segunda-feira, abril 25, 2011
terça-feira, abril 19, 2011
COVEIROS.
PERSONAGENS
PRIMEIRO PROFESSOR, chefe da área de português da escola.
SEGUNDO PROFESSOR, recém-contratado da área de português.
GUSTAVO, 14 anos, aluno exemplar, filho de deputado.
HENRIQUE, 13 anos, aluno e braço direito de Gustavo.
HENRIQUE, 13 anos, aluno e braço direito de Gustavo.
CENA
Sala dos professores, grande montanha de papéis sobre as mesas.
Dois professores entram com mais papéis nas mãos e se jogam sobre as cadeiras, com canetões vermelhos nas mãos, rabiscando com ênfase os papéis.
PRIMEIRO PROFESSOR
Acha justo que um aluno seja reprovado por copiar as respostas de outro?
SEGUNDO PROFESSOR
Creio que sim, está no regulamento, não está? Se os diretores decidiram assim, a questão não está mais em nossas mãos.
PRIMEIRO PROFESSOR
Não devia ser o outro, o que deu as respostas, também punido?
Não devia ser o outro, o que deu as respostas, também punido?
SEGUNDO PROFESSOR
Não se ele o houver feito por compaixão? Se o coração está leve...
Não se ele o houver feito por compaixão? Se o coração está leve...
PRIMEIRO PROFESSOR
Mas está aí, justamente, o problema! Como alguém pode fazê-lo de mente limpa? Ajudar um crime, torná-lo possível, é pior do que cometê-lo de fato. Se alguém dá a faca e o queijo para outra pessoa, é certo que esta outra cortará, com a faca, o queijo.
Mas está aí, justamente, o problema! Como alguém pode fazê-lo de mente limpa? Ajudar um crime, torná-lo possível, é pior do que cometê-lo de fato. Se alguém dá a faca e o queijo para outra pessoa, é certo que esta outra cortará, com a faca, o queijo.
SEGUNDO PROFESSOR
Não podemos punir nosso melhor aluno, está na ata da reunião de ontem. A culpa é do burro que aceitou a cola.
Não podemos punir nosso melhor aluno, está na ata da reunião de ontem. A culpa é do burro que aceitou a cola.
PRIMEIRO PROFESSOR
Que parvice!
Que parvice!
SEGUNDO PROFESSOR
Na verdade, se quer saber... Se ele não fosse filho de político, levava uma boa reprovação na testa.
Na verdade, se quer saber... Se ele não fosse filho de político, levava uma boa reprovação na testa.
PRIMEIRO PROFESSOR
Arre, mas esse é o absurdo! Um professor… O importante são as notas, o importante é a conduta! Não há nada menos importante para um professor do que o pai de um aluno. Veja esse monte de lixo, essas respostas incoerentes… Temos que poder corrigi-las, riscá-las, puni-las!
Arre, mas esse é o absurdo! Um professor… O importante são as notas, o importante é a conduta! Não há nada menos importante para um professor do que o pai de um aluno. Veja esse monte de lixo, essas respostas incoerentes… Temos que poder corrigi-las, riscá-las, puni-las!
SEGUNDO PROFESSOR
Certo, certo, muito certo.
Certo, certo, muito certo.
PRIMEIRO PROFESSOR
Pois, como é que se deve punir bem um aluno?
Pois, como é que se deve punir bem um aluno?
SEGUNDO PROFESSOR
Reprovando-o?
Reprovando-o?
PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, parvo, mas não só isso! Saiu-se com a resposta mais simplória que pensou, isso vale no máximo um meio certo.
Sim, parvo, mas não só isso! Saiu-se com a resposta mais simplória que pensou, isso vale no máximo um meio certo.
SEGUNDO PROFESSOR
'Como é que se deve punir bem um aluno'?
'Como é que se deve punir bem um aluno'?
PRIMEIRO PROFESSOR
Foi o que lhe perguntei.
Foi o que lhe perguntei.
SEGUNDO PROFESSOR
Não sei, peço água.
Não sei, peço água.
PRIMEIRO PROFESSOR
Ah, água? É mesmo um imbecil. Mas não pense demais no assunto para não fritar essa cabeça enorme! A boa punição é social, parte por todas as camadas da vida do cabritinho, faz com que ele se arrependa de sua preguiça, burrice – o que quer que seja – com cada pelinho de seu corpo. Como fazer isso? Vai, busca um café para mim e sua tal água, e pense bem no assunto! (Sai o segundo professor.)
Ah, água? É mesmo um imbecil. Mas não pense demais no assunto para não fritar essa cabeça enorme! A boa punição é social, parte por todas as camadas da vida do cabritinho, faz com que ele se arrependa de sua preguiça, burrice – o que quer que seja – com cada pelinho de seu corpo. Como fazer isso? Vai, busca um café para mim e sua tal água, e pense bem no assunto! (Sai o segundo professor.)
Vêem-se Gustavo e Henrique aproximando-se à porta da sala
PRIMEIRO PROFESSOR (Corrige as provas ferozmente e cantarola.)
Tu és tolo, tu és tolo como porta.
Se eu te digo: tu saíste a teu pai
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu saíste mesmo, mesmo a teu pai
GUSTAVO
Como ele canta assim, corrigindo provas como se lavasse o chão?
HENRIQUE
Talvez lavar o chão e corrigir nossa concordância seja a mesma coisa pra alguém que passa os dias fazendo isso.
Talvez lavar o chão e corrigir nossa concordância seja a mesma coisa pra alguém que passa os dias fazendo isso.
