1.
O cinema é uma máquina de criar realidades, no sentido que o real é determinado pelas histórias, que o relato cria realidade. Assim, metonimicamente, o cinema é realidade - ou, se formos mais ambiciosos, a realidade é cinema.
2.
O roteiro critica a realidade.
A filmagem critica o roteiro.
A edição critica a filmagem.
Ou seja: o próprio processo de produção de um filme deve ser dialético, ou, se aproximando dos conceitos de Eisenstein, deve ser uma montagem de atrações.
3.
Um filme deve ser suficientemente aberto para necessitar do máximo de trabalho por parte de seus espectadores, ou seja, os espectadores devem ser ativos, ou seja, o filme é construído na cabeça das pessoas e nunca independe delas. No entanto, um filme aberto demais (não) permite qualquer leitura e, portanto, não diz nada. Gandhi nunca afirmou isso, mas seria engraçado se o fizesse.
quarta-feira, março 04, 2009
domingo, março 01, 2009
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
domingo, fevereiro 01, 2009
Ares da graça: artista.
E, neste momento, tudo que eu posso fazer é xingar interiormente o meu agente por ter me feito aceitar uma coisa dessas, estar de pé ao lado do Faustão enquanto um telão me mostra meus pais sorrindo - hipócritas - e dizendo - hipócritas - o quanto admiram meu trabalho e o quanto me deram apoio. Sorrio e balanço a cabeça, Claro que sim, não é? O mais importante para um homem são os pais, acho que só sou o que sou hoje por causa deles, Brigado, pais! Quem-sabe faz ao vivo, acho, e o Faustão felizmente me salva da minha fala e fala por cima de mim, apresenta mais meia-dúzia de gente que eu tinha esquecido totalmente (é mentira minha) e que realmente me emociona (que coisa, é ruim emocionar-se com a apelação), e não tem nada a ver com o conteúdo de tudo aquilo, que é pura burguesia idiota e "Olha como eu venci na vida!", mas sim porque há tanta coisa por trás daquele olhar direto para a câmera e o sorriso levemente abestalhado desse pessoal que nunca foi filmado antes e que deve parecer bonito e simpático para o público e que responde às perguntas mágicas do entrevistador com o máximo de precisão e em três tomadas. Isto é: Pedro Rocha conta sobre as nossas brigas de infância, mas o que interessa (e que ele nunca vai dizer em público) é que ele roubou todas as minhas namoradas até os 19 anos e que nossa amizade sempre foi fundada puramente no ódio (embora este fosse certamente da melhor qualidade); já beijei Agnaldo na boca, também todas as outras experiências heterodoxas de mi vida foram com ele, e isso inclui também a única vez que matei um mamífero de propósito, enfim, que sea; Maria Maria diz tudo de bom e certo sobre mim, mas o que ela fez a vida inteira foi me esnobar e me chutar, até o dia em que tudo isso de artista da Globo começou e nossa amizade se transformou em algo, e, enquanto ela fala, só consigo prestar atenção na boca que finalmente me.
E então aparece a imagem de Sofia e e e e e e eu não sei bem e e e ela diz que me ama muito e e e e e e e e ela conta da nossa lua-de-mel em Parati e e eu olho de esguelha para Faustão e e e e não há onde me esconder e e e e e as dançarinas me flanqueiam a volta e e e e e e o público (o pequeno, não o de todas as tevês ociosas de domingo. Aliás! Inclua esse público também na minha informação e estará tudo nas devidas dimensões) me encara e e e e ela me manda um beijo e eu a encaro os olhos no telão e e e e ela sorri vagamente e e eu olho de esguelha para Faustão e ele olha para mim e e e eu abro a boca e e ele pergunta alguma coisa que eu não sei entender e e e e e e e e e e e eu acho que meu ar não e e e ele olha-me fundo-duro e e eu Mas... e e e e e e ele parece efetivamente preocupado e e a produção parece que e e e e e Ela... Como que vocês? e e e e e e e aparecem pessoas a minha volta e me agarram os cotovelos e e o público provavelmente se deleita com o espetáculo e e e e e e e as lágrimas e e Eu... Vocês... e e e o Faustão chama os comerciais e e e e e e e e e eu De onde vocês tiraram Sofia? e e e e ninguém parece me entender e se bem que eu também não os entendo e e e e e o Faustão pergunta se está tudo bem e e e e e e eu digo Ela está morta.
E então aparece a imagem de Sofia e e e e e e eu não sei bem e e e ela diz que me ama muito e e e e e e e e ela conta da nossa lua-de-mel em Parati e e eu olho de esguelha para Faustão e e e e não há onde me esconder e e e e e as dançarinas me flanqueiam a volta e e e e e e o público (o pequeno, não o de todas as tevês ociosas de domingo. Aliás! Inclua esse público também na minha informação e estará tudo nas devidas dimensões) me encara e e e e ela me manda um beijo e eu a encaro os olhos no telão e e e e ela sorri vagamente e e eu olho de esguelha para Faustão e ele olha para mim e e e eu abro a boca e e ele pergunta alguma coisa que eu não sei entender e e e e e e e e e e e eu acho que meu ar não e e e ele olha-me fundo-duro e e eu Mas... e e e e e e ele parece efetivamente preocupado e e a produção parece que e e e e e Ela... Como que vocês? e e e e e e e aparecem pessoas a minha volta e me agarram os cotovelos e e o público provavelmente se deleita com o espetáculo e e e e e e e as lágrimas e e Eu... Vocês... e e e o Faustão chama os comerciais e e e e e e e e e eu De onde vocês tiraram Sofia? e e e e ninguém parece me entender e se bem que eu também não os entendo e e e e e o Faustão pergunta se está tudo bem e e e e e e eu digo Ela está morta.
sábado, janeiro 17, 2009
Polilara.
