terça-feira, abril 19, 2011

COVEIROS.

PERSONAGENS

PRIMEIRO PROFESSOR, chefe da área de português da escola.
SEGUNDO PROFESSOR, recém-contratado da área de português.
GUSTAVO, 14 anos, aluno exemplar, filho de deputado.
HENRIQUE, 13 anos, aluno e braço direito de Gustavo.


CENA

Sala dos professores, grande montanha de papéis sobre as mesas.

Dois professores entram com mais papéis nas mãos e se jogam sobre as cadeiras, com canetões vermelhos nas mãos, rabiscando com ênfase os papéis.

PRIMEIRO PROFESSOR
Acha justo que um aluno seja reprovado por copiar as respostas de outro?

SEGUNDO PROFESSOR
Creio que sim, está no regulamento, não está? Se os diretores decidiram assim, a questão não está mais em nossas mãos.

PRIMEIRO PROFESSOR
Não devia ser o outro, o que deu as respostas, também punido?

SEGUNDO PROFESSOR
Não se ele o houver feito por compaixão? Se o coração está leve...

PRIMEIRO PROFESSOR
Mas está aí, justamente, o problema! Como alguém pode fazê-lo de mente limpa? Ajudar um crime, torná-lo possível, é pior do que cometê-lo de fato. Se alguém dá a faca e o queijo para outra pessoa, é certo que esta outra cortará, com a faca, o queijo.

SEGUNDO PROFESSOR
Não podemos punir nosso melhor aluno, está na ata da reunião de ontem. A culpa é do burro que aceitou a cola.

PRIMEIRO PROFESSOR
Que parvice!

SEGUNDO PROFESSOR
Na verdade, se quer saber... Se ele não fosse filho de político, levava uma boa reprovação na testa.

PRIMEIRO PROFESSOR
Arre, mas esse é o absurdo! Um professor… O importante são as notas, o importante é a conduta! Não há nada menos importante para um professor do que o pai de um aluno. Veja esse monte de lixo, essas respostas incoerentes… Temos que poder corrigi-las, riscá-las, puni-las!

SEGUNDO PROFESSOR
Certo, certo, muito certo.

PRIMEIRO PROFESSOR
Pois, como é que se deve punir bem um aluno?

SEGUNDO PROFESSOR
Reprovando-o?

PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, parvo, mas não só isso! Saiu-se com a resposta mais simplória que pensou, isso vale no máximo um meio certo.

SEGUNDO PROFESSOR
'Como é que se deve punir bem um aluno'?

PRIMEIRO PROFESSOR
Foi o que lhe perguntei.

SEGUNDO PROFESSOR
Não sei, peço água.

PRIMEIRO PROFESSOR
Ah, água? É mesmo um imbecil. Mas não pense demais no assunto para não fritar essa cabeça enorme! A boa punição é social, parte por todas as camadas da vida do cabritinho, faz com que ele se arrependa de sua preguiça, burrice – o que quer que seja – com cada pelinho de seu corpo. Como fazer isso? Vai, busca um café para mim e sua tal água, e pense bem no assunto! (Sai o segundo professor.)

Vêem-se Gustavo e Henrique aproximando-se à porta da sala

PRIMEIRO PROFESSOR (Corrige as provas ferozmente e cantarola.)

Tu és tolo, tu és tolo como porta.
Se eu te digo: tu saíste a teu pai
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu saíste mesmo, mesmo a teu pai

GUSTAVO
Como ele canta assim, corrigindo provas como se lavasse o chão?

HENRIQUE
Talvez lavar o chão e corrigir nossa concordância seja a mesma coisa pra alguém que passa os dias fazendo isso.

GUSTAVO
A repetição só esvazia, a repetição só esvazia.


PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)

Não te escondas, não te escondas de teus erros.
Se eu te digo que errar é coisa humana,
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu és humano, mesmo, mesmo, por inteiro

(Amassa uma prova e joga em direção à porta.)

GUSTAVO
Essa prova jogada ao chão foi de um aluno que colocou todas as suas forças, estudou três semanas, negou todos os compromissos, perdeu um pouco de sua própria vida! Foi assim, não foi?