GUSTAVO
A repetição só esvazia, a repetição só esvazia.
PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)
Não te escondas, não te escondas de teus erros.
Se eu te digo que errar é coisa humana,
Ah, não creias que isto é um elogio:
Tu és humano, mesmo, mesmo, por inteiro
(Amassa uma prova e joga em direção à porta.)
GUSTAVO
Essa prova jogada ao chão foi de um aluno que colocou todas as suas forças, estudou três semanas, negou todos os compromissos, perdeu um pouco de sua própria vida! Foi assim, não foi?
Essa prova jogada ao chão foi de um aluno que colocou todas as suas forças, estudou três semanas, negou todos os compromissos, perdeu um pouco de sua própria vida! Foi assim, não foi?
HENRIQUE
Acho que sim, cara.
Acho que sim, cara.
GUSTAVO
Ou então, de um que nunca tivera problemas antes, que se sentou para a prova-final insuspeito, e agora... Agora sua prova está no chão, agora deve passar mais um ano chafurdando na bosta!
Ou então, de um que nunca tivera problemas antes, que se sentou para a prova-final insuspeito, e agora... Agora sua prova está no chão, agora deve passar mais um ano chafurdando na bosta!
HENRIQUE
Bem provável.
Bem provável.
GUSTAVO
É isso, então é isso mesmo, e agora é lixo!
É isso, então é isso mesmo, e agora é lixo!
PRIMEIRO PROFESSOR (Cantarola.)
Errado, errado e errado.
Errado, errado, errado, errado!
Tudo que tu tens feito
é errar ao quadrado!
é errar ao quadrado!
(Arremessa outra prova)
GUSTAVO
Eis outra. Poderia ser de qualquer um de nós. (Pega a prova amassada.) Como brincam com nossa juventude, marcam com machados nossa vida, esquecem que já somos pessoas! Este papel amassado significa nosso fracasso social, não?
Eis outra. Poderia ser de qualquer um de nós. (Pega a prova amassada.) Como brincam com nossa juventude, marcam com machados nossa vida, esquecem que já somos pessoas! Este papel amassado significa nosso fracasso social, não?
HENRIQUE
É.
É.
GUSTAVO
Não tem medo de ser essa prova tua caveira?
HENRIQUE
Já sabia que não me daria bem, cara.
Já sabia que não me daria bem, cara.
GUSTAVO
É esse tipo de atitude que permite que nos esmaguem. Vou lá ter com ele. (Adianta-se.) De quem são essas provas?
É esse tipo de atitude que permite que nos esmaguem. Vou lá ter com ele. (Adianta-se.) De quem são essas provas?
PRIMEIRO PROFESSOR (sem tirar os olhos das provas)
Minhas, ora.
Minhas, ora.
Não, não, não,
parece que fizeste um errão!
GUSTAVO
Não são suas, ainda que as trate como tal.
Não são suas, ainda que as trate como tal.
PRIMEIRO PROFESSOR
Espero que não sejam suas, então, pois que a coisa aqui é podre.
Espero que não sejam suas, então, pois que a coisa aqui é podre.
GUSTAVO
Percebo bem a podridão. Muitos reprovados?
Percebo bem a podridão. Muitos reprovados?
PRIMEIRO PROFESSOR
Poucos, infelizmente. Muitos me escapam pelas frestas dos dedos.
Poucos, infelizmente. Muitos me escapam pelas frestas dos dedos.
GUSTAVO
Escapam como?
PRIMEIRO PROFESSOR
De toda forma, por sorte, por cola, mas alguns, mesmo, apenas porque têm pais que os protegem.
Escapam como?
PRIMEIRO PROFESSOR
De toda forma, por sorte, por cola, mas alguns, mesmo, apenas porque têm pais que os protegem.
GUSTAVO
Como pode um pai proteger o filho da reprovação?
PRIMEIRO PROFESSOR
É justamente o que eu pergunto. A sombra de um pai poderoso assusta o povo lá de cima, como se a má índole de uma criança pudesse ser justificada pelo emprego do pai.
Como pode um pai proteger o filho da reprovação?
PRIMEIRO PROFESSOR
É justamente o que eu pergunto. A sombra de um pai poderoso assusta o povo lá de cima, como se a má índole de uma criança pudesse ser justificada pelo emprego do pai.
GUSTAVO
Deixá-lo-ão impune, portanto?
Deixá-lo-ão impune, portanto?
PRIMEIRO PROFESSOR
Sim, às custas do pobre asno que aceitou sua ajuda. Mas todos terão sua vez, minha caneta é justa. (Amassa uma prova e joga em direção a Gustavo.) Veja se isso é possível!
Sim, às custas do pobre asno que aceitou sua ajuda. Mas todos terão sua vez, minha caneta é justa. (Amassa uma prova e joga em direção a Gustavo.) Veja se isso é possível!
GUSTAVO
Deixe-me ver (pega a prova). “Casmurro traiu sim a Capitolina dá pra ver logo no começo da história porque ele é sério e isso significa culpa”. De quem é essa afronta?
Deixe-me ver (pega a prova). “Casmurro traiu sim a Capitolina dá pra ver logo no começo da história porque ele é sério e isso significa culpa”. De quem é essa afronta?
PRIMEIRO PROFESSOR
De um imbecil, o que acha?
De um imbecil, o que acha?
GUSTAVO
Não adianta perguntar, eu não sei.
Não adianta perguntar, eu não sei.
PRIMEIRO PROFESSOR
Este enorme imbecil, esta anta completa, se não a reconhece, é um tal de João não sei das quantas, garoto-problema, repetente, uma vergonha.