Lara tinha 9 anos quando sentiu o pedaço de carne em sua boca pulsando e VIVO, ora, e sua garganta se fechou e não foi capaz de engolir. Correu para o banheiro e cuspiu na privada tudo que tinha na boca — a língua, quase —, também vomitou.
Quando explicava o porquê de seu vegetarianismo, caçoavam da história — “Quer dizer que você é das que cospem?”, “Você não gosta quando a coisa pulsa na sua boca?” — ou chamavam-na de alienada, pois faltavam razões políticas, enfim.
Uma vez, Lara disse:
— Foda-se.
***
LARA
Ah... Quando eu tinha uns nove anos, eu tava comendo um bife, acho, e aí eu comecei a... sei lá, eu tava mastigando e eu senti o negócio VIVO, sei lá, PULSANDO. Aí eu não aguentei e fui cuspir e vomitei tudo.
ALGUÉM
Na mesa?
LARA
Não, eu comecei a ficar enjoada e corri pro banheiro.
ALGUÉM
Então você é do tipo que cospe? Você não gosta quando pulsa na boca?
(ri sozinho)
Mas, sério; quer dizer que você não come carne só porque tem NOJO?
LARA
Você acha pouco?
Lara se ajeita na cadeira.
ALGUÉM
Não, é só que... e as implicações éticas? Esse papo de indústria da carne e tudo mais?
Lara puxa o copo com COCA-COLA, pega o canudinho e o coloca na boca, suga um pouco, olha para Alguém.
LARA
Foda-se isso tudo.
***
Viva, ela é pulsante
a carne eu cuspo, sim; sim
eu sou dessas, mesmo.
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Um conto escrito às pressas numa LANHouse (Córrego Fundo - MG)
(ou então: ménage ³)
Virgínia veio valente
Pato partiu potente
Nanda nunca namorou
Gabi garante: gozou.
Virgínia veio valente
Pato partiu potente
Nanda nunca namorou
Gabi garante: gozou.
domingo, janeiro 04, 2009
Cheiro de novo de novo.
O que que é o novo? O que que é o ano? O que que é o novo ano? O que que é o ano novo?
Essas perguntas sempre atormentam meu sono, e aí eu trago pra vocês meus caros leitores: como a gente pode dizer que um ano acabou se é tudo só convenção que a gente inventa? Quer dizer, eu invento que o ano acabou e por isso acabou?
Ah, meus caros leitores, eu acho isso tudo muito complicado e chega a ser difícil falar sobre isso. Eu não gosto do ano novo, porque ele é BRANCO e eu prefiro o negro. Eu me sinto sozinho no branco.
Cada ano trás um monte de promessas novas, não é? Já fez as suas? Eu já tenho tanta promessa atrasada que esse ano eu não fiz nenhuma, só tenho que cumprir as dos anos passados que já tá ótimo.
Bom, é isso aí, vou viver meus anos aqui e boa sorte pra vocês!
P.S.: Gente, eu tô lendo um livro do Bradubruy que chama "Fahrenheit 451". Imaginem um futuro em que os livros são proibidos e que eles são queimados pelos chamados "bombeiros". Assustador, não é? Acabam os bons sentimentos, o conhecimento, a prosódia, a poesia e tudo mais e os homens viram robôs sem coração. Caros leitores, recomendo do fundo de meu coração, é MUITO melghor que o FILME.
Essas perguntas sempre atormentam meu sono, e aí eu trago pra vocês meus caros leitores: como a gente pode dizer que um ano acabou se é tudo só convenção que a gente inventa? Quer dizer, eu invento que o ano acabou e por isso acabou?
Ah, meus caros leitores, eu acho isso tudo muito complicado e chega a ser difícil falar sobre isso. Eu não gosto do ano novo, porque ele é BRANCO e eu prefiro o negro. Eu me sinto sozinho no branco.
Cada ano trás um monte de promessas novas, não é? Já fez as suas? Eu já tenho tanta promessa atrasada que esse ano eu não fiz nenhuma, só tenho que cumprir as dos anos passados que já tá ótimo.
Bom, é isso aí, vou viver meus anos aqui e boa sorte pra vocês!
