sábado, fevereiro 12, 2011

Que coisa!

Não sei se era um ônibus ou um barco ou até um cais, estávamos nós em cima dele e de repente era a hora de descer e um colega se jogou na água e foi nadando até o navio-catamarã cruzeiro e eu fui correndo pela ponte de acesso, mesmo. Quando percebi que no outro navio só havia gente pelada e, consequentemente, era um navio-catamarã para gente pelada, me arrependi profundamente de ter subido lá, ainda mais porque o irmão de minha namorada estava conosco e sempre primei por não sair balançando meu pinto na frente de familiares adquiridos. Evita-se muita confusão. Sendo assim, começamos de novo:

É um navio que também é uma mansão numa rua que só deve existir na minha cabeça, não há mais traço de gente conhecida – ufa! pipi a salvo –, mas uns rostos repetidos ficam em minha cabeça: uma ruiva novinha com seus pais e um irmão; uma de cabelos escuros encaracolados, óculos de aro grosso, testa um pouco grande, cara de brava, bonita; um cara muito alto que lembrava vagamente um colega da época do ensino fundamental, com um jeito meio besta; outros jovens menos marcantes e com papel menos marcante etc.

Não sei direito o que acontecia, algumas pessoas insistiam em ficar peladas, eu mesmo provavelmente estava vestido, sei que era tudo muito maluco. As pessoas se comportavam de um jeito esquisito demais. Agora, que penso melhor no que contar, percebo que esqueci o final. Merda merdinha merdão! E tudo fora de ordem!

Estávamos na rua e vi a ruivinha comendo com seus parentes dentro de um apartamento – pensei como era bonitinha e novinha e como seus parentes eram repugnantes, seu pai gordo e sua mãe com um sorriso enorme. E a menina tão caladinha! Tinha um cara com uma arma, e de algum jeito eu o desarmei, então ele tinha uma mala cheia de outras armas e os caras – entre eles o alto com cara de boçal – começaram a brincar de atirar nas outras pessoas, que morriam na hora. Num átimo, era eu o alvo e eu fugia e corria e foi aí, acho, que percebi que tinha um controle maior sobre a situação do que eles. Não sei direito porque isso tudo acontecia fora do barco-mansão, mas era dentro ao mesmo tempo, também.

Um cara tinha um carrinho de doces e tentou me vender alguma coisa, uma bala ou um bombom, eu disse que não tinha dinheiro, mostrei minha mão vazia, mas aí eu imaginei – com a mão fechada – e a abri e tinha algumas moedas de 5 centavos. "Eu posso fazer o que eu bem entender", mas também não havia controle absoluto, mas pensei mais e apareceram moedas de 25 centavos e, com um pouco mais de esforço, moedas de 100 reais, azuizinhas surreais. Mmm... Corta!

Então de volta à mansão e ainda existia alguma rivalidade entre eu e os moleques que tentaram atirar em mim, o cara alto tinha uma espécie de lança enorme de gigante, vermelha, meio molenga que nem bambu, mas nas 2 pontas tinha como 3 lâminas – quem conhece armas brancas vai entender – e eu tinha que lutar contra ele e me deram uma lança igual e era muito difícil de usar, mas ele veio tentar me acertar e errou e eu fiz a lança cortar os ares horizontais e uma das lâminas fincou na roupa dele e o derrubei no chão assim e ganhei dele.

Aí fica mais complicado, porque já sumiu quase tudo e é incrível que, ao mesmo tempo que eu tinha consciência dentro do sonho que era um sonho eu tipo não me tocava que era DE FATO um sonho e que eu estava dormindo, mas tinha pessoas andando pelos corredores – que na verdade eram mais como um mezanino gigante, com um buracão tipo a bienal – dançando e cantando e sei lá mais o quê, e aí não lembro se era a moça dos cabelos escuros encaracolados ou a ruivinha, mas eu fiz com que ela tirasse as roupas, mas era como com as moedas, eu fechava os olhos e quando abria ela tinha tirado mais da roupa e ia tirando de um jeito sensualizador e vulgar, não sei – juro que não sei mesmo! – se rolou alguma coisa, mas pensando assim retrospectivamente, que trash.

E aí, no fim, tinha uma construção-instalação lá embaixo – agora tenho certeza de que era a bienal – que tinha umas paredes baixinhas com coisas de exposição escritas nelas, e tinha valetas em frente às paredes e as pessoas cabiam inteiras lá embaixo, mas tinham meio que se agachar pra ler alguma coisa escondida lá. Vendo lá de cima, parecia que as pessoas sumiam no chão, era interessantemente bizarro. Aí eu desci lá para ver e saíram da construção umas pessoas vestidas com roupas engraçadas, tipo de filme, meio de culto, mas algumas peladas, e elas dançavam alguma coisa que não lembro.

E como era de fato um sonho, acordei e tentei contar o que eu lembrava para minha namorada, pra quem sabe lembrar de tudo depois, à noite. Não lembro de tudo, mas algumas coisas vieram à minha cabeça e acho que entendo melhor. Essa coisa do navio-mansão ser a bienal me pegou de surpresa.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

cotidianas 1.



Recomenda-se assistir no youtube em fullHD.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Arqueologia sentimental.