Este enorme imbecil, esta anta completa, se não a reconhece, é um tal de João não sei das quantas, garoto-problema, repetente, uma vergonha.
GUSTAVO
Ora, como ele pode falar assim? Estamos todos sujeitos ao erro, mesmo João, taciturno, com as mãos metidas nos bolsos do moletom… Somos gente! Se na grafia identifica a ignorância, devia corrigi-la, e não puni-la! Oh, João, pobre tolo, pobre tolo. Diga-me, Henrique…
Ora, como ele pode falar assim? Estamos todos sujeitos ao erro, mesmo João, taciturno, com as mãos metidas nos bolsos do moletom… Somos gente! Se na grafia identifica a ignorância, devia corrigi-la, e não puni-la! Oh, João, pobre tolo, pobre tolo. Diga-me, Henrique…
HENRIQUE
Digo. O quê?
Digo. O quê?
GUSTAVO
Estamos sozinhos com nossos erros, todos?
Estamos sozinhos com nossos erros, todos?
HENRIQUE
Sim, parece que sim.
GUSTAVO
E seremos punidos assim?
HENRIQUE
Uns mais, outros menos.
E seremos punidos assim?
HENRIQUE
Uns mais, outros menos.
GUSTAVO
Como somos fracos, Henrique! Se estamos sujeitos à queda, se mesmo Napoleão caiu de seu cavalo, como podemos continuar? As provas estão por toda parte, os juízes estão sempre prestes a entrar em cena e nos esmagar. A partida é perdida, sempre. Mas quieto, quieto – lá vem os diretores com o pobre asno que mandei à forca. Escondemo-nos!
Como somos fracos, Henrique! Se estamos sujeitos à queda, se mesmo Napoleão caiu de seu cavalo, como podemos continuar? As provas estão por toda parte, os juízes estão sempre prestes a entrar em cena e nos esmagar. A partida é perdida, sempre. Mas quieto, quieto – lá vem os diretores com o pobre asno que mandei à forca. Escondemo-nos!
(Saem.)
sábado, abril 16, 2011
conto de celular (:
Surpreendo um gnomo me espiando enquanto me dispo. Sorrio e pergunto se ele quer massagear as minhas costas. Excitadíssimo, ele goza no chão instantaneamente e explode numa fumaça roxa.
segunda-feira, abril 11, 2011
sábado, abril 09, 2011
1, 2, 3, 4
dansa dansa dansa
corpo corpo corpo
chão chão chão
dansa corpo chão
no chão
o corpo
dansa
corpo corpo corpo
chão chão chão
dansa corpo chão
no chão
o corpo
dansa
quarta-feira, abril 06, 2011
João Paulo Segundo.
P. Ah, escrever, escrever é viver, viver é escrever! Onde deito minha pena, os deleites deleitam e amamentam um mundo outro de posturas e possibilidades! Ah, mas quem vem aí?
J. Olá? Quem está à luz de velas?
P. (curvando-se sobre os papéis) Oh, parece-me que... João! Bom lhe ver aqui, amigo meu!
J. Ah, Paulo, que agradável surpresa. Que faz?
P. Não lhe interessa de verdade, coisas de um mundo outro.
J. É mesmo? Pois acabo de retornar de uma corrida no parque e mal sabe o que me aconteceu.
P. Não o sei, mesmo...
J. Pois...
P. Pois?
J. Pois que enquanto eu corria... Ora, conto-lhe, ainda que seu orgulho me esconda tudo! Estava eu correndo quando vi uma moça, veja bem, uma moça com as pernas de fora...
P. Fato bastante incomum nesses dias ensolarados.
J. Caída no chão, veja bem, as pernas descobertas pelo short e uma poça de sangue a seu lado!
P. E por quê?
J. Ora, me diga você! Por quê?
P. (desinclina-se de sobre os papéis, pondera com a caneta na mão) Oh, mundo, mundo, cruel mundo! Foi ela engolida por um automóvel?
J. Nada, nada!
P. Pois então que foi alvejada pela faca de um assaltante, ou, numa crise convulsa, caiu-se no chão, afetada pelos humores e amores de nosso tempo... Uma Werther de sua própria consciência, vertendo-lhe a alma o acesso nervoso súbito.
J. Lindo, lindo, porém falso, oh, muito falso!
P. Então o quê? Atiraram-lhe uma pedra, Madalena moderna sem Cristo a defendê-la?
J. Jesus que me livre, também não o foi.
P. Então o quê?
J. Que faz aí?
P. Eu?
J. Sim, você, ora, é claro!
P. Confabulo sobre a causa da queda da moça de shorts curtos, você bem o sabe.
J. E debaixo de seu braço, escondido o papel?... Escreve?
P. Ora, de que importa!
J. Tenho quase certeza que o ouvi louvando qualquer coisa. Passou a acreditar em Deus?
P. Sim, sempre acreditei com toda a força de meus cabelos.
J. Não use sua calvície como rota de fuga irônica! Escreve ou não escreve?
P. Escrevo.
J. Então bote aí, Paulo de Medeia, firule bem sua caligrafia: a moça dos shorts curtos não existe e você é um tolo.
P. (levanta-se, apontando a caneta ameaçadoramente para João) Quem, eu ou você?
J. Arre, reage rápido e infantil. Vá a merda, que vou ao mercado comprar queijo.
P. Passe bem, sofista!
J. Passe à merda, passe à merda!
J. Olá? Quem está à luz de velas?
P. (curvando-se sobre os papéis) Oh, parece-me que... João! Bom lhe ver aqui, amigo meu!
J. Ah, Paulo, que agradável surpresa. Que faz?
P. Não lhe interessa de verdade, coisas de um mundo outro.
J. É mesmo? Pois acabo de retornar de uma corrida no parque e mal sabe o que me aconteceu.
P. Não o sei, mesmo...
J. Pois...
P. Pois?
J. Pois que enquanto eu corria... Ora, conto-lhe, ainda que seu orgulho me esconda tudo! Estava eu correndo quando vi uma moça, veja bem, uma moça com as pernas de fora...