P.S.: Gente, eu tô lendo um livro do Bradubruy que chama "Fahrenheit 451". Imaginem um futuro em que os livros são proibidos e que eles são queimados pelos chamados "bombeiros". Assustador, não é? Acabam os bons sentimentos, o conhecimento, a prosódia, a poesia e tudo mais e os homens viram robôs sem coração. Caros leitores, recomendo do fundo de meu coração, é MUITO melghor que o FILME.
segunda-feira, dezembro 29, 2008
parte: um leão morde a própria orelha num show de mágica
Marcos a olhava nos olhos e sorria, ela, idem; mãos dadas os dois num pequeno banco de praça de um parque vazio na manhã mais fria do ano de 2008. Já eram um ou dois meses? Foram bons e verdadeiros, cada vez os abraços mais fortes e mais inteiros e entreguistas (cada vez mais nus), ele também a tocava, agora, os jogos eram mútuos e seguros e sempre em frente, ‘Eu te amo, Marcos’. Marcos abriu a boca e desviou os olhos.
parte: um pequeno leão encontra seu verdadeiro dono
Ele estava com a garota a primeira vez, no abraço ele já percebera alguma coisa nela e em suas intenções, sentira como ela o tocava de corpo inteiro, como era um abraço completo e quase já entreguista logo no primeiro encontro, no primeiro beijo no rosto e quando o apresentaram como Marcos à garota loira e ela sorrira e dissera que era mentira, que o nome dele era Leãozinho, por causa dos olhos dele que a olhavam nos olhos, mas de esguelha, de soslaio, de indireto; riram todos, e ele sentira o orgulho fervilhando diferentemente. Não era de Leão, mas e daí?
parte: um leão é sempre um rei
Marcos a segurava pelos cabelos quando fazia por trás, sussurrava alguma coisa quando estava quase lá; alguma coisa era sempre ‘eu te amo’. Nunca nos olhos dela, nunca.
parte: sozinho
Marcos tomava um milkshake e pensava como havia gente bonita no mundo, apesar de tudo.
terça-feira, dezembro 23, 2008
Retirada.
Sei que é perda de tempo, mas ganho tempo – ao mesmo tempo – falando, por que não?, sobre o tempo. Você me quer entre suas pernas; pena, não desejo nada seu, minhas tropas recuam cuidadosamente enquanto menciono o calor absurdo – este Sol ainda me fará matar alguém, juro! – e tento ignorar seus olhos de vanguarda. Fuzis apontados entre minhas sobrancelhas, e eu, sobranceiro, discorrendo sobre nuvens pesadas e assustadoras.
Já alcancei a primeira trincheira, nos escondemos atrás de sacos de areia com as metralhadoras à mão, agora tenho confiança suficiente para fitar-lhe o rosto como um amigo, apenas um amigo, amigavelmente cedo-lhe o tempo de falar. Seus soldados estão estacionados, você apenas concorda com tudo que eu disse – o aquecimento global é um horror, e assim vai –, então também se cala.
Minha fuga alcança os navios, todo o meu exército em retirada nas docas: voltaremos para nosso país; derrotados, mas livres. Está tão quente, você diz, que nós, seus aviões decolam, poderíamos, vejo-os claramente no horizonte, tomar um banho, eles vêm ao meu cais, juntos, as bombas em queda-livre, meu amor, a morte.
domingo, dezembro 21, 2008
A república dos cabaços!
Dia 20 de dezembro de 2008 me senti de-repente muito sozinho nesse mundo das artes-internéticas; não que não haja gente por cujo trabalho me interesso, só que era cada um no seu canto e as distâncias aqui são virtualmente infinitas.
Surgiu-me uma epifania e aí percebi que eu tinha a resposta. Ou podia ter, era só colocar a mão na massa.
Pois bem, dia 21 de dezembro (a madrugada pós-20 de dezembro), fiz algo por mim e pelo mundo. É um pequeno ato, mas talvez seja grandioso:
Um blogue que alcança todas as artes e que é um contingente infinito:
A república dos cabaços!
Surgiu-me uma epifania e aí percebi que eu tinha a resposta. Ou podia ter, era só colocar a mão na massa.
Pois bem, dia 21 de dezembro (a madrugada pós-20 de dezembro), fiz algo por mim e pelo mundo. É um pequeno ato, mas talvez seja grandioso:
Um blogue que alcança todas as artes e que é um contingente infinito:
A república dos cabaços!
sexta-feira, dezembro 19, 2008
quinta-feira, dezembro 18, 2008
Lara vista por um homem que gosta de mulheres e que as "segue" com o olhar (uma espécie de relação metonímica com o olho móvel; ainda mais uma).
E então, conforme eu descia as escadas para o metrô, percebi do outro lado (nas outras escadas, nas rolantes) uma mulher apoiada no paramão com o cotovelo esquerdo, a mão no queixo, o olhar levemente perdido (como quem anda de trem e vê o mundo passar) e azul. Caía bem com os cabelos pretos e curtos (não é todo azul que cai bem com preto, sem preconceitos, é claro), e seu rosto era lindo em sua branquitude e junto com a camisa xadrez de tons escuros e quentes: mais uma pessoa da Paulista, mas tão hipnotizante que deve receber esses olhares sempre, não sei; me percebeu a mirá-la, me olhou firme e eu me desviei para a pessoa feia (sua nuca era ordinária) que descia as escadas à minha frente, me desviei para meu mal-estar, para a dúvida sobre seu olhar e para um pouco de pé no chão. Mas ela ainda estava subindo, eu ainda estava descendo, ela ainda estava me olhando daquele jeito que eu posso fingir que era indagador ou que era solitário, provavelmente só era um olhar, enquanto o meu... estava de volta nela (só que ela de costas), e ela carregava uma mochila-bolsa preta e parecia mesmo angustiada quando vista por trás.