Hoje, sentei no chão e abri meu baú – pode parecer grande coisa, mas é só um negócio de plástico onde guardo Legos e bobagens de meu passado –, joguei as cartinhas todas no chão e fiquei mais ou menos feliz do nostalgismo do séc. XXI ter permitido que eu tivesse, de fato, algumas cartas na minha coleção de cartinhas sentimentais. Letras adolescentes de amigos adolescentes com problemas e paixões adolescentes – mais ou menos.

Tento fazer um levantamento por cima, sem abrir os envelopes ou desdobrar as cartas: 35% são de uma ex-namorada de que não gosto muito de me lembrar – mas os documentos precisam continuar vivos –; 20% acompanhavam presentes simbólicos de aniversário, provavelmente significaram alguma coisa quando os recebi, mas agora... o anacronismo devora quase todo sentimento posto no papel; recentemente adicionadas, 5% são cartas de ódio escritas por mim para um colega complicado com quem já discuti demais para que não fôssemos amigos – ele me deu uma caixa com tudo que eu havia escrito para ele, guardei-a sem coragem de ler meus xingamentos infantis na mesma caligrafia de hoje; talvez 35% de minha noiva, quando começamos tudo e ela me mandava seu amor codificado em todo tipo de animal bonitinho e florzinhas e cores fortes – dizendo assim, parece que os códigos pararam de valer; não, não.

Se minhas contas estiverem certas – certamente não estão, a margem de erro parece ser de mais ou menos 15% –, os 5% restantes são trocas amigáveis com outras pessoas chegadas à literatura, em que tentávamos, dançando as palavras, entender nossa amizade, nosso lugar no mundo, enfim, tentávamos dar função às nossas palavras. Exercícios de ficção na comunicação, provas de que podemos ser sinceros mentindo. Algo assim. Resolvi que devia começar minha autopesquisa por ali, afinal, era o que prometia uma leitura mais profunda e menos pessoal.

Exagero na introdução? Sim, acho que sim. Vou direto ao ponto, então, já que eu mesmo começo a ter dores de cabeça com o avançar da noite – ou da bebida. Não foi o primeiro envelope, mas foi um dos primeiros que averiguei. Simples, pardo, com algumas páginas de um dos textos mais honestos e bonitos que já li. Não sei direito o que houve entre nós (nada, na verdade, mas é aí que está o ponto), quase não nos falávamos, mas trocamos algumas cartas, e-mails e mensagens de celular – ai de mim, quebrando o anacronismo de minha própria história – que sempre me fizeram sentir próximo dela. Entendimentos por elipse, provavelmente o maior exercício de literatura cotidiana de minha vida.

Se paramos de nos ver, provavelmente foi porque as obrigações cotidianas (sei que repito a palavra, mas o cotidiano é assim mesmo) deixaram de existir, não havia mais escola ou faculdade que nos segurasse juntos. Se paramos de nos escrever, foi porque coisas assim acontecem, mesmo. Um dia, nos cansamos do livro.

... Sim, dispersei-me de novo, acho que é o conhaque, mesmo. Drummond disse uma vez que... Não, não, não é isso que quero citar. No meio de um monte de outras frases – que provavelmente não fariam sentido pra nenhum de vocês –, encontrei essa:

"aliás, eu sei que entre nós há muitos sins não realizados"

A verdade é que essa frase sempre me inquietou, claro, por aludir a tanta coisa em minha imaginação, ainda que parecesse uma promessa às avessas. O sim existiria se existisse a pergunta, mas ela não existiu e nem deverá existir – são as regras de nosso jogo. No entanto, percebi só agora há pouco um detalhe pequeno, que não altera o significado geral da frase mas adiciona uma provocação terrível que tem me perturbado um pouco. A caligrafia dela, usualmente vertical e correta – austera, digamos – inclinava-se na palavra sins. Na primeira leitura, provavelmente interpretei como uma espécie de entre-aspas, indicando que se tratava da palavra "sim" no plural. Mas o itálico... certamente era também um estrangeirismo, um anglicismo, que o valha.

"Sins" aos sins?  Era isso? Uma navalha, assim? Tão direto? Fui tão burro de ter deixado passar esse detalhe em uma carta de tantos anos atrás?

Se escrevi esta carta (que pode ser guardada em sua própria coleção, junto aos outros 5% que se disfarçam de literatura), é porque exijo explicações. Meu endereço é o mesmo, como pode ver no remetente.

Abraços,

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

últimas palavras (unilaterais!)

E na verdade eu sinto um ranço cada vez maior e um nojo e um enojamento e as pessoas e suas opiniões e a política e o modo como tudo se dá, como as opiniões surgem e como é tudo raiva, ódio, infantilidade, droga, discutamos feito gente grande, feito século XXI, feito a igreja que mantém o homem de pé sem cuspir em ninguém, sem.....................

Tempos dietéticos.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Pratos limpos.

Pratos limpos para novas refeições. Tanto tempo em silêncio é imperdoável. Sigamos em frente.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

um mar de umbigos (férias inesquecíveis).

Prometo tornar-me invisível como o que não se vê quando não se quer ver (um mendigo, quase).

Enfrento uma maré de falta de maré, isto é, a tempestade já foi?

Não sei a cor de minha cueca nem a cor dos olhos dela.