P. Fato bastante incomum nesses dias ensolarados.
J. Caída no chão, veja bem, as pernas descobertas pelo short e uma poça de sangue a seu lado!
P. E por quê?
J. Ora, me diga você! Por quê?
P. (desinclina-se de sobre os papéis, pondera com a caneta na mão) Oh, mundo, mundo, cruel mundo! Foi ela engolida por um automóvel?
J. Nada, nada!
P. Pois então que foi alvejada pela faca de um assaltante, ou, numa crise convulsa, caiu-se no chão, afetada pelos humores e amores de nosso tempo... Uma Werther de sua própria consciência, vertendo-lhe a alma o acesso nervoso súbito.
J. Lindo, lindo, porém falso, oh, muito falso!
P. Então o quê? Atiraram-lhe uma pedra, Madalena moderna sem Cristo a defendê-la?
J. Jesus que me livre, também não o foi.
P. Então o quê?
J. Que faz aí?
P. Eu?
J. Sim, você, ora, é claro!
P. Confabulo sobre a causa da queda da moça de shorts curtos, você bem o sabe.
J. E debaixo de seu braço, escondido o papel?... Escreve?
P. Ora, de que importa!
J. Tenho quase certeza que o ouvi louvando qualquer coisa. Passou a acreditar em Deus?
P. Sim, sempre acreditei com toda a força de meus cabelos.
J. Não use sua calvície como rota de fuga irônica! Escreve ou não escreve?
P. Escrevo.
J. Então bote aí, Paulo de Medeia, firule bem sua caligrafia: a moça dos shorts curtos não existe e você é um tolo.
P. (levanta-se, apontando a caneta ameaçadoramente para João) Quem, eu ou você?
J. Arre, reage rápido e infantil. Vá a merda, que vou ao mercado comprar queijo.
P. Passe bem, sofista!
J. Passe à merda, passe à merda!
terça-feira, abril 05, 2011
João Paulo.
J. O que é que você está fazendo aí?
P. Oh! Se eu lhe dissesse, se eu lhe dissesse...
J. O quê, mas o quê? O que esconde aí, debaixo dos braços, olhos desconfiados?
P. Meu amigo, meu companheiro, não posso lho dizer! Se o fizesse...
J. O que é, diga, diga!
P. Você já o pressente.
J. Não, o quê?
P. Se eu lhe dissesse...
J. Chega de se repetir, pelo amor de Deus.
P. Sim, concordo; por que quer saber?
J. Porque você esconde.
P. Por que eu escondo?
J. Como eu vou saber?
P. Vai saber.
J. Vou?
P. Vai, oh, claro que vai!
J. Então o quê? O que você está fazendo aí?
P. Por Deus, chega de se repetir!
J. Está vendo? É você! Você, que não quer me dar nada, só costura com as palavras.
P. Não costuro nada, como é cego.
J. Então...
P. Então?
J. Passar bem.
P. Passemos. Adeus!
P. Oh! Se eu lhe dissesse, se eu lhe dissesse...
J. O quê, mas o quê? O que esconde aí, debaixo dos braços, olhos desconfiados?
P. Meu amigo, meu companheiro, não posso lho dizer! Se o fizesse...
J. O que é, diga, diga!
P. Você já o pressente.
J. Não, o quê?
P. Se eu lhe dissesse...
J. Chega de se repetir, pelo amor de Deus.
P. Sim, concordo; por que quer saber?
J. Porque você esconde.
P. Por que eu escondo?
J. Como eu vou saber?
P. Vai saber.
J. Vou?
P. Vai, oh, claro que vai!
J. Então o quê? O que você está fazendo aí?
P. Por Deus, chega de se repetir!
J. Está vendo? É você! Você, que não quer me dar nada, só costura com as palavras.
P. Não costuro nada, como é cego.
J. Então...
P. Então?
J. Passar bem.
P. Passemos. Adeus!
segunda-feira, abril 04, 2011
quarta-feira, março 30, 2011
novela - parte 1
"Não queria que parecesse que eu estou querendo chamar atenção demais e eu mesmo acho um pouco imbecil fazer isso aqui, mas pensando bem – não tive tanto tempo assim pra pensar – achei que valeria a pena. Não vou escrever mais pra não soar mais melodramático ainda.
Estou com câncer. No intestino, principalmente, mas no fígado, no sangue, em tudo, mais ou menos. Acho que vocês entendem o que eu quero dizer.
Se vocês tiverem qualquer coisa pra resolver comigo, acho que é agora ou nunca. Não queria fazer um anúncio público, assim, virar fofoca grande num só segundo, mas é melhor do que virar fofoca pequena recheada de remorso das pessoas pra quem eu teria coragem de contar. Enfim, se tiverem o que dizer, me liguem.
Mas só se for alguma coisa de verdade. Não tô muito bem do humor".
Ele publicou a mensagem antes que desistisse. Reclinou-se com a cadeira, passou a encarar os volumes de Marcel Proust. O maior problema de morrer vai ser deixar isso tudo sem acabar, não os livros chatos do proust, mas tanta coisa indefinida, tanto chão que poderia ter sido mas não foi.
