torná-lo possível, é pior do que cometê-lo de fato. Se alguém dá a faca e o queijo para outra pessoa, é certo que esta outra cortará, com a faca, o queijo.

SEGUNDO PROFESSOR
Não podemos punir nosso melhor aluno, está na ata da reunião de ontem. A culpa é do burro que aceitou a cola.

PRIMEIRO PROFESSOR
Que parvice!

SEGUNDO PROFESSOR
Na verdade, se quer saber... Se ele não fosse filho de político, levava uma boa reprovação na testa.

PRIMEIRO PROFESSOR
Arre, mas esse é o absurdo! Um professor… O importante são as notas, o importante é a conduta! Não há nada menos importante para um professor do que o pai de um aluno. Veja esse monte de lixo, essas respostas incoerentes… Temos que poder corrigi-las, riscá-las, puni-las!

SEGUNDO PROFESSOR
Certo, certo, muito certo.

PRIMEIRO PROFESSOR
Pois, como é que se deve punir bem um aluno?

SEGUNDO PROFESSOR
Reprovando-o?

PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, parvo, mas não só isso! Saiu-se com a resposta mais simplória que pensou, isso vale no máximo um meio certo.

SEGUNDO PROFESSOR
'Como é que se deve punir bem um aluno'?

PRIMEIRO PROFESSOR
Foi o que lhe perguntei.

SEGUNDO PROFESSOR
Não sei, peço água.

PRIMEIRO PROFESSOR
Ah, água? É mesmo um imbecil. Mas não pense demais no assunto para não fritar essa cabeça enorme! A boa punição é social, parte por todas as camadas da vida do cabritinho, faz com que ele se arrependa de sua preguiça, burrice – o que quer que seja – com cada pelinho de seu corpo. Como fazer isso? Vai, busca um café para mim e sua tal água, e pense bem no assunto! (Sai o segundo professor.)

Vêem-se Gustavo e Henrique aproximando-se à porta da sala

PRIMEIRO PROFESSOR (Corrige as provas ferozmente e cantarola.)

Tu és tolo, tu és tolo como porta.
Se eu te digo: tu saíste a teu pai
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu saíste mesmo, mesmo a teu pai

GUSTAVO
Como ele canta assim, corrigindo provas como se lavasse o chão?

HENRIQUE
Talvez lavar o chão e corrigir nossa concordância seja a mesma coisa pra alguém que passa os dias fazendo isso.

GUSTAVO
A repetição só esvazia, a repetição só esvazia.


PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)

Não te escondas, não te escondas de teus erros.
Se eu te digo que errar é coisa humana,
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu és humano, mesmo, mesmo, por inteiro

(Amassa uma prova e joga em direção à porta.)

GUSTAVO
Essa prova jogada ao chão foi de um aluno que colocou todas as suas forças, estudou três semanas, negou todos os compromissos, perdeu um pouco de sua própria vida! Foi assim, não foi?

HENRIQUE
Acho que sim, cara.

GUSTAVO
Ou então, de um que nunca tivera problemas antes, que se sentou para a prova-final insuspeito, e agora... Agora sua prova está no chão, agora deve passar mais um ano chafurdando na bosta!

HENRIQUE
Bem provável.

GUSTAVO
É isso, então é isso mesmo, e agora é lixo!

PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)
Errado, errado e errado.
Errado, errado, errado, errado!
Tudo que tu tens feito
é errar ao quadrado!
(Arremessa outra prova)

GUSTAVO
Eis outra. Poderia ser de qualquer um de nós. (
Pega a prova amassada.) Como brincam com nossa juventude, marcam com machados nossa vida, esquecem que já somos pessoas! Este papel amassado significa nosso fracasso social, não?

HENRIQUE
É.

GUSTAVO
Não tem medo de ser essa prova tua caveira?

HENRIQUE
Já sabia que não me daria bem, cara.

GUSTAVO
É esse tipo de atitude que permite que nos esmaguem. Vou lá ter com ele. (
Adianta-se.) De quem são essas provas?

PRIMEIRO PROFESSOR (sem tirar os olhos das provas)
Minhas, ora.
Não, não, não,
parece que fizeste um errão!

GUSTAVO
Não são suas, ainda que as trate como tal.

PRIMEIRO PROFESSOR
Espero que não sejam suas, então, pois que a coisa aqui é podre.

GUSTAVO
Percebo bem a podridão. Muitos reprovados?

PRIMEIRO PROFESSOR
Poucos, infelizmente. Muitos me escapam pelas frestas dos dedos.

GUSTAVO
Escapam como?

PRIMEIRO PROFESSOR
De toda forma, por sorte, por cola, mas alguns, mesmo, apenas porque têm pais que os protegem.

GUSTAVO
Como pode um pai proteger o filho da reprovação?