Enquanto isso, eles roncam no quarto e meu estômago grita de dor e de solidão (muito, muito sólido).

regeneração afetiva.

se tudo der certo criarei uma grife de máquinas de passar roupa neste verão

a estrada a praia os caminhos e as estradas e as rodovias o pedágio tudo os caminho tudo os tempo que eu passo esperando são longos e longos

a ponto de eu me pergunta Será que a vida é só espera???

então eu digo Que venha o ano novo!!!

ai ai será que dá pra sentir a dô no que eu tô falando?

será que serão fogos de ARTIFÍCIO????

será que o patético é o novo patético??????

feliz, ano, novo.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

autoficções, 3 partes.



ALMOÇO em 3 partes e aproximadamente 7 janelas




primeira parte: retrospectiva

ALMOÇO em 3 partes e aproximadamente 7 janelas é um projeto que veio se desenhando neste semestre, a princípio como ideia formalmente desvinculada do curso de Estética e Teoria do CTR. Realizo ocasionalmente – assim como alguns amigos meus – pequenos vídeos para a Internet. ALMOÇO serviria como reflexão de nossa própria produção e como mais uma hipótese de alternativa ao fazer imagens padrão que nos é normalmente imposto no curso superior do audiovisual.
Como brincadeira baseada no filme The five obstructions (Lars Von Trier e Jørgen Leth, 2003), analisei a produção para Internet de meu colega Henrique Chiurciu e achei alguns pontos fundamentais para sua produção: autoficção, enquadramentos fixos, “câmera-olho” – projeto de vídeos “de seu ponto de vista” que ele estava tentando acertar –,  auto-mise-en-scène, predomínio de cores quentes. Tendo essas características em mãos, comecei a bolar um vídeo que as usasse como normas, obstruções. Surgiu a premissa do ALMOÇO – a princípio, corruptela de seu vídeo JANTAR. Como vários outros projetos informais, foi para a geladeira.


Quando surgiu a possibilidade de criar um vídeo que, de alguma forma, trouxesse em si questões desenvolvidas no curso de estética e teoria, resolvi levar o projeto adiante, tentando esmiuçar, para mim, o que há de discurso nele e o que é refletido por ele. Assim, após cuidadoso e longo processo de gestação do projeto, apresento uma versão quase final desse pequeno vídeo. Alguns desalinhamentos na movimentação e na imagem persistem; infelizmente, o processo de feitura do filme exige muito tempo de minuciosa pós-produção, coisa rara em fim de semestre.


segunda parte: o que está em jogo?

ALMOÇO realiza-se na reflexão de diferentes formas audiovisuais, mas não explicita nem tenta definir objetivamente o que está em jogo. Seu diálogo com questões e conceitualizações estéticas precisa se dar, portanto, na análise da obra – talvez a análise do próprio autor não seja muito válida, mas é preciso explicitar intenções.
O ponto central do vídeo é a montagem por incrustação, isto é, por “mixagem” de diferentes imagens em diferentes camadas. A imagem que representa* a minha visão toma grosseiramente – as relações de proporção se modificam no decorrer do vídeo – o lugar de minha cabeça e se move comigo. Assim, a “decupagem” das ações se dá principalmente na visão do espectador, que se alterna, incitado pela mise-en-scène, entre observador distante e “agente da passiva”. Dentro do quadro maior, a videohead expande o campo e ressignifica os espaços fora de quadro ou “atrás” e “na frente” dele. Um pouco como as primeiras vídeo-artes vistas em aula, ALMOÇO tem como pontapé inicial a possibilidade técnica digital de compor livremente a imagem.
As duas imagens têm características bastante distintas. O quadro maior, plano geral ligeiramente desfocado, em contraluz de cores quentes, quase frontal – uma leve angulação causa certo desconforto ao frustrar nossas vontades geometrizantes – com abertura e tempo de exposição fixos e câmera no tripé, representa principalmente a visão óptica, em profundidade, e delimita, a princípio, nosso campo. Os limites de quadro representam também os limites da cozinha imaginária, e há uma tendência centrípeta em sua composição. A teatralidade do espaço é enfatizada pelo entrar em cena da personagem no início do filme.


O quadro menor, captado com uma pequena câmera de celular presa em meu rosto – curiosamente, a lente estava em meu nariz, e não entre meus olhos –, é móvel, nítido, ainda que muitas vezes bastante pequeno, com todos os ajustes de cor e contraste automáticos, tendendo para as cores frias. Sua movimentação, apesar de muitas vezes imprevisível, não é desorganizada nem aleatória: há claramente uma atuação no olhar. Embora a imagem seja apenas uma representação de minha visão, a câmera estava efetivamente presa ao meu rosto, de forma que ver tornou-se um gesto de mostrar, isto é, uma visão háptica em sua própria confecção. Mover o rosto significa mover a máscara sobre o mundo.