Um homem nunca pode olhar demais para trás, e então estava no metrô.
terça-feira, dezembro 16, 2008
e, ainda assim, vocês olham pra cima.
o céu estava nuvens rápidas lua branca e luminosa o céu estava difuso refletido no chão sem história para nuvens rápidas lua branca e cheia o céu estava refletido no chão sem sombras para contar sem céu sem vermelho nuvens rápidas lua branca isqueiro refletido no chão lua branca e azul na grama sem história e sombras sem céus nem vermelho nem história para o céu estava sem nuvens muito rápidas passaram noite clara e luminosa cheia o céu estava refletido duro no chão com sombras para contar sem céu sem vermelho as nuvens rápidas isqueiro refletido no chão a luz estava pouca tão bonita refletida no chão
sexta-feira, dezembro 05, 2008
Das responsabilidades de um Homem Maduro.
O H O M E M D I S S E A
M E N I N A C H U P A O
P I N T O U P E R D E A
VIDA.
M E N I N A C H U P A O
P I N T O U P E R D E A
VIDA.
segunda-feira, dezembro 01, 2008
autos e baixos (conjunto involuntário surrealista).
você e eu e todos nós estávamos a favor de stálin, o do
[time azul
você derrubou a macarronada e sujou minha cozinha
a bola sempre cai e faz a maior sujeira na
[cesta.
a máscara sempre cai e faz a maiorsujeira na cara
quer ir a uma mostra de cinema africano?
[time azul
você derrubou a macarronada e sujou minha cozinha
a bola sempre cai e faz a maior sujeira na
[cesta.
a máscara sempre cai e faz a maiorsujeira na cara
quer ir a uma mostra de cinema africano?
sexta-feira, novembro 28, 2008
Hedonismo (é uma palavratabu).
E daí se eu tiro fotos minhas nua e coloco na Internet com minha carinha aparecendo e qualquer coisa escrita no meu corpo pra saberem que eu sou eu mesma?
tá cheio de homem por aí que finge que é menina e engana alguns outros homens e às vezes até alguma menina se passando por homem, hoje em dia nunca se sabe
Eu nunca me passaria por homem.
E daí se talvez algum dia me descubram e eu perca meu emprego (ainda não tenho emprego
não preciso ter emprego nenhum, sou inútil
Me protejo sob a 'adolescência'?
) e a 'humilhação pública'? Eu me orgulho de meu corpo, eu sei que sou mais bonita que todas elas juntas e que homens irão se masturbar comigo e que eu deixo as pessoas simplesmente malucas.
Cultuam-me.
Acho que o mundo inteiro é hipócrita.
e daí que fortaleço o machismo desse bando de gente sem a menor auto-estima, e daí que a punheta é a única coisa na vida deles
E você não vê problema na moça na Playboy, vê? A diferença é que eu não ganho dinheiro com isso.
eu sou cultuada
Me respeite.
Não é? Não estou fazendo algo de bom? O exibicionismo não é tudo que há hoje em dia?
quando me encosto na janela sem roupa acaba a sensação de vazio e aí percebo que é também comunicação
Eu sou menor que você?
domingo, novembro 23, 2008
Spring
Era uma bela vista. Sempre quisera parar por ali, sentar e admirar a paisagem. Nunca, porém, tivera a oportunidade - nunca até aquele dia. "Esqueceu-se" de todos os compromissos, ignorou os toques de sua entediante companheira e correu para o mirante, a fim de satisfazer sua tão reprimida vontade. Debruçou-se no parapeito e pôs-se a contemplar a angulosa paisagem, suas irritações sumindo por trás do horizonte junto do sol. Num pulo, sentou-se onde antes seus braços estavam apoiados; o livre - balançar de suas pernas, assim como os olhos fechados, muito contribuía no sucesso de sua pequena escapada. Estava, finalmente, relaxado.
"Vamos, coragem."
Abriu os olhos e voltou-se para trás: um senhor examinava-o, interessado. Mantinha-se longe, mas aproximava-se, lenta e senoidicamente. Sem entender a intenção daquela pessoa (e sem querer entendê-la), o rapaz cerrou os olhos novamente e voltou a esquecer-se no pôr-do-sol; custara muito a conseguir aquela fuga para deixar-se perturbar tão facilmente.
"Você consegue."
Olhou para trás novamente: o senhor parara. Perto dele, porém, começavam a juntar-se algumas pessoas. O senhor demonstrava grande interesse pelo rapaz; as pessoas, naturalmente curiosas, assistiam à cena.
"Vai lá!"
As pessoas assistiam a cena. O interesse espalhara-se; todos queriam estimular o rapaz – a quê, ele não sabia. Perplexo com toda aquela situação, voltou a olhar a paisagem. Mas era impossível ignorar o que acontecia atrás dele. A multidão crescia e aproximava-se; mais e mais pessoas encorajavam-no a fazer aquilo que esperavam que ele fizesse.
"Não me decepcione!"
Decepcionar? Em quê‽ O que querem que eu faça? Isso começava a assustá-lo. O rapaz girou o corpo, a fim de descer do parapeito. As pessoas, já bem próximas, mostraram um quê de irritação.
"Não vamos deixar que você desista!"
Estavam interessadas demais no rapaz, no que ele faria ou deixaria de fazer. O que significava aquilo, afinal? Aprende-se desde pequeno que não se deve mostrar interesse por estranhos – deve-se cuspir, esbarrar e desprezar. E, claro, desculpar-se depois, sorrindo. Mas devo estar fazendo algo muito certo para merecer isso: motivavam-no, aplaudiam-no, admiravam-no, apaixonadas.