Ele já havia tido tempo para racionalizar as coisas e já inventava que seu medo não era da morte em si, mas de suas consequências. Porque a morte, não é mesmo? Recebeu uma mensagem no celular – "Sério?" "Sim, um café?" "Eu tô no trabalho" "Tudo bem, eu aguento até às dezenove" "é" "na sumaré, então?" "Sim." "Ok" – ele já sabia que seu irmão seria o primeiro a reagir abertamente à notícia, embora seus dois colegas aleatórios que curtiram seu status no facebook o deixassem um pouco mindfucked.
Deu tempo para um banho.
Mas eles curtiam o quê?
Outra mensagem no celular: "sério?", de um número desconhecido. Sério. Ele se vestiu, assegurou-se que estava com tudo que precisava e saiu. Assim que fechou atrás de si o portão do prédio, percebeu que não havia ninguém lá esperando-o sair do prédio, e mesmo as pessoas na rua o ignoravam ou o notavam como sempre. A Internet ainda não havia engolido todo o mundo, mas ele sabia que na faculdade seria diferente e que, de um jeito ou de outro, reconheceriam nele o condenado precoce que era.
Chega de exagerar tudo, e então, numa só caminhada, chegou ao café na Sumaré e se sentou do lado de fora, à espera do irmão. Pediu um expresso, acendeu um cigarro e se afundou na cadeira, observando a rua. Viu uma antiga colega do fundamental passando – muito feia, aliás, e um tanto burra – e riu de verdade, para fora. Mas ele se corrigiu logo, achando que podia estar fazendo o gênero risonho auto-irônico, maluquinho na depressão. Nada disso.
— Fumando?
— Sempre um gênio da observação, o senhor.
— Obrigado. Posso?
— Claro – oferece o cigarro e o assento – à vontade.
Ocuparam-se de acender o cigarro em dupla.
— Mas é verdade, mesmo?
— Mais verdade do que eu mesmo.
sábado, março 26, 2011
foto: Lara no cabeleireiro.
No centro da foto os olhões de Lara se vendo no espelho, olhos pintados e tudo bonito. Suas maçãs do rosto – já normalmente pronunciadas – indicam o começo de sorriso daqueles que se percebem fotografados e sentem prazer por isso. Preta&branca, como todas as outras da mesma série, analógica, cotidiana. O cabeleireiro ergue o cabelo de Lara dos dois lados, como se o examinasse, revelando suas orelhas e seus brincos discretos, o pescoço que, nesse contraste, tem uma poça de sombra em sua profundidade e uma alvura terrível em todo o resto. Só se mostra um pouco do avental que colocaram sobre ela. Como o cabeleireiro lhe puxa os cabelos, Lara tem o rosto levemente voltado para baixo, como uma predadora, deixando-o um pouco mais triangular, menos oval. A camisa do cabeleireiro, listrada, cria uma boa separação de figura e fundo. Desfocadas, no espelho – que possui dois riscos visíveis dividindo suas três partes – duas mulheres bem arrumadas se abraçam firmemente, provavelmente velhas conhecidas. Talvez uma delas esteja grávida, sempre é possível. No canto superior esquerdo, o ventilador de teto de madeira escura está desligado. Uma luz generosa, gorda e suave entra pelo mesmo lado esquerdo, banhando tudo e a todos. As sombras provavelmente eram muito mais suaves do que essas que se desenham no pescoço e no rosto de Lara, mas a fotografia é cheia dessas pequenas traições. Lara não era tão bonita assim, também, nem tão parecida com Anna Karina, mas essa foto as aproximava de forma incrível. A tesoura na mão do cabeleireiro, escondida entre as mechas dela, também não brilhava de jeito tão provocativo. Assim que se percebe a tesoura, a atenção se desloca dos lindos olhos de Lara para ela, não há jeito.
Mais importante de tudo, a foto ignora a minha presença, ignora a minha mão, ignora que fui eu quem pressionei o botão naquela hora, que esperei o abraço daquelas mulheres e o olhar de Lara.
Fotografar você sempre foi, para mim, uma espécie de morte.