PRIMEIRO PROFESSOR
É justamente o que eu pergunto. A sombra de um pai poderoso assusta o povo lá de cima, como se a má índole de uma criança pudesse ser justificada pelo emprego do pai.

GUSTAVO
Deixá-lo-ão impune, portanto?

PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, às custas do pobre asno que aceitou sua ajuda. Mas todos terão sua vez, minha caneta é justa. (
Amassa uma prova e joga em direção a Gustavo.) Veja se isso é possível!

GUSTAVO
Deixe-me ver (
pega a prova). “Casmurro traiu sim a Capitolina dá pra ver logo no começo da história porque ele é sério e isso significa culpa”. De quem é essa afronta?

PRIMEIRO PROFESSOR
De um imbecil, o que acha?

GUSTAVO
Não adianta perguntar, eu não sei.

PRIMEIRO PROFESSOR
Este enorme imbecil, esta anta completa, se não a reconhece, é um tal de João não sei das quantas, garoto-problema, repetente, uma vergonha.


GUSTAVO
Ora, como ele pode falar assim? Estamos todos sujeitos ao erro, mesmo João, taciturno, com as mãos metidas nos bolsos do moletom… Somos gente! Se na grafia identifica a ignorância, devia corrigi-la, e não puni-la! Oh, João, pobre tolo, pobre tolo. Diga-me, Henrique…

HENRIQUE
Digo. O quê?

GUSTAVO
Estamos sozinhos com nossos erros, todos?

HENRIQUE
Sim, parece que sim.

GUSTAVO
E seremos punidos assim?

HENRIQUE
Uns mais, outros menos.

GUSTAVO
Como somos fracos, Henrique! Se estamos sujeitos à queda, se mesmo Napoleão caiu de seu cavalo, como podemos continuar? As provas estão por toda parte, os juízes estão sempre prestes a entrar em cena e nos esmagar. A partida é perdida, sempre. Mas quieto, quieto – lá vem os diretores com o pobre asno que mandei à forca. Escondemo-nos!

(Saem.)

sábado, abril 16, 2011

conto de celular (:

Surpreendo um gnomo me espiando enquanto me dispo. Sorrio e pergunto se ele quer massagear as minhas costas. Excitadíssimo, ele goza no chão instantaneamente e explode numa fumaça roxa.

segunda-feira, abril 11, 2011

sábado, abril 09, 2011

1, 2, 3, 4

dansa dansa dansa
corpo corpo corpo
chão chão chão

dansa corpo chão
no chão
o corpo
dansa

quarta-feira, abril 06, 2011

João Paulo Segundo.

P. Ah, escrever, escrever é viver, viver é escrever! Onde deito minha pena, os deleites deleitam e amamentam um mundo outro de posturas e possibilidades! Ah, mas quem vem aí?
J. Olá? Quem está à luz de velas?
P. (curvando-se sobre os papéis) Oh, parece-me que... João! Bom lhe ver aqui, amigo meu!
J. Ah, Paulo, que agradável surpresa. Que faz?
P. Não lhe interessa de verdade, coisas de um mundo outro.
J. É mesmo? Pois acabo de retornar de uma corrida no parque e mal sabe o que me aconteceu.
P. Não o sei, mesmo...
J. Pois...
P. Pois?
J. Pois que enquanto eu corria... Ora, conto-lhe, ainda que seu orgulho me esconda tudo! Estava eu correndo quando vi uma moça, veja bem, uma moça com as pernas de fora...
P. Fato bastante incomum nesses dias ensolarados.
J. Caída no chão, veja bem, as pernas descobertas pelo short e uma poça de sangue a seu lado!
P. E por quê?
J. Ora, me diga você! Por quê?
P. (desinclina-se de sobre os papéis, pondera com a caneta na mão) Oh, mundo, mundo, cruel mundo! Foi ela engolida por um automóvel?
J. Nada, nada!
P. Pois então que foi alvejada pela faca de um assaltante, ou, numa crise convulsa, caiu-se no chão, afetada pelos humores e amores de nosso tempo... Uma Werther de sua própria consciência, vertendo-lhe a alma o acesso nervoso súbito.
J. Lindo, lindo, porém falso, oh, muito falso!
P. Então o quê? Atiraram-lhe uma pedra, Madalena moderna sem Cristo a defendê-la?
J. Jesus que me livre, também não o foi.
P. Então o quê?
J. Que faz aí?
P. Eu?
J. Sim, você, ora, é claro!
P. Confabulo sobre a causa da queda da moça de shorts curtos, você bem o sabe.
J. E debaixo de seu braço, escondido o papel?... Escreve?
P. Ora, de que importa!
J. Tenho quase certeza que o ouvi louvando qualquer coisa. Passou a acreditar em Deus?
P. Sim, sempre acreditei com toda a força de meus cabelos.
J. Não use sua calvície como rota de fuga irônica! Escreve ou não escreve?
P. Escrevo.
J. Então bote aí, Paulo de Medeia, firule bem sua caligrafia: a moça dos shorts curtos não existe e você é um tolo.
P. (levanta-se, apontando a caneta ameaçadoramente para João) Quem, eu ou você?
J. Arre, reage rápido e infantil. Vá a merda, que vou ao mercado comprar queijo.
P. Passe bem, sofista!
J. Passe à merda, passe à merda!

terça-feira, abril 05, 2011

João Paulo.