"Nada disso, meu filho."
Mesmo entre toda aquela gente, o senhor realmente se destacava: tinha no rapaz um interesse especial, que não conseguia se definir entre carinho e compaixão, mas que chegava a ser até inspirador; olhava para ele como se olha para um namorado, ou para um doente terminal.
"Filho, sabemos como você se sente, como você teve de abrir mão de tudo, deixar tudo para trás para vir até aqui. Sabemos que você estava desesperado, e que não tinha escolha. Compartilhamos seu sentimento, e, se não estamos com você, é por covardia e não sabedoria. Mas não é por esse motivo que vamos deixar que você desista de fazer o que está aqui para fazer. Tudo de que você precisa é uma pequena força."
Agora, isso sim era um alívio. Não sei o que eles querem, e eles compartilham meu sentimento! O rapaz resolveu que era melhor tentar voltar-se para o que restava de pôr-do-sol e recuperar sua pequena escapada. Mas era impossível: apesar de seus esforços para ignorá-lo, o quê solidificara-se, estabelecera-se, ganhara força. As pessoas estavam determinadas a encorajar o rapaz até o fim, até que ele fizesse o que elas estavam ali para vê-lo fazer. Ao ver que ele talvez não o fizesse, elas enraiveceram-se. O senhor estava particularmente desapontado – tinha grande esperança no rapaz.
O rapaz estava, sem qualquer brilho de dúvida, condenado: ou fazia de vez o que queriam que ele fizesse, ou fazia de vez o que queriam que ele fizesse. Mas era improvável que ele descobrisse o que queriam dele; logo, seria forçado a fazê-lo. E nada jamais apagaria de sua memória a expectativarrevoltadecepção estampada no rosto daquelas pessoas.
Insinuo-me então no mirante, por entre a multidão, chego mais perto que o senhor, que começara o que ali acontecia; empurro o rapaz pelas costas, dou a ele a força de que precisava, e o livro de sua vergonha.
Aplausos.
"Vamos, coragem."
Abriu os olhos e voltou-se para trás: um senhor examinava-o, interessado. Mantinha-se longe, mas aproximava-se, lenta e senoidicamente. Sem entender a intenção daquela pessoa (e sem querer entendê-la), o rapaz cerrou os olhos novamente e voltou a esquecer-se no pôr-do-sol; custara muito a conseguir aquela fuga para deixar-se perturbar tão facilmente.
"Você consegue."
Olhou para trás novamente: o senhor parara. Perto dele, porém, começavam a juntar-se algumas pessoas. O senhor demonstrava grande interesse pelo rapaz; as pessoas, naturalmente curiosas, assistiam à cena.
"Vai lá!"
As pessoas assistiam a cena. O interesse espalhara-se; todos queriam estimular o rapaz – a quê, ele não sabia. Perplexo com toda aquela situação, voltou a olhar a paisagem. Mas era impossível ignorar o que acontecia atrás dele. A multidão crescia e aproximava-se; mais e mais pessoas encorajavam-no a fazer aquilo que esperavam que ele fizesse.
"Não me decepcione!"
Decepcionar? Em quê‽ O que querem que eu faça? Isso começava a assustá-lo. O rapaz girou o corpo, a fim de descer do parapeito. As pessoas, já bem próximas, mostraram um quê de irritação.
"Não vamos deixar que você desista!"
Estavam interessadas demais no rapaz, no que ele faria ou deixaria de fazer. O que significava aquilo, afinal? Aprende-se desde pequeno que não se deve mostrar interesse por estranhos – deve-se cuspir, esbarrar e desprezar. E, claro, desculpar-se depois, sorrindo. Mas devo estar fazendo algo muito certo para merecer isso: motivavam-no, aplaudiam-no, admiravam-no, apaixonadas.
"Nada disso, meu filho."
Mesmo entre toda aquela gente, o senhor realmente se destacava: tinha no rapaz um interesse especial, que não conseguia se definir entre carinho e compaixão, mas que chegava a ser até inspirador; olhava para ele como se olha para um namorado, ou para um doente terminal.
"Filho, sabemos como você se sente, como você teve de abrir mão de tudo, deixar tudo para trás para vir até aqui. Sabemos que você estava desesperado, e que não tinha escolha. Compartilhamos seu sentimento, e, se não estamos com você, é por covardia e não sabedoria. Mas não é por esse motivo que vamos deixar que você desista de fazer o que está aqui para fazer. Tudo de que você precisa é uma pequena força."
Agora, isso sim era um alívio. Não sei o que eles querem, e eles compartilham meu sentimento! O rapaz resolveu que era melhor tentar voltar-se para o que restava de pôr-do-sol e recuperar sua pequena escapada. Mas era impossível: apesar de seus esforços para ignorá-lo, o quê solidificara-se, estabelecera-se, ganhara força. As pessoas estavam determinadas a encorajar o rapaz até o fim, até que ele fizesse o que elas estavam ali para vê-lo fazer. Ao ver que ele talvez não o fizesse, elas enraiveceram-se. O senhor estava particularmente desapontado – tinha grande esperança no rapaz.