domingo, março 20, 2011
fraco bem mais fraco do que eu faria
cafécafécafé cadê o café
alguém fez o café (eu não fiz o café então se tem café é porque fizeram café)
mas a dor de cabeça
a dor de cabeça é insistenteinsistente repetitiva
três dias já
será que é enxaqueca
mais café mais café mais café
(então se tem café é porque fizeram café)
quem fez o café
eu não sei
eu estava dormindo até agora há pouco
agora há pouco
cafécafécafé
lembro de alguém se mexendo ao meu lado
e se levantando
e tomando banho no banheiro
chuveiro vapor toalha
beijo suave no rosto
gotas de suor
dor de cabeça insistenteinsistente repetitiva
agora há pouco café
fraco bem mais fraco do que eu faria
se não fui eu quem fiz falta uma peça nesse guarda-roupa
negòcinho irradia da nuca até o meio da cabeça
dor de cabeça repetitivamente insistenteinsistente
(aiaiai mas se não fui eu só pode ter sido você)
mas você você é quem
qual delas
porque arrearrearre dor de cabeça e talvez
talvez
uma gotinha de álcool demais
e se mais café café café eu quisesse
teria que fazer e faço
três dias já dor de cabeça
mão medindo a febre
cabeça balançando cabeça latejando
não não não nada bem consigo
masmasmas pelo menos uma última noite então
tudo bem
mais ou menos isso não é
você mas você é quem
cheiros na cama cadê os cheiros na cama
cheiroscheiroscheiros só de café
dor de cabeça
impressão de que sim de que você disse sim
que nos deitamos e tudo mais
tudo mais
tudo mais
aí sono dorme
dor mimos
você café
eu cama
eu café
você rua
eu eu eu
queria lembrar porque
meu café está pronto
forte denso irregular
e seu café
fraco bem mais fraco do que eu faria
mas você é quem
dor de cabeça insistentemente repetitiva
falta uma peça nesse guarda-roupa
saudades suas
demais
mas você
você é quem
alguém fez o café (eu não fiz o café então se tem café é porque fizeram café)
mas a dor de cabeça
a dor de cabeça é insistenteinsistente repetitiva
três dias já
será que é enxaqueca
mais café mais café mais café
(então se tem café é porque fizeram café)
quem fez o café
eu não sei
eu estava dormindo até agora há pouco
agora há pouco
cafécafécafé
lembro de alguém se mexendo ao meu lado
e se levantando
e tomando banho no banheiro
chuveiro vapor toalha
beijo suave no rosto
gotas de suor
dor de cabeça insistenteinsistente repetitiva
agora há pouco café
fraco bem mais fraco do que eu faria
se não fui eu quem fiz falta uma peça nesse guarda-roupa
negòcinho irradia da nuca até o meio da cabeça
dor de cabeça repetitivamente insistenteinsistente
(aiaiai mas se não fui eu só pode ter sido você)
mas você você é quem
qual delas
porque arrearrearre dor de cabeça e talvez
talvez
uma gotinha de álcool demais
e se mais café café café eu quisesse
teria que fazer e faço
três dias já dor de cabeça
mão medindo a febre
cabeça balançando cabeça latejando
não não não nada bem consigo
masmasmas pelo menos uma última noite então
tudo bem
mais ou menos isso não é
você mas você é quem
cheiros na cama cadê os cheiros na cama
cheiroscheiroscheiros só de café
dor de cabeça
impressão de que sim de que você disse sim
que nos deitamos e tudo mais
tudo mais
tudo mais
aí sono dorme
dor mimos
você café
eu cama
eu café
você rua
eu eu eu
queria lembrar porque
meu café está pronto
forte denso irregular
e seu café
fraco bem mais fraco do que eu faria
mas você é quem
dor de cabeça insistentemente repetitiva
falta uma peça nesse guarda-roupa
saudades suas
demais
mas você
você é quem
quarta-feira, março 16, 2011
A nossa canção.
Célia disse que não aguentava mais aquela música tocando sem parar, e era verdade, aquilo não se fazia com ninguém.
– Eu não entendo porque a gente, porque agora, porque não dizem nada... – Eric desconfiava que talvez aquilo fosse apenas um golpe psicológico – Isso deve ser só um golpe psicológico
– Eu não entendo porque a gente, porque agora, porque não dizem nada... – Eric desconfiava que talvez aquilo fosse apenas um golpe psicológico – Isso deve ser só um golpe psicológico
solipsismo (passageiro)
um quarto vazio é um quarto vazio, ao menos até que você pense nele de outra forma. aí ele deixa de ser um quarto vazio, me parece. sim, eu sei, não é o pensamento mais brilhante do mundo, mas o mundo anda já brilhante demais.
domingo, março 13, 2011
quinta-feira, março 10, 2011
quarta-feira, março 09, 2011
Ata da reunião de ontem.
– O que me incomoda, dentre muitas outras coisas – dizia Rosbife – é que, numa situação dessas, o silêncio seja tão significativo. Não que o silêncio em si queira dizer qualquer coisa, mas enquanto eu escolho o que falar… Quando eu falo, no final das contas, parece que eu estava fazendo de propósito, o silêncio. Um intervalo calculado.
Rosbife, Catupiry e Mortadela ficaram quietos, deitados na cama improvisada no chão. Não sei quanto tempo foi.
– E não é calculado – emendou Rosbife –. Viu só? Pareceu de propósito.
Ficaram em silêncio.
***
Um pouco depois, começou o sexo.
sábado, março 05, 2011
rosa pink.
moça no vestido rosa
disse toda ponderosa
"fica bom em mim, o rosa?"
"fica, claro, sua gostosa!"
the lady, delight in pink
asked to me, while in think
'do you like on me, the pink?'
'well, 'f course, i'd love to sink
actually, i'm on the brink
of takn'off fabric & ink
get you closer 'fore you blink
make you mine with all my stink'
"o alvo da minha prosa
não sua roupa, até jeitosa
é sua bunda vultuosa
vem pra cá que a gente goza."
terça-feira, março 01, 2011
Mais um verão.