ALMOÇO estrutura-se, de forma bastante simples, em três partes, delimitadas por dois cortes: a apresentação, parte mais longa, em que se mostra a ação, o espaço e a forma básica do vídeo; uma parte intermediária curta, em que as características se mantêm basicamente as mesmas, que funciona como elipse temporal do processo;  uma conclusão da ação e uma espécie de explicitação metalinguística do modo de fazer e das “aproximadamente 7 janelas do título”. Mostrar a câmera parte da postura de não tornar o método simplesmente ilusionismo e efeito, explicita-se que se discutem olhares e modos de fazer imagem. A videohead precisa ficar imóvel, no fim, para dar conta do fora-de-quadro. Assim, revela-se rapidamente a câmera em meu rosto – que já podia ser vista em alguns momentos nos reflexos do fogão – e cria-se uma composição das janelas ao fundo com a janela da videohead com a janela da televisão com a janela do quadro maior. Metáfora do enquadramento como máscara, abismo do ver.



A opção de estruturá-lo assim (montagem tradicional, temporal, em oposição à mixagem de imagens) se deu principalmente para reduzir o tempo do vídeo ao tempo máximo exigido pelo trabalho** e para criar uma unidade mais concisa e mais apta à forma do filme-ensaio para a Internet do que da vídeo-instalação de 20 minutos que formaria o vídeo sem cortes.
O subtítulo em 3 partes e aproximadamente 7 janelas, escolhido após o processo de montagem, serve como provocação ao espectador, para que ele busque – e provavelmente encontre – essas 3 partes, tentando dar significações a elas; mais importante, evidenciar as janelas no título e dar um número relativamente arbitrário a elas (poderiam ser 4 ou qualquer outro número, dependendo do critério adotado) dá margem para que o espectador “descubra” as janelas do filme, cogite, por exemplo, se os reflexos nas geladeiras são também outro ponto de vista, outra inserção sobre a imagem.


terceira parte: por quê? porquês

Mais difícil que identificar os elementos presentes numa obra, é entender por que fazê-la. ALMOÇO é uma hipótese de linguagem – apoiando-se na ideia de que não há uma linguagem propriamente videográfica, mas sim possibilidades características que permitem que nasçam outras gramáticas; proponho algo similar com o digital: vale tudo o que for possível –, é mais um passo meu na tentativa de entender o autofilmar-se típico da Internet, da investigação da autoficção documental, de um rascunho de um (outro) cinema possível.
Talvez o mais feliz, neste vídeo, é que ele seja um ensaio aberto sobre as possibilidades do audiovisual, que tenha algum frescor, a meu ver, não-gratuito. Fico com a hipótese de que se fazer imagem e fazer imagem, cada vez mais, se aproximam, e de que isso talvez seja o ponto mais importante do audiovisual na/da Internet, neste momento.




* É essencial que a imagem seja apenas representação de minha visão, isto é, que a substitua e exista em seu lugar, sem “desaparecer” como imagem. Certo distanciamento por parte do espectador é bem vindo, por isso a proporção retangular vertical da tela, em oposição ao retângulo horizontal mais próximo de nosso raio de visão.
** Obstrução mais ou menos acatada, já que o vídeo tem pouco menos de 7 minutos. Sentir o tempo da ação, para mim, era essencial.




adendo: links de interesse

ALMOÇO em 3 partes e 7 janelas (720p): http://www.vimeo.com/17582159
Coletânea de vídeos meus e de meus colegas: http://cinequoinon.blogspot.com/
The perfect human (Jørgen Leth, 1967): http://www.youtube.com/watch?v=3R4E1nm6SYw
Trecho de The five obstructions: http://www.youtube.com/watch?v=KfkT0ouIJ-4
Brief Encounter (Tom Jantol, 2009): http://vimeo.com/album/226174/video/6224735

segunda-feira, novembro 29, 2010

autoficções, par.

– A receita do sucesso, qual é?
– Diálogos espertinhos, amor, pernas bonitas, sorriso simpático.
– Um homem como eu pode ter pernas bonitas?
– Mmm... Verdade, para o homem, as pernas não importam muito. Como vai sua barriga?
– Redonda, um pouco.
– E sua carteira?
– Gordinha.
– Bom, é bom, mas pra cinema isso não é suficiente.
– E o que é?
– Pernas bonitas, se você for uma mulher.
– Eu não sou, você sabe muito bem.
– Então sorria – – ok, não lhe cai bem o sorriso. Acho que pra você não tem jeito.
– Nem com talento?
– Tampouco talento. Além do mais, tem pouco talento.
– Meus diálogos são espertinhos.
– Acho que não, acho que não. Um pouco maçantes e juvenis, sem propósito. O público logo se enfada. Também acho que você não está sendo você mesmo.
– Então... Então eu te amo.
– Sucesso!

terça-feira, novembro 23, 2010

platão, hojendia.

eutenhotantavontadedeconversarcomvocê
maseunãotenhooqueconversarcomvocê
eassimnessadistânciaficaremsilêncio
nãoéosuficientenãoénadaésóvazio
ésóumemaranhadodepalavras
nãoditasnempensadasnão
porquenãoseinemoque
pensarsóseiqueque
rofalarconversar
masnãoposso
nempensar
emvocê
quea
sp
a
l
a
v
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sexta-feira, novembro 19, 2010