O rapaz estava, sem qualquer brilho de dúvida, condenado: ou fazia de vez o que queriam que ele fizesse, ou fazia de vez o que queriam que ele fizesse. Mas era improvável que ele descobrisse o que queriam dele; logo, seria forçado a fazê-lo. E nada jamais apagaria de sua memória a expectativarrevoltadecepção estampada no rosto daquelas pessoas.
Insinuo-me então no mirante, por entre a multidão, chego mais perto que o senhor, que começara o que ali acontecia; empurro o rapaz pelas costas, dou a ele a força de que precisava, e o livro de sua vergonha.
Aplausos.
(escrito por Henrique 'lex' Rocha)
quarta-feira, novembro 19, 2008
Miudeza.
É muito difícil achar a onomatopéia certa para as coisas: que barulho é que fazem os dedos dele na barriga dela, tamborinlantemente felizes rumo às zonas secretas entrecoxas ou então aos seiozinhos? O mais fácil foi feito: diz-se e explica e houve que ouve; mas é tsa-tsa-tsa-tsa, bem baixinho e um pouco mais molhado e aberto quando chega em zonas mais molengas de se ser, enquanto que os ossos (os caminhos dos dedos são sempre misteriosos, eles podem alcançar as asas de sua pélvis e aí...) produzem coisas mais tó-tó-tó ou, nas costelas, hahaha!.
Tem importância? Talvez ele ouça esses sonzinhos invisíveis de inventados; mas ela, enquanto instrumentada, é só tu-tum! tu-tum! tu-tum!.
Tem importância? Talvez ele ouça esses sonzinhos invisíveis de inventados; mas ela, enquanto instrumentada, é só tu-tum! tu-tum! tu-tum!.
sexta-feira, novembro 07, 2008
Revisão (a hora do chá).
Uma hora a literatura foge do nosso poder e então se torna um mundo por si só
[você pode escolher o estilo entre prosapoesiabomruiminteressanteintelectualconcretosimbóliconostradamusjoaquimdefreitas], e então você pode largar o livro ou segurá-lo ainda mais forte: o poder das frases feitas - ainda assim, pode parecer que não, mas só há um outro texto em toda a Internet (ao menos a parte atingida pelo Google) com a sentença "o poder das frases feitas".
Rebeca e Gustavo compartilhavam do bom sentimento que é olhar os olhos com os olhos: é aí que começa a confiança, é aí que se pode transar sem nenhum tipo de medo.
"Olho nos seus olhos e não noto sua barriga seus peitos pequenos as leves estrias de crescimento nas suas costas a celulite da bunda os pêlos em volta de seu cu seu gozo falseado."
Há 53 posts neste blog que contêm a palavra então em seu corpo. 54 com este. Isso diz bastante sobre o autor e sua noção de movimento, tempo e causalidade. A palavra átimo só aparece em 2 outros textos. Amor em 20. Há 9 em que amor e então coincidem. Amor e morte, 3. É a primeira vez que Rebeca e Gustavo aparecem; Carlos, em 11, Clara, em 4: se juntam em apenas 1. Só uma chance.
Era a primeira vez do casal, a primeira vez de cada um, e Gustavo olhava Rebeca nos olhos com os olhos, ele sabia que ela estava chorando e corando um pouco, ele gostava dela o bastante para segurá-la contra seu peito e esperar pacientemente pela calma. Seu cabelo cheirava bem - também, recém-lavado assim - e a toalha enrolada no corpo dela era tão macia quanto o corpo por baixo. Os fios negros molhavam o ombro esquerdo de Gustavo, que descia a mão pelo comecinho das costas (o de cima) dela e segurava sua cintura contra a dele.
O artifício de usar você como objeto da narrativa é relativamente recente, não vou apontar meu primeiro texto a usá-lo, porque foram vários e aos poucos. É uma forma de aumentar a capacidade de identificação das pessoas, de forçar a conjugação dos leitores, seja com o narrador, seja com o suposto receptor.
Rebeca não gostava de Gustavo.
Tentava se convencer disso, mas o cheiro do ombro dele era tão bom e familiar, tão suor e tão humano, enquanto ela fedia a sabonete e a água quente, a banho tomado numa tarde abafada. Se ela aceitasse tudo que ele oferecia a ela, certamente mudaria de cheiro, imundiciaria de Gustavo. E, ainda por cima, os olhos dele eram lindos.
Você pode sentir o autor por trás de tudo, semprissempre, não pode? O estilo é claro, posso mascará-lo de tantastantas formas, mas um leitor é sempre um leitor e sabe que eu não vou decepcioná-lo: pontualmente, intercalarei minhas anotações com a história que escrevo; não gosto de confundi-los, Rebeca e Gustavo.
Os dois se entreolharam, ela já não chorava e ele reconhecia algum tipo de beleza que desconhecia naquele rosto, aquela cara de cavalo dos olhos redondos e pretos, do cabelo preto, da sombra preta, da pele clara, ao contrário do moreno de seus próprios braços, de seus músculos adolescentes. Durante quanto tempo quisera beijá-la? Nem tanto. Ainda assim, naquele momento, ele queria jogá-la na cama e lamber seu rosto e sorrir tocando seu nariz com seu nariz, amar muito numa explosão de...