– Oh, eu não devia dizer, mas eu digo porque sou otário, mesmo: se eu quisesse eu te enganava, sabia? A senhora não sabe absolutamente porra nenhuma de carros, dá pra perceber isso pelo jeito que você olha pras coisas enquanto eu faço as coisas. Então se eu quisesse eu podia te dizer que o eixo frontal do transmissor secundário sofreu uma avaria severíssima e que agora ou você troca toda a serigrafia aqui no canto da xilogravura ou o carro nunca mais que vai andar, mesmo, e que o conserto é rápido porque tenho todas as peças aqui mas que tudo não sai por menos de 3 mil reais, ou eu podia te dizer logo que o problema é a embreagem, mesmo, coisa simples, mas que as peças e a crise, enfim, que tudo sairia por 3 mil, também, e daria no mesmo, pra mim, mas talvez você se convencesse mais no primeiro cenário do que no segundo. As pessoas gostam de um pouco de complicação, e a senhora, com todo respeito, não parece ser daquelas que iriam pro google procurar a tal xilografia da serragem, então ficaria tudo bem, mas uma pecinha assim custar 3 mil reais seria um absurdo. Mas seria tudo bem, porque você está com pressa ou coisa assim e você não vai usar seu seguro nem vai ter como sair daqui enquanto seu carro não ficar bom, então, senhora, você só poderia cair no meu papo, de um jeito ou de outro, mas, enfim, como você já deve ter percebido, o problema é só essa mangueirinha de nada aqui, cobro 50 reais porque eu também tô cheio dessas peças sobrando e não gosto de ver cliente pagando à toa por bobagem pequena, então você me dá cinquenta reais e eu faço o serviço e você segue adiante e eu fico aqui e ficamos por isso mesmo, igualzinho a antes de seu carro pifar e esquentar e dar um piripaque terrível e eu, bem, eu fico daquele jeito, com o coração partido de ver mais uma partindo, mais um probleminha menor que não custa nada e que num segundo está pronto, sabe? Então é isso? 50 reais e nunca mais nos vemos?
– Sim, por favor.
– Que bom, fez a escolha certa. Tchau!
***
O carro não funcionou. Na verdade, o motor todo havia se fundido num bloco sólido. As rodovias, todas interditadas pelas enxurradas terríveis, permaneceram assim por 3 semanas. No fim das contas, Tom – o cara da oficina – levou para a cama sua primeira cliente. Foram muito felizes nessas 3 semanas. Quando a enxurrada passou, Tom cedeu sua bicicleta a Natália – a senhora em questão, na verdade beirando seus 30 anos –, que pedalou o mais rápido que pôde rumo à capital. 3 dias depois, os ninjas chegaram à oficina de Tom, sentiram o cheiro de Natália por todo seu corpo e o estraçalharam.
– Sim, por favor.
– Que bom, fez a escolha certa. Tchau!
***
O carro não funcionou. Na verdade, o motor todo havia se fundido num bloco sólido. As rodovias, todas interditadas pelas enxurradas terríveis, permaneceram assim por 3 semanas. No fim das contas, Tom – o cara da oficina – levou para a cama sua primeira cliente. Foram muito felizes nessas 3 semanas. Quando a enxurrada passou, Tom cedeu sua bicicleta a Natália – a senhora em questão, na verdade beirando seus 30 anos –, que pedalou o mais rápido que pôde rumo à capital. 3 dias depois, os ninjas chegaram à oficina de Tom, sentiram o cheiro de Natália por todo seu corpo e o estraçalharam.
segunda-feira, fevereiro 21, 2011
domingo, fevereiro 20, 2011
Acordei.
texto recuperado de 05/02/07 – havia sido semiapagado por motivos que me escapam
Um dia, acordei onisciente. Logo percebi que era também onipotente e onipresente; ainda que estivesse deitado em minha cama, lá estava eu tomando café, lendo boa literatura em todas as línguas e fodendo a Bárbara. Gozei com Jéssica e levantei-me da cama.
Não havia porque ir ao trabalho, então vi a terra do espaço enquanto acabava definitivamente com velhas rixas no Oriente Médio no dia seguinte. A Camila realmente gostava de mim! Pensar que eu achava que me odiava; como a juventude é tola! Assisti atentamente a todos os filmes de Godard, então de Hitchcock, Truffaut, até o insignificante Meirelles e, enfim, de todos.
Descobri milhares de ótimos autores que por um ou outro motivo fracassaram quando tentaram entrar em contato com o público. Fiz com que as grandes lendas vivessem outras histórias para que Eu pudesse ler todas as obras possíveis e impossíveis, mas possíveis por mim. Quando me cansei disso, comecei a ler todas as obras possíveis em todos os alfabetos e línguas inexistentes e existentes.
Num deles, talvez o primeiro, talvez o último, em ximinenisteuco, li: “Por que Você se contenta em só saber e fazer o que você presta atenção hem? Você só está aonde pensa estar, mas poderia estar em todos os lugares fazendo tudo realmente percebendo o que acontece e livrandose enfin de suas ultimas amarras humanas, tornandose Deus de verdad”. *
Parei para pensar no que li, ignorando os erros ortográficos e gramaticais. Como não pensei “O que acontecerá?” e sim “Será que valerá a pena?”, soube que valeria, sim, e fui eu mesmo e meu saber infinito que dissemos isso.
Quando eu desliguei meus limites conscientes e abracei tudo que foi, é, será e seria, deixei de existir.
* “Pratzka pun Pretzka Pá prontka prin prevka Prok Preken. Praktakun prenken, prenken Protz Pron Prek pranken proker prun prun Prek, Praratkan prekten Prakon”, no original.
Quando eu desliguei meus limites conscientes e abracei tudo que foi, é, será e seria, deixei de existir.
* “Pratzka pun Pretzka Pá prontka prin prevka Prok Preken. Praktakun prenken, prenken Protz Pron Prek pranken proker prun prun Prek, Praratkan prekten Prakon”, no original.
Progressivo.
texto recuperado de 19/04/07 – havia sido semiapagado por motivos que me escapam
Há algum tempo, o jovem cientista, vestido em seu novíssimo jaleco branco e com um sorriso triunfante no rosto, falou ao povo:
– Eu sou o Progresso! Represento o avanço da Humanidade! Garanto que transformarei nossa sociedade em algo melhor!
O operário aplaudiu, abaixou a cabeça e voltou ao trabalho corriqueiro. O cientista, ao cessar dos aplausos, virou as costas para o povo e trancafiou-se em seu laboratório.