HENRIQUE
Acho que sim, cara.

GUSTAVO
Ou então, de um que nunca tivera problemas antes, que se sentou para a prova-final insuspeito, e agora... Agora sua prova está no chão, agora deve passar mais um ano chafurdando na bosta!

HENRIQUE
Bem provável.

GUSTAVO
É isso, então é isso mesmo, e agora é lixo!

PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)
Errado, errado e errado.
Errado, errado, errado, errado!
Tudo que tu tens feito
é errar ao quadrado!
(Arremessa outra prova)

GUSTAVO
Eis outra. Poderia ser de qualquer um de nós. (
Pega a prova amassada.) Como brincam com nossa juventude, marcam com machados nossa vida, esquecem que já somos pessoas! Este papel amassado significa nosso fracasso social, não?

HENRIQUE
É.

GUSTAVO
Não tem medo de ser essa prova tua caveira?

HENRIQUE
Já sabia que não me daria bem, cara.

GUSTAVO
É esse tipo de atitude que permite que nos esmaguem. Vou lá ter com ele. (
Adianta-se.) De quem são essas provas?

PRIMEIRO PROFESSOR (sem tirar os olhos das provas)
Minhas, ora.
Não, não, não,
parece que fizeste um errão!

GUSTAVO
Não são suas, ainda que as trate como tal.

PRIMEIRO PROFESSOR
Espero que não sejam suas, então, pois que a coisa aqui é podre.

GUSTAVO
Percebo bem a podridão. Muitos reprovados?

PRIMEIRO PROFESSOR
Poucos, infelizmente. Muitos me escapam pelas frestas dos dedos.

GUSTAVO
Escapam como?

PRIMEIRO PROFESSOR
De toda forma, por sorte, por cola, mas alguns, mesmo, apenas porque têm pais que os protegem.

GUSTAVO
Como pode um pai proteger o filho da reprovação?

PRIMEIRO PROFESSOR
É justamente o que eu pergunto. A sombra de um pai poderoso assusta o povo lá de cima, como se a má índole de uma criança pudesse ser justificada pelo emprego do pai.

GUSTAVO
Deixá-lo-ão impune, portanto?

PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, às custas do pobre asno que aceitou sua ajuda. Mas todos terão sua vez, minha caneta é justa. (
Amassa uma prova e joga em direção a Gustavo.) Veja se isso é possível!

GUSTAVO
Deixe-me ver (
pega a prova). “Casmurro traiu sim a Capitolina dá pra ver logo no começo da história porque ele é sério e isso significa culpa”. De quem é essa afronta?

PRIMEIRO PROFESSOR
De um imbecil, o que acha?

GUSTAVO
Não adianta perguntar, eu não sei.

PRIMEIRO PROFESSOR
Este enorme imbecil, esta anta completa, se não a reconhece, é um tal de João não sei das quantas, garoto-problema, repetente, uma vergonha.


GUSTAVO
Ora, como ele pode falar assim? Estamos todos sujeitos ao erro, mesmo João, taciturno, com as mãos metidas nos bolsos do moletom… Somos gente! Se na grafia identifica a ignorância, devia corrigi-la, e não puni-la! Oh, João, pobre tolo, pobre tolo. Diga-me, Henrique…

HENRIQUE
Digo. O quê?

GUSTAVO
Estamos sozinhos com nossos erros, todos?

HENRIQUE
Sim, parece que sim.

GUSTAVO
E seremos punidos assim?

HENRIQUE
Uns mais, outros menos.

GUSTAVO
Como somos fracos, Henrique! Se estamos sujeitos à queda, se mesmo Napoleão caiu de seu cavalo, como podemos continuar? As provas estão por toda parte, os juízes estão sempre prestes a entrar em cena e nos esmagar. A partida é perdida, sempre. Mas quieto, quieto – lá vem os diretores com o pobre asno que mandei à forca. Escondemo-nos!

(Saem.)

2 comentários:

  1. Texto enorme, enfadonho, verborrágico, despedida.

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  2. Ora, que este saiu bem à cara de tua fuça.

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