Carlos e Clara estavam sentados num banco de uma praça. Ela tentava explicar-lhe que possuía um namorado, que o esperava, que não queria conversa com nenhum estranho nesse meio-tempo, que estava lendo um bom livro, que odiava gente vindo pra cima dela, que odiava urubus, que odiava gaviões, que odiava todo tipo de animal que mata ou come, que era vegetariana convicta. Então Carlos convidou-a para o Gopala Prasada, ela o olhou decima abaixo e notou que era bonito, mais bonito que seu namorado, e que tinha boa dicção e que se vestia bem, que tinha mais ou menos a mesma idade que ela, que sorria, tinha cabelos muito bonitos; mas foram seus Olhos que a conquistaram em um só átimo: olho no olho no olho no olho. Era amor, era a morte.
Rebeca deixou a toalha soltar-se das costas, Gustavo começou a acariciá-la também ali, Rebeca virou a face para o outro lado, Gustavo fez com que ela virasse todo o corpo, Rebeca obedeceu, Gustavo retirou a toalha lentamente com as mãos, Rebeca estremeceu, Gustavo viu a toalha caindo no chão - deslizou menos suave do que havia imaginado - e passou a mão pela lateral do corpo dela, Rebeca estremeceu, Gustavo pegou-a com firmeza na cintura e tentou empurrá-la levemente para a frente, Rebeca disse que Daquele jeito não, Gustavo largou as mãos, confuso, Rebeca virou-se novamente para ele e sorriu, desajeitada, Gustavo olhou-a nos olhos, Rebeca puxou-o pela cintura, Gustavo caiu em cima dela, Rebeca caiu na cama.
Eu imagino que as pessoas não me entendam direito. Não sei o que as pessoas sentem quando leem meus textos, sei que algumas podem ter a impressão que escrevo para elas, e é verdade. Sempre escrevo para vocês, e aqui uso o artifício novamente. Todos vocês ou todas vocês? É fundamental que o autor consiga ser todas as personagens e que ele consiga escrever. A tarefa criativa é ingrata, no sentido que é provável que já tenham escrito e dito o que você pretendia de forma muito mais eficaz. Não sei se a eficácia é importante para o que pretendemos.
Ele sentiu frio e contraiu os músculos, ou vice-versa, e ela sentiu calor e contraiu os músculos e continou com calor quando o abraçou, um pouco assustada, depois de tudo. Ele retribuiu o abraço, um pouco desanimado, enquanto ela lhe dava um beijinho no peito, Rebeca disse que o amava muito e ele fez que sim com a cabeça. Gustavo estava vazio e não olhava para nada; embora não soubesse, estava feliz.
"may i feel said he/(i'll squeal said she/just once said he)/it's fun said she
(may i touch said he/how much said she/a lot said he)/why not said she
(let's go said he/not too far said she/what's too far said he/where you are said she)
may i stay said he/(which way said she/like this said he/if you kiss said she
may i move said he/is it love said she)/if you're willing said he/(but you're killing said she
but it's life said he/but your wife said she/now said he)/ow said she
(tiptop said he/don't stop said she/oh no said he)/go slow said she
(cccome?said he/ummm said she)/you're divine!said he/(you are Mine said she)"
[você pode escolher o estilo entre prosapoesiabomruiminteressanteintelectualconcretosimbóliconostradamusjoaquimdefreitas], e então você pode largar o livro ou segurá-lo ainda mais forte: o poder das frases feitas - ainda assim, pode parecer que não, mas só há um outro texto em toda a Internet (ao menos a parte atingida pelo Google) com a sentença "o poder das frases feitas".
Rebeca e Gustavo compartilhavam do bom sentimento que é olhar os olhos com os olhos: é aí que começa a confiança, é aí que se pode transar sem nenhum tipo de medo.
"Olho nos seus olhos e não noto sua barriga seus peitos pequenos as leves estrias de crescimento nas suas costas a celulite da bunda os pêlos em volta de seu cu seu gozo falseado."
Há 53 posts neste blog que contêm a palavra então em seu corpo. 54 com este. Isso diz bastante sobre o autor e sua noção de movimento, tempo e causalidade. A palavra átimo só aparece em 2 outros textos. Amor em 20. Há 9 em que amor e então coincidem. Amor e morte, 3. É a primeira vez que Rebeca e Gustavo aparecem; Carlos, em 11, Clara, em 4: se juntam em apenas 1. Só uma chance.
Era a primeira vez do casal, a primeira vez de cada um, e Gustavo olhava Rebeca nos olhos com os olhos, ele sabia que ela estava chorando e corando um pouco, ele gostava dela o bastante para segurá-la contra seu peito e esperar pacientemente pela calma. Seu cabelo cheirava bem - também, recém-lavado assim - e a toalha enrolada no corpo dela era tão macia quanto o corpo por baixo. Os fios negros molhavam o ombro esquerdo de Gustavo, que descia a mão pelo comecinho das costas (o de cima) dela e segurava sua cintura contra a dele.
O artifício de usar você como objeto da narrativa é relativamente recente, não vou apontar meu primeiro texto a usá-lo, porque foram vários e aos poucos. É uma forma de aumentar a capacidade de identificação das pessoas, de forçar a conjugação dos leitores, seja com o narrador, seja com o suposto receptor.
Rebeca não gostava de Gustavo.