autoficções número um

Uma sensação chatinha na minha cabeça, nas minhas pålpebras; tristeza de não saber fazer valer, de não saber o que fazer (me disseram: segure isto e fiquei segurando enquanto o tempo passava e eu era e fui decoração, parte da ne mise pas en scène, o secreto e que fica por detrás das câmeras e que deixa de significar quando o público vê, mas eu estava atrás das câmeras, ainda que fosse só um convidado (nem isso, na verdade, já que fui por vontade própria, por motivos que não existem, que não convêm (deitei-me numa peça de madeira que sabia que seria queimada em seguida, deitar-se na morte ("Ei, me ajuda aqui, segura desse lado" (quem me dera fosse "Segura-me aqui, aperta-me forte e faz-me gozar (confusão de pessoas, de como se deve fazer o imperativo (o imperativo é sempre dever))", mas nunca é e sempre penso voz alta ou em literatura), e eu seguro, eu carrego, eu suo e há um desprendimento em relação ao mundo que não tem tamanho, trabalholazersujeira) é a melhor coisa que existe, pois tudo é morte e Deus é bom), que estão no irracional, nos números indivisíveis, imprevisíveis, frutos de operações inapropriadas), um déspota sem o que despejar ou despojar, portanto algo próximo a algo que perdeu sua razão social, seu papel econômico, suas lentes de contato), de morrer naquela hora com aquele cheiro horroroso de borracha.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Em memória.

Quando meu pai morreu, recebi de herança muita coisa. Chamava-se João, mas isso não faz diferença mais. Foi homem rico e precavido, gostava de guardar para um futuro que nunca vinha, mesmo depois de já ter ficado bastante claro que ele acumulava mais para a morte do que para a vida. "Esperar, Carlos, a vida é esperar", enquanto afagava minha franja rebelde. Não importa muito, morreu.

Dentre o muito que deixou, o dinheiro foi o mais importante. Fiz meus cálculos e havia o suficiente para o resto da vida, se a levasse tranquilamente. Meu ofício também me ajudava: especializei-me desde cedo em fazer nada, em esperar que decidissem por mim. Não havia mais ninguém, mamãe morrera muito antes e sou o único filho reconhecido por meu pai. Sou sozinho, mais sozinho ainda do que ele era.

Outros itens importantes:  1 casa de praia, 2 apartamentos em São Paulo (um deles transformado em biblioteca privada por meu pai), 1 apartamento no Rio, alguns automóveis. Passei a usá-los todos durante o ano, dividindo minha atenção entre os imóveis igualmente, numa planilha. Ignoro o contexto em que meu pai adquiriu cada um deles, também não entendo muito bem porque ele construiu a biblioteca.

O que tenho para contar de menos trivial, no entanto, refere-se justamente a esse apartamento transformado em fortaleza de livros. Meu pai passava frequentemente semanas trancado aqui, totalmente alienado do mundo exterior. Felizmente, dada a natureza de seus negócios, nunca teve prejuízo por isso (ao menos é no que acredito, pois conversávamos pouco). Me arrependo um pouco de não ter perguntado a ele o que fazia lá.

Suponho que ele me responderia, com sua mania de encarar o nariz das pessoas: "Ora, leio!". Talvez risse, mas fica difícil saber ao certo, já que está morto. Também não é isso, o que importa de fato (fico um pouco encabulado, pretendia ser científico e direto e tudo que eu digo sai assim, nostálgico) é o que encontrei lá, atrás de uma das bancadas de livros. Se a arrastei, obviamente, é porque desconfiei das marcas no piso de madeira. Uma portinha de madeira, trancada por um cadeado ainda mais simples que ela, revelou-se por trás dos livros.

Não tive coragem de abri-la, confesso que por medo de me decepcionar com o pai. Ao invés disso, passei o resto de minhas semanas planejadas lendo os livros com as lombadas mais interessantes e dormindo bastante. Posso ser chamado de vagabundo e frívolo, mas não é bem o caso: cansei-me da vida, mas morrer já é demais. Não cito os autores que li pois não lembro muito bem; além disso, não quero me filiar explicitamente a nenhuma facção literária. Não combino bem com a militância política.

Pois que ao fim das semanas, trancando a porta do apartamento, percebo uma chavezinha logo ao lado da chave principal. Ignorara ela sempre, por pequena e inespecial demais. Naquela hora, no entanto, sabia o que era e até cogitei que aquilo era coisa do destino. Bobagem, já que a chave sempre estivera lá, mas fez sentido na hora. Segui até a portinha e destranquei o cadeado. Abri-a e entrei.

Peço desculpas pela elementaridade de minha descrição espacial, nunca soube fazer bem. Era um quartinho pequeno, um antigo banheiro. Seus azulejos azuis, intatos, lembravam porcelanas portuguesas. Rico, limpo, secreto. Havia um altar ao meio, iluminado por um painel de LEDs no teto, provavelmente aceso todo o tempo. Em cima dele, um relógio de bolso prateado e um pouco manchado de negro. A simplicidade significativa do lugar me levou diretamente ao relógio.

Nunca o havia visto, mas certamente pertencera a meu pai. Não sei, mas sei que sei. Toquei-o, esperando algo fantástico, ou talvez alguma lembrança evocada pelo tato. Nada. Encarei-o, em busca de detalhes ou algo assim. Em vão. Era um relógio plenamente normal, seus ponteiros fininhos marcando quase a hora certa. Os algarismos romanos, atemporais, ostentavam-se no pequenino. Os ponteiros não se moviam.