Neste meio tempo surgiram a eletricidade, os carros motorizados, as linhas de produção, a especialização do trabalho, a jornada de catorze horas, as melhorias na medicina, a jornada de dez horas, as máquinas que ajudavam, as máquinas que tiravam os empregos, as armas automáticas, o avião, as bombas, as sementes selecionadas, todo tipo de combustível dando energia, todo tipo de combustível destruindo a terra, a bomba atômica, os agentes químicos, mais avanços na medicina, carros mais velozes, robôs ajudando, robôs roubando empregos, fastfood, nofood, manipulações genéticas, plantas transgênicas, clonagem, bomba Y, nanorobôs curando, carros mais velozes, comida em pílulas, a Grande Guerra, os montadores montavam. O minerador minerava, o ferreiro martelava e o operário suava.
Porém, quando o operário voltava para casa após um árduo dia de trabalho, muito desgastado e cansado, andando vagarosamente pelas ruínas de seu antigo bairro, avistou com o olhar pesado uma pessoa vestida de branco no topo do que fora um prédio. Assustado, começou a escalar as paredes que outrora estiveram na vertical, mas que agora eram apenas rampas muito declinadas, apoiando-se nas rachaduras, galgando, insistentemente, a montanha de concreto até o topo.
Aproximou-se do jovem vestido com jaleco branco com cuidado. Arfava, pois já era velho e alquebrado, enquanto o outro estava na flor da juventude, talvez o único naquele mundo que ainda possuía roupas limpas.
– Quem és tu?– disse o operário – Quem és tu que observas a nossa destruição?
O jovem, que até então olhava para o outro lado, virou-se e fitou curioso o rosto do operário. Como se notasse algo no semblante do velho, abriu um sorriso, ergueu as mãos e gritou:
– Eu sou o Progresso! Represento o avanço da Humanidade! Garanto que transformarei nossa sociedade em algo melhor!
O operário aplaudiu, abaixou a cabeça e começou a ir embora. O cientista, ao cessar dos aplausos, virou as costas para o outro e trancafiou-se em si mesmo.
Então, também como se notasse algo, o operário parou seu andar conformado, deu meia-volta e observou a maravilhosa figura do cientista; notou que era o cientista de outrora, que era exatamente o mesmo, que traria cada vez mais progresso. O operário, então, correu até o cientista e o empurrou de cima do prédio. Embora a altura não fosse sequer metade da que o colosso apresentara quando ainda dominava os céus, foi suficiente para manchar o jaleco de vermelho e acabar com seu sorriso.
– Dorme bem agora, Progresso, pois tu nunca trouxeste nada de bom para mim.
sábado, fevereiro 19, 2011
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
terça-feira, fevereiro 15, 2011
anotações de uma viagem – curta – de ônibus.
Sento, como sempre que consigo, na última fileira, numa das poltronas altas em que minha cara pode ficar um pouquinho para fora da janela. Resolvo olhar as coisas, ao invés de ler (para fora, ao invés de para dentro).
Ônibus vazio, uma moça está sentada nos outros bancos altos – os de cima das rodas –, também junto à janela. Se diretamente só vejo seu cabelo liso-e-um-pouco-bagunçado, posso ver seus olhos e sua testa e um pouco de seu nariz no reflexo. Testa e olhos e nariz bonitos, ainda que o último um pouco masculino, não sei, em degrau. Encarava com intensidade o lado de fora.
Um pouco de sua boca se revelou e ela falava com alguém ao celular. Não havia percebido antes, porque de costas, mas em uma das idas e vindas do rosto dela viu que era óbvio que falava com alguém. Um pouco de irritação no jeito de mover os lábios? Preocupação. Parecia um pouco falar com o namorado, discutir algo cotidiano sem dar tanta atenção, sem se importar demais.
Lá do lado de fora, uma menina – no jeito de ser, ao menos – dançava balançando a cabeça dentro de um carro, dirigindo. Divertido. Uma de meia-idade corria com seu pinscher, bem mais em forma que ela.
Desço para a frente do ônibus antes de meu ponto, para ver a moça de frente. Mais feia – ou, ao menos, aparentemente mais desgastada – do que havia visto e imaginado, fones de ouvido, cantando sem soltar som junto à música. Nada de celular. Mais ou menos triste?
Ônibus vazio, uma moça está sentada nos outros bancos altos – os de cima das rodas –, também junto à janela. Se diretamente só vejo seu cabelo liso-e-um-pouco-bagunçado, posso ver seus olhos e sua testa e um pouco de seu nariz no reflexo. Testa e olhos e nariz bonitos, ainda que o último um pouco masculino, não sei, em degrau. Encarava com intensidade o lado de fora.
Um pouco de sua boca se revelou e ela falava com alguém ao celular. Não havia percebido antes, porque de costas, mas em uma das idas e vindas do rosto dela viu que era óbvio que falava com alguém. Um pouco de irritação no jeito de mover os lábios? Preocupação. Parecia um pouco falar com o namorado, discutir algo cotidiano sem dar tanta atenção, sem se importar demais.
Lá do lado de fora, uma menina – no jeito de ser, ao menos – dançava balançando a cabeça dentro de um carro, dirigindo. Divertido. Uma de meia-idade corria com seu pinscher, bem mais em forma que ela.
Desço para a frente do ônibus antes de meu ponto, para ver a moça de frente. Mais feia – ou, ao menos, aparentemente mais desgastada – do que havia visto e imaginado, fones de ouvido, cantando sem soltar som junto à música. Nada de celular. Mais ou menos triste?
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