Tentava se convencer disso, mas o cheiro do ombro dele era tão bom e familiar, tão suor e tão humano, enquanto ela fedia a sabonete e a água quente, a banho tomado numa tarde abafada. Se ela aceitasse tudo que ele oferecia a ela, certamente mudaria de cheiro, imundiciaria de Gustavo. E, ainda por cima, os olhos dele eram lindos.
Você pode sentir o autor por trás de tudo, semprissempre, não pode? O estilo é claro, posso mascará-lo de tantastantas formas, mas um leitor é sempre um leitor e sabe que eu não vou decepcioná-lo: pontualmente, intercalarei minhas anotações com a história que escrevo; não gosto de confundi-los, Rebeca e Gustavo.
Os dois se entreolharam, ela já não chorava e ele reconhecia algum tipo de beleza que desconhecia naquele rosto, aquela cara de cavalo dos olhos redondos e pretos, do cabelo preto, da sombra preta, da pele clara, ao contrário do moreno de seus próprios braços, de seus músculos adolescentes. Durante quanto tempo quisera beijá-la? Nem tanto. Ainda assim, naquele momento, ele queria jogá-la na cama e lamber seu rosto e sorrir tocando seu nariz com seu nariz, amar muito numa explosão de...
Carlos e Clara estavam sentados num banco de uma praça. Ela tentava explicar-lhe que possuía um namorado, que o esperava, que não queria conversa com nenhum estranho nesse meio-tempo, que estava lendo um bom livro, que odiava gente vindo pra cima dela, que odiava urubus, que odiava gaviões, que odiava todo tipo de animal que mata ou come, que era vegetariana convicta. Então Carlos convidou-a para o Gopala Prasada, ela o olhou decima abaixo e notou que era bonito, mais bonito que seu namorado, e que tinha boa dicção e que se vestia bem, que tinha mais ou menos a mesma idade que ela, que sorria, tinha cabelos muito bonitos; mas foram seus Olhos que a conquistaram em um só átimo: olho no olho no olho no olho. Era amor, era a morte.
Rebeca deixou a toalha soltar-se das costas, Gustavo começou a acariciá-la também ali, Rebeca virou a face para o outro lado, Gustavo fez com que ela virasse todo o corpo, Rebeca obedeceu, Gustavo retirou a toalha lentamente com as mãos, Rebeca estremeceu, Gustavo viu a toalha caindo no chão - deslizou menos suave do que havia imaginado - e passou a mão pela lateral do corpo dela, Rebeca estremeceu, Gustavo pegou-a com firmeza na cintura e tentou empurrá-la levemente para a frente, Rebeca disse que Daquele jeito não, Gustavo largou as mãos, confuso, Rebeca virou-se novamente para ele e sorriu, desajeitada, Gustavo olhou-a nos olhos, Rebeca puxou-o pela cintura, Gustavo caiu em cima dela, Rebeca caiu na cama.
Eu imagino que as pessoas não me entendam direito. Não sei o que as pessoas sentem quando leem meus textos, sei que algumas podem ter a impressão que escrevo para elas, e é verdade. Sempre escrevo para vocês, e aqui uso o artifício novamente. Todos vocês ou todas vocês? É fundamental que o autor consiga ser todas as personagens e que ele consiga escrever. A tarefa criativa é ingrata, no sentido que é provável que já tenham escrito e dito o que você pretendia de forma muito mais eficaz. Não sei se a eficácia é importante para o que pretendemos.
Ele sentiu frio e contraiu os músculos, ou vice-versa, e ela sentiu calor e contraiu os músculos e continou com calor quando o abraçou, um pouco assustada, depois de tudo. Ele retribuiu o abraço, um pouco desanimado, enquanto ela lhe dava um beijinho no peito, Rebeca disse que o amava muito e ele fez que sim com a cabeça. Gustavo estava vazio e não olhava para nada; embora não soubesse, estava feliz.
"may i feel said he/(i'll squeal said she/just once said he)/it's fun said she
(may i touch said he/how much said she/a lot said he)/why not said she
(let's go said he/not too far said she/what's too far said he/where you are said she)
may i stay said he/(which way said she/like this said he/if you kiss said she
may i move said he/is it love said she)/if you're willing said he/(but you're killing said she
but it's life said he/but your wife said she/now said he)/ow said she
(tiptop said he/don't stop said she/oh no said he)/go slow said she
(cccome?said he/ummm said she)/you're divine!said he/(you are Mine said she)"
segunda-feira, novembro 03, 2008
quinta-feira, outubro 30, 2008
cinema.
(no) cinema:
uma perna.
é uma perna?
é uma perna.
é só sua perna,
é só minha mão!
sua perna?
é sua perna,
é sua perna.
são os dedos
da minha mão.
(
e sua coxa?
a sua coxa.
ah, sua coxa!
é só quem prende
a minha atenção.
)
uma perna:
ah, a sua perna
é sua perna -
é só sua perna,
é só um vão.
uma perna.
é uma perna?
é uma perna.
é só sua perna,
é só minha mão!
sua perna?
é sua perna,
é sua perna.
são os dedos
da minha mão.
(
e sua coxa?
a sua coxa.
ah, sua coxa!
é só quem prende
a minha atenção.
)
uma perna:
ah, a sua perna
é sua perna -
é só sua perna,
é só um vão.
terça-feira, outubro 28, 2008
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