domingo, fevereiro 20, 2011

Progressivo.

texto recuperado de 19/04/07 – havia sido semiapagado por motivos que me escapam

Há algum tempo, o jovem cientista, vestido em seu novíssimo jaleco branco e com um sorriso triunfante no rosto, falou ao povo:
– Eu sou o Progresso! Represento o avanço da Humanidade! Garanto que transformarei nossa sociedade em algo melhor!
O operário aplaudiu, abaixou a cabeça e voltou ao trabalho corriqueiro. O cientista, ao cessar dos aplausos, virou as costas para o povo e trancafiou-se em seu laboratório.
Neste meio tempo surgiram a eletricidade, os carros motorizados, as linhas de produção, a especialização do trabalho, a jornada de catorze horas, as melhorias na medicina, a jornada de dez horas, as máquinas que ajudavam, as máquinas que tiravam os empregos, as armas automáticas, o avião, as bombas, as sementes selecionadas, todo tipo de combustível dando energia, todo tipo de combustível destruindo a terra, a bomba atômica, os agentes químicos, mais avanços na medicina, carros mais velozes, robôs ajudando, robôs roubando empregos, fastfood, nofood, manipulações genéticas, plantas transgênicas, clonagem, bomba Y, nanorobôs curando, carros mais velozes, comida em pílulas, a Grande Guerra, os montadores montavam. O minerador minerava, o ferreiro martelava e o operário suava.
Porém, quando o operário voltava para casa após um árduo dia de trabalho, muito desgastado e cansado, andando vagarosamente pelas ruínas de seu antigo bairro, avistou com o olhar pesado uma pessoa vestida de branco no topo do que fora um prédio. Assustado, começou a escalar as paredes que outrora estiveram na vertical, mas que agora eram apenas rampas muito declinadas, apoiando-se nas rachaduras, galgando, insistentemente, a montanha de concreto até o topo.
Aproximou-se do jovem vestido com jaleco branco com cuidado. Arfava, pois já era velho e alquebrado, enquanto o outro estava na flor da juventude, talvez o único naquele mundo que ainda possuía roupas limpas.
– Quem és tu?– disse o operário – Quem és tu que observas a nossa destruição?
O jovem, que até então olhava para o outro lado, virou-se e fitou curioso o rosto do operário. Como se notasse algo no semblante do velho, abriu um sorriso, ergueu as mãos e gritou:
– Eu sou o Progresso! Represento o avanço da Humanidade! Garanto que transformarei nossa sociedade em algo melhor!
O operário aplaudiu, abaixou a cabeça e começou a ir embora. O cientista, ao cessar dos aplausos, virou as costas para o outro e trancafiou-se em si mesmo.
Então, também como se notasse algo, o operário parou seu andar conformado, deu meia-volta e observou a maravilhosa figura do cientista; notou que era o cientista de outrora, que era exatamente o mesmo, que traria cada vez mais progresso. O operário, então, correu até o cientista e o empurrou de cima do prédio. Embora a altura não fosse sequer metade da que o colosso apresentara quando ainda dominava os céus, foi suficiente para manchar o jaleco de vermelho e acabar com seu sorriso.
– Dorme bem agora, Progresso, pois tu nunca trouxeste nada de bom para mim.

18 comentários:

  1. Mais ou menos um Vinicius de Moraes na sua faceta política.

    Isto é, um Vinicius de Moraes em prosa. E de conteúdo.

    Adorei!

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  2. É mesmo.Nem me lembrava desse fato.

    Parece um tanto deslocado.

    Mudo?

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  3. otimo texto...gostei mesmo...primeira visita no blog...
    parabens!

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  4. Não acho que seus textos sejam melhores que você.
    E seus textos são realmente bons.

    Ignorando o Caramba! Eu já tinha lido isso aqui anteees do anônimo ali comentar.

    Só que o texto tá legal demais pra um comentário simples que eu faria com a minha criatividade no momento.

    Humpf.

    Ah.Sabe que,pelo entuito que eu tinha na hora que fiz, você entendeu.
    É só que depois as pessoas vieram falar que tinha significados nas entrelinhas e até eu fiquei meio-confusa.

    xD

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  5. Meus textos não são melhores do que eu, mas são o que interessa aqui no blog :D

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  6. Uou. O jeito que você escreve é realmente foda. Talento é talento e o resto é resto.
    Parabéns!

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  7. Hmm...

    Bem diferente.

    Prefiro esse, mas gosto mais dos com menos palavras.

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  8. É que eu estou aprendendo a escrever, alce, então estou no período nem tão grande, nem tão pequeno.

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  9. Eu gosto de textos grandes.^^


    Ok, obrigado por falar com a nossa central de atendimento para críticas sobre o que gostamos, mas temo que não concordaremos com você.

    Ta...só com uma coisa que eu concordo:Aquele site é muitoooo Paulo Coelho.-.-"

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  10. esse é o mais social ate hoje.

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  11. grande, grande texto!

    o primeiro que, de fato, merece as maiores congratulações!

    parabéns.

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  12. Tá vendo? Igualzinho àquela coisa toda do tetris e da união soviética!

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  13. Sim, e é por isso que esse texto é uma bosta.

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  14. nossa. comecei a ler e ai vi que eu lembrava, faz tempo.

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  15. ...uma bosta, ao contrário do vídeo do tetris e da URSS.

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