Tentei ajustar o horário na pequena rodela na parte de cima do relógio. Muito emperrada, demorei para adiantar um minuto sequer. Havia 15 minutos de diferença entre o tempo real e o tempo que o relógio indicava. Segui forçando as engrenagens, conquistando minuto a minuto os milímetros. Não precisava fazer tanta força, mas o mecanismo parecia voluntariamente negar meu avanço, retardo mecânico. Quando havia corrigido os 15 minutos de atraso, meu celular apontava um horário diferente, já 15 minutos depois.

Deixei-o novamente no altar, decepcionado. Sentei-me no chão, encarei o teto, senti-me só. Passaram-se 15 minutos, assim. Notei meu erro, grave: o relógio estaria, então, 30 minutos atrasado. Levantei-me de pronto e voltei a tentar corrigi-lo. Não sei quanto tempo passou assim, mas consegui manter os 30 minutos de atraso enquanto me mantive acordado. Exausto, acabei dormindo nos azulejos frios.

Acordei assustadíssimo, segurando fortemente o relógio junto ao meu peito. Chequei as horas e não soube dizer se estava 4 horas adiantado ou 8 horas atrasado. Fui para frente ou para trás no tempo? Passou o tempo sem que eu passasse o tempo. Haveria consequências maiores? Levantei-me apoiando no altar, que se revelou muito mais instável do que o esperado e caiu como caem os colossi. Quebrou-se em mil pedaços.

Encolhi-me com medo do golpe de cinto de meu pai. Não veio. Ele está morto. Cogitei lançar o relógio contra a parede, mas a curiosidade me impediu. O que aconteceria se eu esperasse até a hora certa e mantivesse o relógio sincronizado com a realidade? Talvez o tempo parasse, algo assim da teoria da relatividade. Não sei. Só sabia que eu não seria como meu pai, não passaria os dias passando o tempo enfurnado naquela salinha.

Saí, encostei a porta e lancei-me no sofá. Desenhei planos e esquemas até chegar ao perfeito. Com tanto dinheiro e posses, não foi nada complicado conseguir pessoas o suficiente para manter o relógio funcionando. Muitas delas, na verdade, se negam a receber qualquer dinheiro pela tarefa. Sentem-se bem adiantando o relógio, dizem, é como se o tempo dependesse delas. Malucas. Tivemos alguns problemas no começo, mas conseguimos manter a hora já há alguns anos.

Não sei se entendi bem sua mensagem, pai. Espero que lhe agrade.

domingo, outubro 24, 2010

nobreza

respirávamos hélio

quinta-feira, outubro 07, 2010

carta-aberta, resposta indireta, sim.

só existe na ausência, mesmo.
sentir falta é o tom.

não sei, assim você me deixa emocionado demais pra dar uma boa resposta, espertinha.

de repente transparência e não sei como lidar, ainda.

quinta-feira, setembro 23, 2010

sim, estou quase dormindo.

[você já sabe, vi seu nome e quis escrever e por enquanto é só seu, mas por enquanto]

não existe mais isso de oi e tchau, porque o cumprimentar não cumpre comprimentos, não aproxima nem distancia, isto é, é só uma régua. não me aponte o dedo nem diga que você já sabe como isso termina, que já conhece meu jeito de argumentar, meu gosto pelos gostos caros, sim, você está certa, mas isso não me torna de todo previsível, legível, superficial -- nos bons e maus sentidos. sim, sei muito bem que a originalidade não é meu forte, que vivo de repetição, que meu vocabulário e minha retórica são fracos, fraquinhos, e que você só deixa eu segurar sua mão porque sabe que é melhor balançar a cabeça do que não balançá-la. a pena é minha, e não sua, e você não deve tê-la de mim, nunca, ou então será ainda pior, mais postiço, unhas e dedos que se perderão numa infinidade de lugares comuns como seu braço e logo tudo que podemos imaginar, mas não é assim, não, a linha do raciocínio, você já sabe que não chegarei lá e que só falo isso porque estou bêbado de sono, de imenso de gordo, sujo, insossial. de fato, já vejo sua impaciência, sempre, seus olhos vibrando de terror de ficar aqui me ouvindo, mas só assim eu me acalmo e te deixo em paz, isto é, sim, sinto muita falta, sei que você dirá que já passou e que não sente nada e que provavelmente nunca sentiu nada, mas é mentira, eu sei muito bem que eu sabia como fazer gozar, como ter um orgasmo ridiculamente grande, do tamanho do mundo, do tamanho do tempo que ainda temos juntos, mas isso de oi e tchau não existe e eu já te disse muito mais vezes do que você imagina. se é assim, se você acha que é só encarar a folhinha de papel ou o vidro entre nós, fingir que não escuta ou, pior, fingir que escuta enquanto eu falo e falo e talvez logo eu chore, não, não é assim que você deve fazer, você transparece sua fraqueza, é óbvio demais que você sofre comigo e com o que eu digo, que isso não é brincadeira não, sinto muito, então sigamos em frente, você pode olhar para seus cadarços ou não olhar para nada e eu sei muito bem que não existe vidro entre nós e que não existe um telefone e que nos falamos frente a frente, que não existe nada entre nós a não ser a prisão, e, pra ser sincero, não sei nem mais se a prisão existe, se não inventei entre eu e você isso, se os filmes não me enganaram, não me fizeram acreditar em nada que não a verdade, porque quando vejo você e penso que poderia muito bem tocá-la e que mesmo na prisão isso é permitido, talvez principalmente na prisão, não sei, alguma coisa faz dor no estômago e minha cabeça roda, roda, roda e eu posso muito bem vomitar, mas não na sua frente, não agora, na hora do sol, do banho, do descanso, da visita, não. porque ficar preso a uma ideia é muito pior do que ficar preso pelos homens e, pra ser sincero, eu me sinto preso pelas ideias e não pelos homens e são só as ideias que me impedem de correr pelos campos e ser infeliz, digo, feliz, desse jeito burro, descompromissado, verdadeiro, isto é, enfim um homem do campo e não um homem da cidade. mas o mais importante é você, que está aqui e me encara e parece engolir suas unhas, se bem que não rói unhas, nunca roeu, enfim, mas sua mão na minha, mas isso não é cumplicidade, isso não pode ser pena, que é minha, não tenha pena de mim, nem piedade: confesso que fiz tudo que fiz e que estou disposto a provar que sou culpado até a minha morte.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Em busca da verdade.