J. O que é que você está fazendo aí?
P. Oh! Se eu lhe dissesse, se eu lhe dissesse...
J. O quê, mas o quê? O que esconde aí, debaixo dos braços, olhos desconfiados?
P. Meu amigo, meu companheiro, não posso lho dizer! Se o fizesse...
J. O que é, diga, diga!
P. Você já o pressente.
J. Não, o quê?
P. Se eu lhe dissesse...
J. Chega de se repetir, pelo amor de Deus.
P. Sim, concordo; por que quer saber?
J. Porque você esconde.
P. Por que eu escondo?
J. Como eu vou saber?
P. Vai saber.
J. Vou?
P. Vai, oh, claro que vai!
J. Então o quê? O que você está fazendo aí?
P. Por Deus, chega de se repetir!
J. Está vendo? É você! Você, que não quer me dar nada, só costura com as palavras.
P. Não costuro nada, como é cego.
J. Então...
P. Então?
J. Passar bem.
P. Passemos. Adeus!

segunda-feira, abril 04, 2011

sem título, abril de 2011.

níveis de realidade
corpo no caminho
abraços inevitáveis

quarta-feira, março 30, 2011

novela - parte 1

"Não queria que parecesse que eu estou querendo chamar atenção demais e eu mesmo acho um pouco imbecil fazer isso aqui, mas pensando bem – não tive tanto tempo assim pra pensar – achei que valeria a pena. Não vou escrever mais pra não soar mais melodramático ainda.

Estou com câncer. No intestino, principalmente, mas no fígado, no sangue, em tudo, mais ou menos. Acho que vocês entendem o que eu quero dizer.

Se vocês tiverem qualquer coisa pra resolver comigo, acho que é agora ou nunca. Não queria fazer um anúncio público, assim, virar fofoca grande num só segundo, mas é melhor do que virar fofoca pequena recheada de remorso das pessoas pra quem eu teria coragem de contar. Enfim, se tiverem o que dizer, me liguem.

Mas só se for alguma coisa de verdade. Não tô muito bem do humor".

Ele publicou a mensagem antes que desistisse. Reclinou-se com a cadeira, passou a encarar os volumes de Marcel Proust. O maior problema de morrer vai ser deixar isso tudo sem acabar, não os livros chatos do proust, mas tanta coisa indefinida, tanto chão que poderia ter sido mas não foi.

Ele já havia tido tempo para racionalizar as coisas e já inventava que seu medo não era da morte em si, mas de suas consequências. Porque a morte, não é mesmo? Recebeu uma mensagem no celular – "Sério?" "Sim, um café?" "Eu tô no trabalho" "Tudo bem, eu aguento até às dezenove" "é" "na sumaré, então?" "Sim." "Ok" – ele já sabia que seu irmão seria o primeiro a reagir abertamente à notícia, embora seus dois colegas aleatórios que curtiram seu status no facebook o deixassem um pouco mindfucked.

Deu tempo para um banho.

Mas eles curtiam o quê?

Outra mensagem no celular: "sério?", de um número desconhecido. Sério. Ele se vestiu, assegurou-se que estava com tudo que precisava e saiu. Assim que fechou atrás de si o portão do prédio, percebeu que não havia ninguém lá esperando-o sair do prédio, e mesmo as pessoas na rua o ignoravam ou o notavam como sempre. A Internet ainda não havia engolido todo o mundo, mas ele sabia que na faculdade seria diferente e que, de um jeito ou de outro, reconheceriam nele o condenado precoce que era.

Chega de exagerar tudo, e então, numa só caminhada, chegou ao café na Sumaré e se sentou do lado de fora, à espera do irmão. Pediu um expresso, acendeu um cigarro e se afundou na cadeira, observando a rua. Viu uma antiga colega do fundamental passando – muito feia, aliás, e um tanto burra – e riu de verdade, para fora. Mas ele se corrigiu logo, achando que podia estar fazendo o gênero risonho auto-irônico, maluquinho na depressão. Nada disso.

— Fumando?
— Sempre um gênio da observação, o senhor.
— Obrigado. Posso?
— Claro – oferece o cigarro e o assento – à vontade.

Ocuparam-se de acender o cigarro em dupla.

— Mas é verdade, mesmo?
— Mais verdade do que eu mesmo.