Fernando Marcos Ítalo, o FMI,



hahaha

terça-feira, agosto 31, 2010

Henrique IV, filho do neto do imperador da Vila Leopoldina.

H. IV sorriu-se à pretendente, feliz da vida com a perspectiva de lhe lamber o pescocinho e de lhe cheirar a nuca, de lhe foder um pouco a vida (de um jeito bom e agradável, claro); far-lhe-ia imperatriz de seu coração, cargo imaginário que lhe renderia beijinhos mil de paga mensal, certamente, e mais todo o terreno vasto compreendido pelas extremidades do corpo de H. IV. Sussurrou-lhe ele:
 "Minha mão, meus pés, minha barriga e meu pênis e também todo o resto: tudo teu! Só precisas me aceitar como sou. Cederás teu ventre à minha patriarquia?", riram-se de seus trejeitos, ela. Nuvem indesmistificável, aliás, aqueles cabelos louros que lhe cobriam o pescoço e, às vezes, lhe franjeavam a testa. Tête à tête, ela lhe encarava com olhar perfurbador, cogitava se havia de fato alguma escolha em jogo, se aquele homem seria diferente de todos os outros. Ela pensava, mais ou menos, assim:
"Com H. IV ou não, algum dia eu morro. Nada é pra sempre... O outono é sempre igual".

As folhas caem no final.

domingo, agosto 22, 2010

eu erro, erro meu?

eu
erro
erro
meu
eu
erro
erro
eu
erro
meu
erro
é
eu
erro
meu
erro
é
eu
erro
é
meu

terça-feira, agosto 17, 2010

mais noitinhas dispersas sobre (fazer) cinema (asofismos).

engenho do engano, sempre, mas da mentira que faz sentir bem e que talvez até ensine (faça sentir?) alguma coisa
numa equipe também necessária, se não em quantidade, em intenção de apoio
os atores um pouco de lado, um pouco de outro, mas sempre centro
num movimento malemole que tem alguma direção
ainda que frágil como todo conceito que não precisa ser definido pra sempre
não precisa ser decupado, mas pode
não precisa ser ensaiado, mas pode
não precisa ser financiado, mas pode

dogma da falta de dogmas? vazio.

segunda-feira, agosto 02, 2010

rebeca retorna!

hoje eu sinto
como se como se como se como se
um pouco comovida
pelo pelo pelo pelo
cheiro do seu
cabelo

mas também  não é nada demais

sábado, julho 24, 2010

monólogo dos encontros infortuitos

a gente não sabe nunca nem pode saber o que se passa como funciona a cabeça das pessoas um dia ela o abraça e ele sorri mas talvez ela não goste de kant nem de skank e é possível que ela goste de outro jeito não como você porque ela e ele são dois e superfície e apertá-la junto e dizer que a ama pode existir só porque apertar junto é querer dizer amor mesmo que não haja amor é dizer porque o momento diz que deve ser dito mas só mas nada mais nada mas ou então o sorriso dela e tanta ternura em abraços a todos só que o que há nela o que há nele ela é vazia como uma abóbora ele se sente cheio como um toureiro cheio de si enquanto ela você é família enquanto ele é balada enquanto ela é balada enquanto numa noite é claro que eles se queiram um pouquinho mas o quê

sexta-feira, julho 02, 2010

Que foi?

nada, mãe, não tem nada de errado comigo
dorme, que tá tudo bem
que eu tô vestido e rico
e sorrindo e com uma puta mulher fantástica

com o horizonte todo meu
sem problema nem nada, nenhum
descansa por mim
brava e impávida com a louça
fazendo tintim
na sala, com o pessoal, a família
ou mesmo Swann, se quiser,

mas dorme
e me dá boa noite.

sexta-feira, junho 25, 2010

notas sobre um filme que poderia ter sido.

"o que tá acontecendo?"
disse, diante da fila enorme, lara
"parece que a atriz, a protagonista, está doente"
, uma voz solta no embolado de gente
"como assim? mas é um filme!"
burburinhozinho
"ela está doente!"
lara encara pèzinhos no chão
"mas é um filme! não importa se a atriz está doente!"
em roda alguns em torno dela
"não importa? o filme não existe sem ela!"
sobrancelha prum lado e proutro
"não é assim que funciona... ela já está no filme, irremediavelmente"
"isso é o que você acha"
"eles não vão deixar a gente entrar!"
"burra, burra, burra!"
laralari, laralará, que tal, que tal, como pode, o que fazer?
"malucos!"

segunda-feira, junho 14, 2010

Na dúvida...

na dúvida
ela soluça

quarta-feira, junho 09, 2010

Debaixo do edredom.

"O que você tá procurando? Não, isso é minha perna! E esse é meu braço, minha mão, meu rim... Não, aí não, não é assim! Para, Ludo, para! Que coisa, me responde: o que você quer aí? Já chega de brincadeira, essa sua mão que roça em tudo, cheia de mimimistérios e por aí fora! Não, Ludo, essa é minha bacia e isso faz cócegas! ... Ai!"

Ludovico achou a chave.

terça-feira, junho 01, 2010

Um tributo à narrativa, ou: chega de RPG, meninada.

Campo devastado pelas infindáveis guerras entre os reinos de Hixhel e Pan Lestwing, faixa de terra ingrata, ruína humana. De armadura prateada-reluzente e a experiência de milhares de combates e mortes pesando ainda sobre suas ombreiras, Jacques de Lacotédroi brandia sua Língua-de-Fogo, espada encantada com o poder flamejante, contra os infieis desarmados. Não havia nenhuma questão moral ou política para ele, fazia o que fazia para se tornar mais forte e rico, e se, naquele momento, atacava civis, era só porque seus verdadeiros adversários, fortemente armados e tremendamente treinados, escondiam-se em algum lugar. Eram covardes.

Jacques elevou sua espada acima de sua cabeça e da dele e, num só movimento, decapitou um jovem caído no chão, que arregalara os olhos quando o percebera se aproximando. A Língua-de-Fogo, em seu movimento descendente, carbonizava os ferimentos feitos por ela mesma: mortes limpas. O jovem não gritou. 73, calculou o guerreiro.

Jacques olhava ao redor quando percebeu um movimento suave por trás de uma pequena moita. Farejou no ar o medo de uma mãe que protegia seu filho. "Bem, mãe ou não, vai levar um bom golpe na nuca e fugir desse mundo horrível que não vale nada, mesmo", conjeturava durante a breve caminhada até lá. A Língua-de-Fogo pendurada na mão esquerda, como ensinam a fazer ao se aproximar de um leão.

"Pois saia daí de trás, mulher!", rugiu Jacques, preparando-se para o golpe de misericórdia. Levantou-se detrás da moita uma jovem morena, linda, vestida com belos panos coloridos que escondiam e revelavam tudo na medida certa. Seus olhos vermelhos e furiosos encaravam o guerreiro de tal forma que ele sentiu todo seu braço se paralisar, sua respiração repentinamente estacou. Jacques havia sonhado com aquela moça carregando em seus braços um bebê mestiço, todos os três sorrindo. De fato, havia um volume envolto em pano nas mãos da jovem.

"O que é isso?", tremulou a voz do guerreiro; a jovem, agora um pouco menos assustada, talvez até menos do que Jacques estava agora, ergueu lentamente o embrulho em suas mãos, mostrando o que havia lá: era um lindo bebê, embora nada mestiço. Jacques baixou a espada, lentamente, afinal, para que tudo aquilo? Para nada, não valia para nada.

A moça começou a balbuciar algo totalmente incompreensível, como para si mesma. Jacques largou de todo sua espada e, tomando coragem única em sua vida, aproximou-se da garota, tentando não se sentir patético, imundo, isto é, tentando fingir que não era ele mesmo. A moça lhe sorriu um sorriso pálido e lhe entregou seu filho. Jacques de Lacotédroi nunca se sentira verdadeiramente feliz como naquele momento. A jovem tornou a balbuciar algo, sua língua tremulante, seu lábio rápido, o rosto tenso de concentração. O bebê encarava o guerreiro com intensidade, seriíssimo.

Jacques de Lacotédroi ia se explicar, dizer que não entendia o que ela dizia e que sentia muito, muito, por tudo que fizera, mas num só átimo, antes de quaisquer explicações, o balbuciar se tornou gritar e o gritar se tornou uma gigantesca bola de fogo, conjurada pela jovem das chamas do Inferno, engolindo os três em uma explosão perfeitamente linda e brilhante.


Tamanha explosão mataria qualquer ser humano e, assim, lá estavam a mulher e o filho totalmente carbonizados e irreconhecíveis no chão; cheiro de queimado terrível. Jacques, no entanto, experiente na arte de matar e de evitar ser morto, cavaleiro de último nível, de potências épicas, estava lá, quase intato. Levantou-se com dificuldade, encarou a suicida no chão por um pouco de tempo. Deu de ombros, dirigiu-se até sua espada no chão.

A Língua-de-Fogo brilhava intensamente; absorvera parte da chama do derradeiro sacrifício e se tornara ainda mais poderosa, ainda mais... quente. Na verdade, Jacques podia sentir as almas da moça e do bebê presas naquele artefato, tornando-se força violenta e incontrolada. Espada em punho, partiu em direção ao horizonte.

Matou-se pulando de um penhasco.